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O que faz de Cristiano Ronaldo o exemplo preferido dos especialistas  

Sociedade

Rakop Tanyakam / EyeEm/ Getty Images

Além da alimentação saudável e do exercício físico, o descanso é fundamental para uma vida de qualidade. Com o bónus de se envelhecer melhor

“Marcelo, que é conhecido por dormir poucas horas, é certamente a exceção; prefiro falar de Ronaldo”. Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono e coordenador do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, lembra o que deve ser o exemplo – como quem diz, a importância de valorizarmos o sono. “Gosto de falar do Ronaldo porque ele diz, reiteradamente, que ninguém lhe tira uma boa noite de sono, sobretudo antes dos grandes jogos. E isso é de todo o valor porque contraria esta ideia dos tempos modernos de que dormir é uma perda de tempo.”

Os relatos de dias que nunca acabam ajudam a perceber de que fala o especialista: horários de trabalho que se prolongam para lá do sol posto e se misturam com a vida familiar, além da quase omnipresença de ecrãs em todas as divisões da casa. “E depois o sono fica para depois...”, lamenta Joaquim Moita, a assinalar as inúmeras consequências disso, a curto e a longo prazo.

Antes de mais, a insuficiência ou privação prolongada do sono diminui a atenção, o raciocínio, a memória e a nossa capacidade de resolver problemas. “E a todos os níveis: laboral, social e familiar. Sabe-se também que é a origem de muitos acidentes, mas nunca se refere o sono quando se fala de prevenção rodoviária. Devia haver cartazes a dizer: ‘Se conduzir, durma bem...’, assinala ainda aquele médico.

A longo prazo, os efeitos tanto podem manifestar-se no desenvolvimento de doenças como a diabetes, doenças cardiovasculares e até mesmo cancro. “Nós sabemos que o nosso corpo é uma máquina complexa e que o sono tem uma função reparadora – se reduzimos o tempo necessário para esta funcionalidade completar o seu trabalho estamos a boicotar todo o investimento que possamos estar a fazer para um dia a dia saudável, agora e no futuro”.

E quando se sabe que mais de metade dos portugueses, entre os 18 e os 65 anos dorme menos do que as 7 a 9 horas recomendadas, sobejam razões para nos preocuparmos. A maior de todas é exatamente esta mania de contrariarmos o relógio interno, cujo funcionamento correto é vital. Uma das grandes culpadas, insiste Joaquim Moita, é a luz LED. “Vivemos cercados desta luz azulada, que é excelente porque é muito barata. Só que inibe a produção de melatonina, que é a hormona que regula o ciclo do sono, e começa a ser produzida ao final da tarde, princípio da noite. Já este tom azulado que nos rodeia é o mesmo que o nosso cérebro recebe do sol da manhã. À noite, tem o efeito de um boicote aos nossos padrões de descanso...”.

A laicização da sociedade é outro fator apontado por Joaquim Moita para justificar a desvalorização dos benefícios do sono – embora hoje se estejam a recuperar outras práticas no mesmo sentido. “Os livros de todas as grandes religiões - cristianismo, judaísmo e islamismo - dão grande importância ao sono. Antigamente, havia uma oração ao final do dia que iniciava o período de descanso. Hoje, curiosamente, as pessoas estão a adotar outras práticas - meditação, ioga, mindfulness... – com o mesmo fim: pôr um fim à atividade do dia.

O caso de Ronaldo...

O descanso é tão fundamental para Cristiano Ronaldo que se conhece a técnica e o seu autor: Nick Littlehales, o guru do sono que ajudou o campeão português a dormir melhor, criando uma rotina especial para ele. Segundo o especialista, o ideal é o sono bifásico, ou seja, aquele que se divide em dois blocos mais curtos à noite e outro durante o dia – ou o sono polifásico, em que se dorme vários blocos ao longo das 24 horas.

“Dormir oito horas por dia é um mito. É muito mais importante pensar no sono em ciclos por semana e não em horas por noite”, frisa o especialista, no seu perfil do Twitter. “Uma má noite em sete não é assim tão mau”, insiste, alegando que esta abordagem permite retirar a pressão do processo, porque não o limita a tudo ou nada, a cada noite.” Agora, seja qual for o plano que decida seguir, há um passo comum a todos eles: desligar dos dispositivos eletrónicos pelo menos uma hora e meia antes de ir para a cama.

...e da Religião

Na Bíblia, na Tora e no Alcorão, a importância do sono está profusamente representada e são surpreendentes os múltiplos ensinamentos corretos sobre o sono, que anteciparam em milhares de anos a ciência moderna. O Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo dão importância ao ritmo do sono e vigília, à obscuridade e à luz, à harmonia com a natureza e os outros seres vivos. Os pretextos para conversar sobre sono e religião, a partir dos textos sagrados destas religiões, variam desde as recomendações para a sesta até à indicação da posição em que se deve dormir, passando pelo momento das orações como relaxamento e a meditação que são prescritas nas atuais regras de higiene de sono.

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