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Kondomania: Quem é, ao que vem e o que podemos aprender com Marie Kondo

Sociedade

Denise Crew/Netflix

Dizer adeus aos objetos que não emanam alegria é a filosofia de Marie Kondo, celebridade mundial das arrumações – e estrela da Netflix

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

"O meu sonho é organizar o mundo”, diz Marie Kondo nas suas palestras. A ambição da japonesa soa a projeto político, mas não é de uma nova ordem internacional que se trata. A estrela da série Marie Kondo: A Magia da Arrumação, disponível em 190 países na plataforma de streaming Netflix, é mestre da organização doméstica. A japonesa visita as casas desarrumadas de famílias norte-americanas e ajuda-as a dizerem adeus à confusão. A dificuldade com a língua inglesa obriga-a a fazer-se acompanhar de uma intérprete, o que contribui para a sua aura de oráculo da arrumação. A popularidade é tal que a hashtag #KonMari, na rede social Instagram, soma mais de 192 mil partilhas. Chegou a Kondomania.

O contraste entre o metro e quarenta de altura de Marie Kondo e as gigantescas pilhas de desarrumação com as quais se depara é evidente. Através do método KonMari, a empresária de 34 anos promete otimizar não só as casas mas também os seus residentes, é essa a magia da arrumação: “As pessoas enfrentam as suas ansiedades relativamente ao passado e ao futuro e percebem o que realmente querem da vida”, diz.

Divulgacao

Em vez de arrumar uma divisão de cada vez, o método implica começar por fazer uma pilha com todos os objetos de uma determinada categoria – roupa, livros ou utensílios de cozinha, por exemplo. Ao confrontarem-se com essa montanha de coisas, as famílias tomam consciência da quantidade de bens desnecessários que guardam em casa. A seguir, devem pegar em cada um dos objetos e perguntar: “Traz-me alegria?” Kondo acredita que a resposta surge instintivamente. Mesmo uma t-shirt esburacada pode transpirar alegria – tokimeku, em japonês. Nesse caso, pode ser guardada. Se a resposta for negativa, está na hora de a dispensar, mas primeiro é-lhe devido um agradecimento verbal por ter cumprido a sua missão. Só depois se arrumam os “objetos felizes”. Nunca humilha as pessoas pela sua falta de organização. “Adoro confusão” é uma das suas máximas. A empatia, o seu trunfo.

Filha de um médico e de uma dona de casa, Marie Kondo cresceu em Tóquio, juntamente com os dois irmãos. Tinha apenas 5 anos quando começou a interessar-se pelos princípios do feng shui (a organização do espaço, preservando as suas energias positivas). Aos 15, a obsessão pela organização deixou-a à beira de um esgotamento nervoso. Essa experiência traumática levou-a a inverter a sua filosofia: em vez de se focar em coisas para deitar fora, passou a dar prioridade aos objetos que queria manter.

POLÉMICAS POUCO ALEGRES

Começou a reorganizar as casas dos amigos para ganhar algum dinheiro extra quando ainda frequentava o curso de Sociologia – cobrava 100 dólares (€88) por cinco horas de trabalho. O sucesso era tal que, em pouco tempo, tinha uma lista de espera de seis meses. Surgiu, assim, a ideia de escrever um livro para apaziguar os clientes que aguardavam pela primeira consulta. Depois da publicação da edição japonesa de Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida (Pergaminho), em 2011, fez as suas primeiras aparições televisivas. Estava a caminho de se tornar uma superestrela no seu país. No ano seguinte, casou-se com Takumi Kawahara, hoje seu manager. O casal tem duas filhas – Kondo admite que se tornou menos exigente nas arrumações após o nascimento das bebés...

O primeiro passo em direção ao estrelato nos Estados Unidos da América foi a crítica do jornal The New York Times à edição norte-americana do livro, lançada em 2014. O artigo destacava a visão animista de Marie Kondo, que considera todos os objetos merecedores de compaixão e respeito – até os pares de peúgas –, já que todos têm kami, ou seja, essência divina, uma crença com raízes xintoístas, daí os agradecimentos verbais aos objetos. “Sempre me senti mais confortável a conversar com coisas do que com pessoas”, afirmou.

Ao todo, os seus livros venderam mais de 11 milhões de cópias em 40 países. Há três anos, Kondo começou a certificar consultores que seguem o seu método. Hoje, existem cerca de 300, distribuídos por 23 países. O seu império das arrumações está avaliado em 7 milhões de euros.

A metodologia KonMari tem sido alvo de críticas por fazer a apologia da alegria, em detrimento das outras emoções. No universo literário, ouviram-se vozes contra a ideia de que só os livros felizes devem ser guardados. Afinal, a literatura – e a arte em geral – não existe apenas para provocar sensações agradáveis. Paradoxalmente, Marie Kondo é vista como fonte de inspiração para comprar menos coisas (mas com mais qualidade) e, ao mesmo tempo, é acusada de contribuir para o hiperconsumismo. Afinal, muitas pessoas dispensam objetos e, a seguir, compram novos com as mesmas funções.

A série também tem ajudado a questionar os papéis de género. Na maioria dos episódios, continuam a ser as mulheres a carregarem o fardo de organizar a vida doméstica. Muitas mostram-se envergonhadas perante a guru da arrumação, enquanto os homens não se sentem responsáveis pelo caos. Apesar de a palavra feminismo nunca ser dita, Kondo insiste que todos os membros da família são responsáveis por manter a ordem.

A cultura japonesa não é alheia aos seus métodos. A filosofia do wabi-sabi (a beleza imperfeita, impermanente e incompleta) foi uma das suas inspirações, já a influência zen é evidente na valorização do minimalismo. E as reduzidas dimensões das residências japonesas estão igualmente na origem da sua obsessão pela organização. Apesar das diferenças culturais, Kondo acredita que a desarrumação “é um problema universal”. O mais atrativo não é ter as gavetas organizadas, mas viver num mundo menos imprevisível. Afinal, talvez Kondo tenha sensibilidade política.

Os mandamentos de Marie Kondo

O método da japonesa tem vários passos:


Compromisso É fundamental encontrar motivação – e tempo – para arrumar a casa de uma ponta à outra

Objetivo Identificar os motivos do desejo de reorganizar e o que se pretende atingir no final do processo

Descartar A arrumação implica, inevitavelmente, rejeitar objetos que já não são úteis

Categorias Juntar todos os objetos do mesmo tipo, em vez de arrumar por divisões

Ordem Roupa, livros, papéis, komono (tralha) e objetos sentimentais, deve ser esta a sequência da arrumação

Felicidade Guardar apenas os objetos que emanam alegria

Exemplo: O guarda-fatos

1. Retire toda a roupa para fora e faça uma montanha

2. Selecione peça a peça. Pratique o desapego e guarde apenas as roupas que lhe despertam o sentimento de alegria. Agradeça às peças de que se vai desfazer

3. Para dobrar as peças coloque-as numa superfície lisa. Vá dobrando até conseguir formar um retângulo pequeno. Guarde os retângulos de pé na gaveta. Além de ocupar menos espaço, este método permite visualizar todas as peças, lado a lado, em vez de estarem umas em cima das outras. Dica: não arrume as meias em forma de bola, uma vez que isso estraga os elásticos

4. Quase todas as peças podem ser dobradas assim. Pendure o menos possível, reservando os cabides apenas para vestidos e casacos

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