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A ponte de Entre-os-Rios caiu há 18 anos: Como da tragédia nasceu uma associação que salva vidas (e corações)

Sociedade

Os 59 castiçais colocados junto ao monumento são acendidos regularmente - como faz Augusto Moreira, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas

Marcos Borga

Ao mesmo tempo que choviam donativos e toda a espécie de ajudas, surgia uma associação para dizer: "A tragédia não foi em vão"

Marcos Borga

Marcos Borga

Repórter Fotográfico

Augusto soube que a ponte caíra pouco depois dos acontecimentos e confessa que nem se lembrou logo da mãe e do irmão que seguiam no autocarro. Só mais tarde caiu em si. Chefe da PSP, tinha sido treinado para lidar com o pior, mas não teve coragem de ir a Entre-os-Rios logo a seguir à derrocada. A carteira da mãe apareceria mais tarde em Espanha. Decidiu queimá-la e espalhar as cinzas na campa do pai. Do irmão, nada. A partir daí estava feita a sua escolha: “os corpos já não vão aparecer, vamos retomar a vida”, recorda Augusto Moreira, hoje presidente da Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios. Como quem diz, “vamos devolver à comunidade o apoio incondicional que nos deram”.

É a maneira que encontrou para dizer que se desejava um outro destino para os donativos que chegavam. “E de exigir que os dinheiros voltassem a quem de direito, porque infelizmente estava a acontecer o que se verificou agora em Pedrógão e noutros locais”, continua. Entre dentes, depois, há de deixar escapar outro desabafo: “Nós não queríamos dinheiro, queríamos era que não tivesse acontecido”.

Além dos familiares desaparecidos, o seu coração estava também com as muitas crianças dadas como mortas na tragédia. Para cima de 15. Com isto no pensamento, indagaram junto do Instituto de Segurança Social quais eram as necessidades da região. Foi assim que chegaram à ideia de erguer uma casa de acolhimento para menores em risco, retirados às famílias por ordem judicial. E instalaram-se em Oliveira do Arda, na freguesia de Raiva, onde vivia a maioria das vítimas, ali no concelho de Castelo de Paiva.

Imagine-se uma encosta com vista para o rio, rodeada de 59 amendoeiras agora cheias de flor – e uma casa que acabou por ser um bote salva-vidas para muitos, como conta Marlene Gomes, diretora técnica da Crescer a Cores, que há um mês festejou dez anos. A instituição fornece ainda apoio psicológico a quem quiser e ao longo do tempo têm sido mais as vitórias do que as derrotas.

Uns ultrapassaram a falta de luto sem grande dificuldade - como António, 47 anos, funcionário do Centro de Orientação de Doentes Urgentes do INEM, que cinco dias depois já tinha ido trabalhar. “Foi a forma que encontrei de me sentir útil e não ceder aos acontecimentos”, diz o irmão mais novo de Augusto.

A outros nada parece diluir a dor da saudade. Um dos mortos no acidente foi o irmão de Sónia. Hoje com 40 anos, Sónia Gonçalves não esquece que não passou na ponte por volta daquela hora como planeado porque se atrasou a sair da casa da sogra. Lembra-se também demasiado bem do estrondo que se fez ouvir. "Estávamos a 50 metros. Parecia um tremor de terra.” Ainda entraram no carro, mas de repente há alguém em marcha-atrás que lhes bate no espelho. “Não avancem, a ponte caiu.”

O seu pensamento foi logo para o seu irmão, Paulo, 21 anos acabados de fazer, e que telefonara pouco antes a avisar que ia a caminho. Não voltou a dar sinais de vida. O corpo acabou por aparecer no dia dos anos da mãe, no final de março - uma recuperação feita com grua e transmitida em direto pela televisão. “Só me lembro da minha mãe a gritar a pedir para a deixarem passar e o caminho estar barrado.” Para Sónia, seguiu-se um rosário de tratamentos em psicologia e psiquiatria. “As pessoas dizem que com o tempo se vai acalmando esta revolta. Acho que não. A saudade é cada vez maior.”

Há mais quem saiba bem do que fala. Veja-se o caso de Eliane Moreira, irmã do motorista do autocarro. Com o aproximar da data de mais um aniversário, mal consegue falar conter as lágrimas. Falar sobre isso nem pensar. Só quando lhe perguntamos pelos meninos que acabou por adotar é que não resiste a um sorriso.

É uma história que começou com a chegada de Pedro e Alexandre à Crescer a Cores. Eram dois gémeos guineenses que ainda não tinham idade para ir à escola e cuja mãe desaparecera. O pai, esse, mal lhes ligava. Quando os miúdos ali chegaram agarram-se a Eliane de imediato.

“Eles dizem-me: adoro-te mãe, mas o avô é que é o nosso herói.” Ao ver a fotografia desta nova família toda junta, é fácil compreender o que significam aquelas palavras.

Uma famìlia feliz: Eliane ao lado dos filhos adotivos, com o pai, a mãe e a irmã

Uma famìlia feliz: Eliane ao lado dos filhos adotivos, com o pai, a mãe e a irmã

Deprimidos e medicados anos a fio, o pai e a mãe de Eliane também ganharam uma vida nova. “Os meus filhos devolveram-lhes a alegria de viver. As pessoas dizem muitas vezes que saiu o euromilhões a estes meninos, mas eles deram-nos tanto, a mim e aos meus pais, mas tanto...”

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