Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

"Segurança zero" no armazém da PSP de onde foram desviadas as 57 pistolas Glock

Sociedade

Getty Images

Uma porta vulgar, uma fechadura de trazer por casa, um único agente ao serviço e nem uma só câmara de videovigilância. O gradual furto das Glock, ao longo de 2016, do armazém de armas da Direção Nacional da PSP era um crime à espera de acontecer

Esta história começa com uma tragédia: em finais de 2015, o único agente a exercer funções na Secção de Armamento da Direção Nacional da PSP, em Lisboa, suicidou-se com a sua arma de serviço. Um chefe, superior imediato, escreveu então que desconhecia as razões do ato do subalterno, num "mail" que enviou à hierarquia. Com arriscada franqueza, o referido chefe acrescentava que "não prestava o devido acompanhamento profissional naquela Secção". Mas justificava essa falha com a acumulação de funções que tinha - também chefiava a Secção de Equipamentos e Instalações e a Secção de Controlo e Segurança da Penha de França, na capital, onde se situa a Direção Nacional. Lembrava ainda que os chefes que o antecederam nas mencionadas funções, com a mesma acumulação, "não queriam saber daquela Secção [a do armamento]".

Isto é o que se lê num dos desconcertantes documentos que constam de um processo administrativo, de acesso público e que a VISÃO consultou, paralelo ao inquérito-crime que investiga o desvio de 57 pistolas Glock (nos seus estojos, com carregadores e munições) da Secção de Armamento da PSP, ao longo de todo o ano de 2016, aos poucos, para que não fosse detetada a sua falta. As pistolas seriam depois introduzidas no mercado negro do crime.

Por sinal, o chefe atrás referido, na mesma altura em que a PSP foi sacudida pelo suicídio do agente que assegurava o serviço na arrecadação das armas, dizia aos seus superiores hierárquicos, igualmente por "mail", que era "necessário fazer o inventário de tudo o que lá se encontra, a fim de se apurar a quem pertence, se de facto deve estar em armazém naquela Secção ou se deveria estar na posse dos seus detentores". Ou seja: à época, a Direção Nacional da PSP desconhecia que material de guerra, entre metralhadoras, shotguns, pistolas-metralhadoras e pistolas individuais, tinha no respetivo armazém.

O chefe em causa alertava também os seus superiores para a premência de terminar com o hábito de colocar um só agente na secção das armas. Defendia que a equipa ali em funções "devia ser constituída por, pelo menos, um Chefe e dois Agentes". Mas a sugestão seria ignorada pela hierarquia. Apenas um agente foi colocado na Secção de Armamento - o qual está agora em prisão preventiva, suspeito de ser o autor do desvio das 57 Glock.

QUE TAL UMA PORTA DE ALTA SEGURANÇA?

Retrocedendo na cronologia, o inventário em falta foi feito por esse agente e enviado por "mail", em dezembro de 2015, ao seu superior, o chefe mencionado. Seguiu-se uma vistoria à Secção de Armamento, em cujo relatório, vertido num despacho do comissário então Chefe do Núcleo de Equipamentos, se apontam aos superiores hierárquicos falhas de segurança de todos os tipos.

No seu relatório, aquele comissário propõe superiormente que "a porta atual da arrecadação seja substituída por uma porta blindada com corta fogo, ou porta chapeada com fechadura de alta segurança com trancas laterais e verticais"; que "como reforço de segurança possa vir a ser instalado um alarme com detetor de movimentos no interior da arrecadação"; e que "possa ser equacionada a colocação de uma câmara de videovigilância a apontar para a porta da arrecadação".

Estranhamente, o próprio agente em serviço na arrecadação do armamento, o mesmo que se encontra hoje em prisão preventiva, sob a suspeita de ser o autor do desvio das Glock, alertava por "mail" o seu superior hierárquico, em março de 2016, para a falta de "condições de segurança para a guarda e armazenagem de armas", elencando ainda mais deficiências do que o relatório de vistoria. Este "mail" deu origem a outra comunicação do chefe daquele agente, dirigida a um subintendente, então Adjunto do Diretor do Departamento de Apoio Geral, da Direção Nacional. O responsável direto pela arrecadação de armamento reforçava que o armazém não tinha "espaço nem condições materiais e de segurança para que as armas sejam lá depositadas pelos elementos policiais que não estejam impedidos de as ter na sua posse". E declarava que era "necessário e urgente arranjar um local e dotar o mesmo de medidas de segurança e ambientais". Não estava só em causa a guarda eficiente das armas, mas também as condições do armazenamento, de forma a "não se danificarem".

Por fim, os documentos consultados pela VISÃO aludem ao pormenor de haver pelo menos uma chave da arrecadação de armamento pendurada no corredor que conduzia ao gabinete do Diretor do Departamento de Apoio Geral, de acesso livre para elementos policiais (e são cerca de 600 os que diariamente trabalham na Direção Nacional). Ou seja, estava ao alcance de quem, legitima ou ilegitimamente, a quisesse usar, correndo-se o enorme risco de alguém fazer cópia dela.

Contactada pela VISÃO, a Direção Nacional da PSP limitou-se a informar, através do seu porta-voz, intendente Alexandre Coimbra, que em paralelo com a comunicação ao Ministério Público do desaparecimento das armas em questão, decorreu um inquérito interno, na sequência do qual "foram instaurados três processos disciplinares" e "identificada a necessidade de revisão dos mecanismos e procedimentos relativos à guarda de armas", o que "foi efetuado, tratando-se de matéria reservada".

O furto das Glock seria detetado em fins de janeiro de 2017, quando um traficante de droga foi apanhado com uma destas pistolas, com a inscrição "Forças de Segurança", numa operação da PSP, no Porto. Dois meses depois, a então ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, anunciou que a averiguação que ordenara "concluiu por faltas graves de controlo" na Secção de Armamento da Direção Nacional daquela polícia. E determinou a realização de inventários às armas e munições da PSP (mais um...), GNR e SEF.

A linha de investigação do processo-crime aponta o agente da PSP em prisão preventiva como o alegado autor do desvio das Glock, que depois supostamente vendia a um intermediário que as colocava no mercado negro das armas. O referido intermediário está também em prisão preventiva, sob a suspeita acrescentada de ser, por outro lado, um dos assaltantes dos paióis militares de Tancos. Mas esta ligação, acreditam os investigadores, é uma coincidência - apesar de as 1 500 munições de 9mm furtadas de Tancos, e que continuam desaparecidas, serem usadas nas Glock. As pistolas, como já se disse, foram desviadas aos poucos durante 2016 e, estão os investigadores convencidos, rapidamente colocadas no mercado do crime. O que torna inverosímil, crêem, que as munições roubadas em Tancos, demasiado tempo depois, em junho de 2017, se destinassem às Glock furtadas da PSP.

As últimas informações oficiais indicam que foram recuperadas, em operações policiais, oito das 57 Glock - quatro em Portugal e outras quatro em Espanha, sempre na posse de gangues criminosos ligados, sobretudo, ao tráfico de droga. Contas feitas, continuam "a monte", pois, 49.