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Agora, a tendência são festas logo de manhã e nós fomos a uma

As festas ao romper do dia já chegaram a Lisboa. Às quartas, das sete às dez da manhã, sem álcool e antes do trabalho, a música chama-nos para a pista como numa noite de copos. Dia 6 é já a próxima, no Juicy, em Lisboa

André Moreira

André Moreira

Jornalista Multimédia

Diana Tinoco

Diana Tinoco

Repórter Fotográfica

Na véspera da nossa primeira festa matinal, o recolher deu-se mais cedo, numa tentativa de dormirmos as tais sete ou oito horas recomendadas. Mas nem isso impediu um penoso levantar, ainda quase de noite, depois de o despertador tocar insistentemente. Não apetece sair da cama para... dançar! Mas é isso que faz, sem sacrifício, quem vai ao Regabofe Matinal – o nome das festas que acontecem nas primeiras quartas de cada mês, das 7h às 10h da manhã, no Juicy. E nas terceiras, no restaurante Great American Disaster.

Quando chegamos à ainda deserta Rua de São Julião, em plena Baixa lisboeta, e paramos à porta do Juicy, um restaurante que serve refeições saudáveis, a música já escapa da porta. Passa meia hora das sete, mas Joana Sousa Lara, 28 anos, está com cara de quem acordou há muito. É ela quem nos recebe com alegria, nos carimba o pulso e nos cobra cinco euros para entrar (com direito a café, chá ou cappuccino). A sala está quase vazia, à exceção de dois pares de amigos que tomam o pequeno-almoço e tentam conversar, ainda que os decibéis estejam nos píncaros. A luz que sai dos candeeiros em formato de bola vai alternando entre azuis, amarelos e vermelhos – até parece uma discoteca, apesar de estarmos num sítio onde habitualmente só se come.

Os franceses Clemont e Vivian adotaram Lisboa há quase dois anos. Não vivem nem trabalham nas redondezas do Juicy, mas marcaram o encontro para aqui, neste horário madrugador, porque de outra forma não conseguem ver-se durante a semana. Acordaram 60 minutos mais cedo para espreitarem a festa, até porque Clemont já esteve numa do género, em Nova Iorque, e ficou fã. Aqui, os dois amigos estão sentados, frente a frente, com vista para a rua que continua sossegada, e pedem uma banana toast. Só que não se levantam para dançar e saem antes de haver quórum na sala. O Juicy nunca esteve a abarrotar, mas há de ficar bem mais composto.

Um pequeno-almoço dançante

Indiferente a quem entra ou não, Miguel Pires, 32 anos, segue na cabine do DJ, oscilando entre música eletrónica, funk e disco. Entretanto, explica-nos que trouxe este conceito de festas ao amanhecer dos tempos em que trabalhava em Varsóvia. Quando falou da ideia à namorada Joana, especialista em organização de eventos, acrescentou uns pozinhos à la portuguesa. A música teria de ser mais abrangente e alegre e a comida não podia resumir-se às sanduíches embaladas que comeu na Polónia. “A ideia é boa, mas torna-se difícil arrancar as pessoas da cama”, repara. A escolha do Juicy não foi, por isso, aleatória. Joana costumava vir aqui almoçar e, quando expôs o conceito à dona, ela aderiu de imediato. A oferta saudável e diferenciada, por entre ovos, abacate ou tigelas de açaí, faz sentido para este pequeno-almoço dançante.

Depois de quatro edições no mesmo sítio, o Regabofe Matinal expandiu-se para o Great American Disaster, no Marquês do Pombal. Desde dia 20 de fevereiro, todas as terceiras quartas-feiras de cada mês, no mesmo horário e nos mesmos moldes, pode dançar-se e comer neste lendário restaurante norte-americano. Joana Sousa Lara também planeia fazer aqui uma “edição brunch”, ao fim de semana, do meio-dia às três, e outras ao final do dia (a primeira aconteceu no dia dos namorados). No futuro, quer ir bater à porta de empresas para vender a ideia e conseguir convencer os diretores de recursos humanos que isto pode ser uma mais-valia para os trabalhadores. Afinal, como defendem os criadores deste conceito matinal (ver caixa), “dançar sóbrio, em comunidade, de manhã, liberta as hormonas da felicidade (dopamina, oxitocina, serotonina e endorfinas)”.

A Associação Portuguesa de Farmácias não esperou que a campainha tocasse. Quando Joana Pinto, 43 anos, recebeu no grupo de pais do WhatsApp um link para esta festa, pensou que seria boa ideia para uma ação de team building. Desafiou 80 pessoas para um convívio informal, antes de todos irem trabalhar. Responderam mais de 20 e ainda se ligaram aos colegas do Porto, via computador. “Costumamos fazer isto, em equipas mais pequenas, e ao final do dia. Desta vez, decidimos inovar, para começarmos o dia com mais energia”, conta.

Pelas 9 horas, o grupo levanta-se e enche o espaço livre para a dança. Quando soa a música Wannabe, das Spice Girls, ninguém consegue ficar impávido. Por pouco, nem deixavam o cantinho junto ao DJ livre para Joana, 36 anos, Nuno, 37, e Pedro, 50, três amigos que entraram aqui com a atitude certa, pois sabiam ao que vinham. Só pararam de dançar enquanto tomavam o pequeno-almoço. “Queremos aproveitar tudo. Hoje só vou trabalhar às onze. Compenso depois”, assume Pedro. Já Joana pensa na festa como uma alternativa ao ginásio, onde costuma ir: “Aqui é mais divertido e não suo tanto”, confessa.

Batem as dez. A música desce imediatamente de tom. Os resistentes pegam nos casacos e saem. Miguel despe a capa de DJ e corre para a reunião marcada para as 10h30. O Juicy abre oficialmente as portas, em velocidade de cruzeiro. Já nós, podíamos habituar-nos a isto. Sabe bem um pequeno-almoço fora, uns passinhos de dança e o shot de gengibre para aguentar o resto do dia com boa cara.

Diana Tinoco

E lá fora, como é?

Radha Agrawal e Matthew Brimer são dois amigos de Nova Iorque que se fartaram do ambiente pesado da noite. Decidiram, em 2013, criar um conceito de divertimento diferente – formaram a Daybreaker, que promove festas a começar por volta das seis da manhã, com uma aula de ioga. Seguem-se duas horas ininterruptas de música para dançar.

Em alguns casos, há artistas convidados para animar os convivas, e snacks que circulam para enganar a fome, enquanto se pula. Em caso algum é servido álcool. Os bilhetes, que custam entre 25 e 44 euros (conforme se adere ao ioga ou apenas à dança), dependendo da cidade, incluem kombucha (uma bebida de chá fermentado) e os tais petiscos, enquanto os houver.

A ideia vende-se com muito sentido de comunidade: “Não precisamos de álcool. Não precisamos de fingir que somos outras pessoas. Vimos exatamente como somos, para suar, dançar e conviver uns com os outros”, dizem os criadores. Hoje, seis anos depois, há madrugadas destas marcadas em 22 cidades do mundo, a maioria delas nos EUA. É só ir ao site para consultar onde será a próxima e comprar os bilhetes para onde der mais jeito, pois tudo se passa online.

Há outros modelos, noutras cidades, mas a filosofia mantém-se: a dança a servir de boost para um dia energético.

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