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O documentário que a Netflix retirou depois da contestação de dentistas à ideia de que tratar os dentes pode causar cancro

Sociedade

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O realizador do documentário afirma que um tratamento dentário pode ser causa de inúmeros problemas de saúde, incluindo ansiedade, problemas cardíacos e mesmo cancro. A alegação deixou furiosos os especialistas na área que esclarecem que tratamentos usados no filme são ultrapassados e obsoletos

A plataforma de streaming norte-americana Netflix retirou do seu cátalogo o controverso documentário “Root Cause” (a raiz do problema) e apagou toda a informação associada ao mesmo.

O filme, que estrou na plataforma em janeiro de 2019 e é baseado na experiência do realizador australiano Frazer Bailey, alega que entre as sequelas que um tratamento clínico das raízes dos dentes estão cancro, problemas de coração e outras doenças crónicas. O documentário apresenta a extração como a melhor maneira de tratar um dente infetado.

Apesar do elevado custo de produção e dos depoimentos considerados controversos de dentistas como o canadiano Weston Price e o americano Hal Huggins e do químico Boyd Haley que corroboravam as alegações de Beiley, o documentário foi fortemente criticado pela falta de bases científicas credíveis que apoiassem as suas teses.Inúmeras associações de dentistas avisaram que o filme podia ser prejudicial, uma vez que espalhava desinformação sobre tratamentos médicos seguros.

Jeffrey M. Cole, Presidente da American Dental Association, diz que “o filme contém uma quantidade significante de desinformação que não é apoiada por provas cientificas e pode causar um receio injustificado na audiência.”

António Ferraz, médico dentista português, viu o filme “para poder ter uma opinião construída com base naquilo que lá era retratado” e corrobora que grande parte das teorias e práticas expostas no filme “não tem qualquer tipo de fundamento”: “A inflamação crónica dos tecidos da boca, especialmente a doença periodontal (doença nos tecidos que suportam os dentes), tem sido associada a problemas sistémicos como diabetes, doenças cardiovasculares, respiratórias, doença de Alzheimer, bebés com baixo peso ao nascer, cancro de pâncreas e artrite reumatoide. Os benefícios do tratamento da inflamação e ou infecção na boca como um meio de tratar doenças sistémicas encontra-se demonstrado.”

“O caso conforme relatado não tem qualquer tipo de fundamento ou paralelo à luz do conhecimento científico atual", garante, à VISÃO, o especialista,explicando que "nos primórdios do século XX, surgiu uma teoria apresentada por William Hunter, cirurgião britânico e mais tarde pelo médico americano Frank Billings, apelidada de 'teoria da infeção focal''. Esta teoria, em que baseiam os trabalhos de Weston Price, nos anos 20 do século passado, sugere que uma infeção localizada numa determinada zona corporal poderia disseminar-se originando, à distância, nova infeção noutro local, sendo que, a dentição seria um dos focos causais. "Esta teoria foi a causa da desdentação de um amplo leque da população na época, sendo que ao longo do tempo foi cientificamente comprovada que não tinha validade”, acrescenta o médico.

Existem várias alegações controversas no filme, nomeadamente, que seria mais eficaz arrancar o dente em vez de o tratar, algo que António Ferraz afirma ser “uma sugestão plausível na idade média”: “Se tiver uma infeção num dedo ou numa mão corta-a ou trata a infeção e preserva o membro? Se tiver uma apendicite é erradicado o apêndice porque é uma zona que quando contaminada pode disseminar a infeção para o resto do organismo por se tratar do tipo de tecido que é, no entanto, não se tira o intestino todo. O mesmo se faz no tratamento endodôntico: quando a polpa dentária que existe no interior do dente, num espaço designado de cavidade pulpar, é irreversivelmente afetada ou se encontra necrótica e com processo infeccioso ela é removida e o espaço que esta antes ocupava (cavidade pulpar) é preenchido por um material obturador que o irá selar, permanecendo o dente em boca.”

O documentário afirma ainda que existe uma ligação entre o cancro da mama e problemas nas raízes dos dentes, referindo que “cerca de 98% das mulheres que tem cancro na mama do mesmo lado que um dente estragado”, António Ferraz explicou o porquê deste raciocínio ser falacioso: “a maior incidência de mulheres com cancro de mama está na faixa etária de 50 a 75 anos, sendo a mesma faixa etária que apresenta maior prevalência de dentes com tratamento endodôntico (desvitalizados). Seria o mesmo que dizer que se alguém tem por hábito comer chocolate e contrai um cancro do intestino então comer chocolate provoca cancro ou, por exemplo dizer que 98% das pessoas com cancro de mama têm rugas na pele, logo as rugas causam cancro de mama."

Um estudo publicado na revista da Associação Médica Americana (JAMA Otolaryngology—Head & Neck Surgery) concluiu em 2013 que o risco de cancro não aumenta após um tratamento de canal radicular.

O médico investigador no Instituto de Investigação e Formação Avançada em Ciências e Tecnologias da Saúde tranquiliza os pacientes que tenham, eventualmente, ficado com receio de novas visitas ao dentista após este documentário: “Não, não devem recear [a intervenção cirúrgica]. Todos os tratamentos dentários, nomeadamente o tratamento endodôntico, desde que realizados de acordo com as Legis Artes que pressupõem um diagnóstico correto e adequado, um plano de tratamento eficaz e depois um tratamento efetuado com as condições técnicas e de assepsia necessárias e com um seguimento clínico adequado têm uma taxa de sucesso elevada (acima dos 90%) não devendo portanto as pessoas temer este tipo de tratamentos desde que, como disse, bem realizados.”

A empresa não respondeu a comentários de forma a justificar a decisão de ter retirado o filme do seu catálogo, deixando o público a especular sobre a razão.

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