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A arte da evacuação: o segredo está nos pés

Sociedade

bubaone Lucilia Monteiro

Todos o fazemos, sempre o fizemos e sempre o faremos. Mas será que afinal não sabemos fazê-lo? A posição certa mexe com a saúde

É uma triste realidade: quanto mais a ciência avança, mais as pessoas se queixam dos danos colaterais da civilização. Nunca, na História da Humanidade, se viveu até tão tarde como agora. Mas, vocifera-se, a comida moderna está a matar-nos, o estilo de vida está a matar-nos, o próprio ar está a matar-nos. Até os medicamentos nos matam, diz-se, com uma pitada de ironia – umas vezes é uma preocupação sustentada, como a resistência aos antibióticos, outras é uma paranoia alimentada por especialistas de YouTube, como os movimentos antivacinação. O que é natural é bom, o que é artificial é mau, repete-se furiosamente nas redes sociais, recorrendo-se a telemóveis de última geração.

Esta desconfiança da modernidade e o anseio pelo regresso ao passado já chegaram à casa de banho. Há oito anos, blogues de lifestyle começaram a elogiar um tal de Squatty Potty, um pequeno banquinho de plástico que se coloca à frente da sanita. Juravam que uma pessoa sentada com os pés em cima do objeto ficava com o corpo agachado, numa posição mais natural, e portanto tudo fluía mais naturalmente. Afinal, foi essa a posição usada por homens e mulheres durante milhares de anos, antes de terem o apoio de um pedestal com um buraco no meio. Desde meados do século XIX, quando se democratizaram as sanitas na Europa, que o fazemos na posição errada, alegam os defensores do agachamento estratégico. A evolução das entranhas não terá acompanhado a evolução da sociedade, na sua busca por conforto.

O Squatty Potty saiu das cabeças de uma família do estado americano do Utah, e da forma mais simples que se possa imaginar: Judy Edwards sofria de prisão de ventre, um problema que piorava com o avançar da idade; um médico sugeriu-lhe elevar os joelhos, com uma plataforma debaixo dos pés, para se libertar melhor; apesar de Judy, na altura, ter vergonha em falar do assunto, o filho, Bobby, convenceu-a a abrir o livro, e logo se predispôs a adaptar-lhe um degrau de 18 centímetros de altura que encaixasse na base da sanita, já com a intenção de começar um negócio. E assim, ajudando os alívios da mãe, aliviaria a vida de toda a família.

Em 2011, Bobby enviou alguns Squatty Potty para bloggers populares, que depressa encheram as suas páginas com elogios ao objeto (ou aos seus efeitos na hora H). No final de 2018, já vendera cinco milhões de unidades.

Nuno Matos, sócio-gerente do Gabinete de Terapias Manuais e Medicina Integrada, em Cascais, também viu aqui uma oportunidade de negócio – há seis anos, a empresa tornou-se representante oficial do Squatty Potty em Portugal. “É ótimo para resolver obstipação, hemorroidas e outros problemas fecais”, garante. O também diretor clínico do gabinete fala com conhecimento de causa. “Ao início, usar o objeto é um pouco desconfortável, mas depois habituamo-nos e torna-se altamente eficaz. Quando vou para fora e não o uso, sinto logo falta. Não é a mesma coisa sem ele.” Nuno Matos diz-se igualmente satisfeito com o escoamento do stock: sem campanhas sérias de divulgação, já vendeu “largas dezenas”.

A sorte dos pobres

Um estudo publicado em 2003 na revista científica Doenças do Aparelho Digestivo e Ciências parece efetivamente dar vantagem ao agachamento. O investigador pediu a 28 voluntários entre os 17 e os 66 anos, aparentemente saudáveis e com funcionamento intestinal normal, que cronometrassem o tempo, desde o início até se sentirem satisfeitos, em três posições: sentados numa sanita com 41 ou 42 centímetros de altura, noutra dez centímetros mais baixa, e agachados. Além de marcar o tempo, os voluntários tinham ainda de avaliar subjetivamente a intensidade e o esforço despendido. Cada um deles fê-lo seis vezes em cada posição. No final, ganhou o agachamento – o autor do estudo concluiu que tanto o esforço como o tempo necessário até se conseguir uma sensação de esvaziamento foram muito superiores nas posições sentadas. Não foi, no entanto, avaliado o agachamento com um degrau debaixo dos pés, apenas o agachamento clássico. Um estudo com a plataforma propriamente dita está agora a ser conduzido pelo centro médico americano Mayo Clinic (lançado em 2016, deverá estar concluído em 2021).

Na realidade, com ou sem estudos, há muito que os gastrenterologistas aprendem (e ensinam) que quase toda a gente o faz da forma errada. “Nos livros clássicos, sempre se disse que a posição adequada era a que usávamos quando só havia um buraco no chão para fazer o serviço, como nas antigas estações de caminhos de ferro. Não havia estudos feitos, mas era a convicção. Estes novos produtos nascem desse conceito”, explica Luís Tomé, presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

Os antigos sempre repetiram que a posição das sanitas é péssima, recorda o médico. “O ‘rabo’ tem de estar mais baixo do que os joelhos”, recomenda. Nessa posição, o músculo puborretal (que auxilia no fecho das portas) fica mais descontraído e é suavizado o ângulo anorretal. Na prática, o trânsito segue a direito, em vez de ter de ziguezaguear por curva e contracurva.

Luís Tomé diz que, pelo menos para um problema específico de desembocadura, é garantidamente útil: a dissinergia do pavimento pélvico, uma maleita que afetará cerca de 5% das mulheres. “Nesses casos, a coordenação muscular, quando fazemos força, é inapropriada. São pessoas com o mecanismo avariado, por assim dizer, e esta posição ajuda.” O problema pode ultrapassar a fronteira traseira. Um dos médicos que autopsiaram Elvis Presley disse-se convencido de que a prisão de ventre esteve por detrás do ataque cardíaco que matou o rei do rock, que terá feito demasiada força.

Se a questão é o agachamento, boa parte da população mundial está a salvo destes horrores: na Índia, por exemplo, onde a higiene básica ainda é um privilégio, esta é a posição mais comum. Mas agora, por €43 (preço do Squatty Potty em Portugal; €21 se for uma imitação comprada na Amazon) é possível ter todas as vantagens de quem o faz em buracos no chão ou mesmo na rua, como a natureza quer. É um pequeno preço a pagar para se obrar como um pobre.

Como evitar problemas

Com ou sem agachamentos, há outras coisas que podemos fazer para sermos bem-sucedidos na casa de banho

1 - Beber mais água
2 - Ingerir muita fibra (leguminosas, fruta, cereais integrais, vegetais)
3 - Reduzir o stresse
4 - Fazer exercício
5 - Não perder uma oportunidade – ir à casa de banho assim que se sentir vontade

Até os tubarões se agacharam

Não se pode dizer que o Squatty Potty fosse um objeto desconhecido quando, a 14 de novembro de 2014, foi apresentado aos investidores do programa Shark Tank. O degrau já passara pelo segmento do Dr. Oz na Oprah, e o seu bem--humorado vídeo publicitário era um sucesso no YouTube (hoje, vai nas 35 milhões de visualizações). A família Edwards pedia 350 mil dólares por 10% da empresa, avaliando-a, portanto, em 3,5 milhões de dólares (€3,08 milhões). Lori Greiner, a chamada rainha do QVC (canal de televendas), investiu e saiu a ganhar: segundo o jornal americano USA Today, desde esse dia o Squatty Potty vendeu produtos no valor de 140 milhões de dólares (€123 milhões), o que faz dele o terceiro produto mais comercializado de sempre na história do programa.