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Como as selfies estão a criar complexos e a agigantar pequenas imperfeições

Sociedade

O culto da imagem nas redes sociais, ampliado na era das selfies, está a criar novos complexos e a distorcer ainda mais a importância que damos aos nossos “pequenos” defeitos físicos

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

Dos feios não reza a História, parece sugerir a explosão de selfies e de filtros, aplicações e outras ferramentas gratuitas para edição de imagem nas plataformas digitais. A manipulação da imagem para consumo público que era exclusiva de políticos e celebridades está hoje acessível a qualquer adolescente com smartphone. Facebook, Instagram, Youtube, WhatsApp, Snapchat e afins entraram em força no universo dos nativos digitais.

As visualizações, os likes e as partilhas de selfies converteram-se no barómetro do valor de cada um. A selfie-esteem é, por isso, o novo normal: um visual sem imperfeições e aprimorado ao milímetro tem mais hipóteses de conquistar seguidores e popularidade. No meio disto, a imprensa norte-americana relatou um fenómeno curioso: o aumento de jovens que procuram corrigir aspetos desproporcionais da face que apenas são visíveis na selfie.

O cirurgião plástico e investigador Boris Paskhover criou um modelo matemático para provar que a distância entre a câmara e o objeto fotografado conta na distorção facial. Da mesma forma que nos retrovisores dos automóveis os objetos parecem maiores do que na realidade são, os cerca de 30 centímetros de distância que separam o rosto da câmara podem, por exemplo, fazer com que o nariz pareça 30% maior. Assim se explicava o crescente número de pedidos de rinoplastias em idades precoces, conforme está no artigo publicado no jornal médico JAMA Plastic Surgery e que vai ao encontro dos resultados do inquérito da Academy of Facial Plastic and Reconstructive Surgeons, em que 42% dos profissionais eram confrontados com pedidos para corrigir “falsos” defeitos que o espelho não mostrava.

Se, noutros tempos, era habitual as pessoas levarem para a consulta de cirurgia plástica fotografias de estrelas de cinema, agora mostram uma selfie e pedem ao médico para as deixar parecidas consigo próprias.

Distorções: das digitais às mentais

Desde a Antiguidade Clássica que a fixação na imagem surgia associada a uma identidade insegura e assente num ideal projetado de si, qual Narciso debruçado sobre a água do lago. No oceano das redes sociais, em que as possibilidades de inflacionar o ego e moldar o visual são quase infinitas, isso pode constituir uma vantagem ou um perigo?

“A perceção da forma do corpo e a insatisfação em relação a ela têm vindo a crescer de forma assustadora”, afirma Tiago Baptista, do Instituto Português de Cirurgia Plástica. O motivo, acrescenta o cirurgião, é indissociável da “proliferação das redes sociais, que impôs uma exposição muito maior perante os outros”. Se à distorção da imagem induzida pelo equipamento somarmos os casos de dismorfia corporal (ver caixa), uma exposição maior amplia vulnerabilidades na autoestima? “Aumenta, em muito, o quanto a jovem se sente observada”, responde a fisioterapeuta Alexandra Fernandes, do mesmo instituto, “levando quem sofre de transtornos de dismorfia corporal a ter essa condição cada vez mais intensificada”.

A noção alargada do “eu” feita por via da posse – roupa, carro, casa e símbolos de estatuto – antes de haver internet e média sociais, assenta agora na projeção de uma tentadora imagem ideal. A equipa de Halley Pontes, psicólogo clínico doutorado da Nottingham Trent University, no Reino Unido, realizou um estudo sobre “selfitis”– tirar fotos a si mesmo de forma obsessiva – e concluiu que “os ganhos são bastante apelativos para muitos utilizadores, que podem tornar-se reféns dessa conduta”.
Se há uma perturbação da personalidade, por exemplo, “o transtorno da personalidade narcisista, a persona virtual tende a servir de máscara do ‘Eu’ real”. A comparação social na internet complica o cenário, na medida em que a imagem online, sendo “claramente superior ao ego real, cria egodistonia, insatisfação com o corpo e redução do bem-estar psicológico”.

Fixar-se no detalhe é doença

“A ascensão do perfecionismo doentio, tantas vezes confundido com excelência, e a autoexigência sem limites” são problemas que a psicóloga Joana Norton identifica na sua prática clínica e que a tecnologia tem tornado claros: “Perguntam-me: ‘Como é que vou encontrar-me com a pessoa que conheci no Tinder, se não apareço assim nas fotos do perfil?’” A crescente necessidade de reconhecimento externo está a ter contornos preocupantes e não é saciada pela “falsa sensação de pertença que os likes dão”.
Entre achar que o nariz é grande porque a selfie o distorce e apagar uma foto que não gera tráfego (visualizações) nem comentários positivos, venha o diabo e escolha. Há mundo além da imagem, ficar refém dela é reduzir o sujeito a uma sombra. Nem parece que passaram décadas desde que o aumento de casos de perturbações alimentares e dismorfia corporal levaram a uma onda de contestação social e a alterações na indústria do pronto a vestir (adequando o tamanho das peças às medidas reais dos compradores).

Desengane-se quem pensa que o imperativo da imagem no quotidiano – também o íntimo – se joga apenas no feminino. Os estudos da psicóloga clínica Patrícia Pascoal demonstram que o problema é transversal e afeta homens e mulheres de todas as idades e alimenta muitos negócios (desde os tutoriais para parecer mais jovem ou influenciar pela imagem até às clínicas de correção estética). A também recém-eleita presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia defende que “é preciso educar para os valores humanos, sob pena de nos apresentarmos como mercadoria”. O “embrulho” não pode ser tudo.

Ver no corpo o que não está lá

Passa horas a pensar em pequenos defeitos físicos ou conhece quem o faça? Isso tem um nome. Em tempos designada por dismorfofobia (aversão a partes do corpo), a dismorfia corporal inclui-se na categoria das perturbações obsessivo-compulsivas:

1 - Preocupação excessiva com falhas na aparência física que só a pessoa nota

2 - Pensamentos e condutas repetitivas (ver-se ao espelho, monitorizar detalhes do corpo à procura de defeitos, assumir que outros notam, comparar-se com eles)

3 - Sofrimento psicológico que compromete o funcionamento diário da pessoa

Fonte: DSM-5


Perfil do “selfiti”

Fotografa-se de modo obsessivo ao ponto de ficar refém da imagem idealizada e apelativa que projeta no espaço virtual para:

1 - Aumentar a autoconfiança

2 - Chamar a atenção

3 - Melhorar estados de humor

4 - Conectar-se com o meio à sua volta

5 - Estar em conformidade com o grupo

6 - Competir socialmente

Fonte: Halley Pontes, psicólogo clínico, Nottingham Trent University, UK