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Para que serve concretamente o que ensinamos?

Sociedade

Carmo Machado

Marcos Borga

Como dar a volta aos conteúdos obrigatórios da disciplina de Português quando nem eu própria consigo explicar de forma convincente a utilidade prática da capacidade de identificar a função sintática do complemento oblíquo e do predicativo do sujeito numa frase?

No seu livro A Era da Irracionalidade (1982), livro que gosto sempre de reler quando me sinto escurecer no que à minha profissão diz respeito, o seu autor, Charles Handy diz isto: Mais tarde cheguei à conclusão de que não aprendi nada na escola de que me lembre agora (...). Pois é! Vivo com esta preocupação constante. Para que serve concretamente o que ensinamos? Serão as aprendizagens consideradas essenciais verdadeiramente isso que pretendem ser? Como dar a volta aos conteúdos obrigatórios da disciplina de Português quando nem eu própria consigo explicar de forma convincente a utilidade prática da capacidade de identificar a função sintática do complemento oblíquo e do predicativo do sujeito numa frase? É claro que os mais puristas ficarão aos saltos quando lerem este texto. Tentem entender, por favor. O que eu quero mostrar-vos é que, perante trinta alunos que não sabem escrever Português, o que eu preciso mesmo é de, quando finalmente os consigo sentar e calar a todos, ter tempo para que eles escrevam e para que eu os consiga ensinar a escrever. E não resta tempo para muito mais...

Que importância desempenham certos conteúdos na qualidade de vida dos nossos jovens? Numa altura em que tanto se fala de autonomia e de flexibilidade curricular de forma a combater o insucesso, verifico com tristeza que esta será, a meu ver, mais uma falácia. Potencializar melhores aprendizagens implica inovação. Exige deixar para trás práticas antiquadas e totalmente desajustadas aos novos contextos em que vivemos. A ideia de que cada escola poderá vir a ter a liberdade de desenvolver o currículo localmente, organizando os tempos e os espaços soa-me bem. Mas para tal é preciso ter criatividade, equipas de gente virada para o futuro, gente que se dedique a tempo inteiro a apresentar uma proposta de gestão estratégica do currículo em conformidade com a especificidade da escola e do público que a frequenta. Não podemos autonomizar e flexibilizar o currículo de forma idêntica numa escola de Chelas e numa da Avenida de Roma.

Todos os dias regresso da escola com a sensação de que não conseguirei continuar por muito mais tempo alheia ao estado calamitoso da educação que temos. Cumpro tudo aquilo a que sou obrigada mas faço das tripas coração para que a “minha” escola e os “meus” alunos se reculturem todos os dias, procurando novas formas de debate, novos temas de discussão, ambicionando a irreverência que nos permita a todos, viver os dias de uma forma mais feliz e numa sociedade mais justa. Porém, esta sociedade não me ajuda neste intento. Todos os dias vejo aumentar a descrença dos jovens por um mundo melhor. Muitos deixaram de acreditar na justiça. Basta que lhes peça um texto sobre o tema e são os grandes exemplos de corrupção política e desportiva que imediatamente vêm à baila. E pouco mais.

A meu ver, a gestão curricular ocupa, neste contexto do mundo em que vivemos, uma centralidade inegável na medida em que permitirá, se a fizermos com eficácia criativa, relançar o elo entre a escola e a sociedade numa perspetiva de adequação aos seus destinatários, proporcionando, paralelamente às aprendizagens comuns a todos, uma diferenciação que pudesse colmatar as diferenças cognitivas e culturais dos nossos jovens.

Talvez assim não repetissem, um dia mais tarde, a frase de Charles Handy. De outro modo, parece-me difícil que a não repitam...

Carmo Machado

Carmo Machado

ENSINO

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).