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Finlândia: O que se pode aprender com o país mais verde do mundo

Sociedade

Jani Riekkinen / EyeEm/ Getty Images

A Finlândia quer ser o líder na poupança dos recursos naturais, desviando-nos do desastre anunciado

Sara Sá

Sara Sá

Na Finlândia

Jornalista

O frio do Ártico, uma paisagem dominada pela floresta e um longo, e escuro, inverno deixam marcas na personalidade dos finlandeses: um povo altamente eficiente, educado e dado à tecnologia. Ter o título do país mais verde do mundo (segundo o Índice de Performance Ambiental, do Centro para as Leis e Políticas Ambientais de Yale) não é suficiente. Até 2025, a Finlândia quer tornar-se um líder mundial em economia circular, uma corrente que prevê a utilização completa dos materiais, por oposição à economia linear que nos tem destruído o planeta.

Gennady Kurushin/ Getty Images

Vacas ecológicas
A imagem é idílica: floresta pristina, prados verdejantes, vacas a pastar. É esta a matéria de que se fazem os laticínios da Valio – uma empresa centenária, propriedade de mais de cinco mil agricultores. Apoiada no génio de Artturi Ilmari Virtanen, Nobel da Química em 1945 pela invenção do método de preservação da forragem, que permite alimentar os animais durante o longo inverno finlandês, foi dos seus laboratórios que saiu o primeiro leite sem lactose do mundo. Agora, a empresa está preocupada com o impacto das vacas nas alterações climáticas. De acordo com a Organização para a Alimentação e a Agricultura, da ONU, o gado é responsável por 14,5% da emissão de gases com efeito de estufa. “Para cada litro de leite produz-se um quilo de dióxido de carbono”, diz Juha Nousainen, responsável pela produção da Valio. Mas é possível reverter o problema rumo à neutralidade carbónica, acredita. Para isso, a empresa está a tentar substituir os combustíveis fósseis por biogás, produzido a partir do estrume. Na base desta inovação está uma tecnologia, desenvolvida pelos seus cientistas, que permite separar o fósforo e o nitrogénio contidos nos dejetos. “Os campos podem funcionar como bons sequestradores de carbono”, alega o responsável, que estima ser possível diminuir em 50% a emissão de metano por parte dos ruminantes, através de mudanças no tipo de alimentação.

The Picture Pantry/ Getty Images

Nada se perde...
A carrinha chega com tomates, couves, maçãs. No jardim deste antigo hospital para doentes mentais, paredes-meias com o cemitério de Helsínquia, os alimentos são descarregados pelos funcionários do restaurante Loop. Vêm de produtores e de supermercados das redondezas e estão fora de prazo ou têm mau aspeto, e o seu destino seria o lixo. No Loop recebem uma segunda oportunidade de ir parar ao prato. A confeção destes menus, decididos dia a dia, já que dependem dos alimentos disponibilizados pelos fornecedores, exige muita flexibilidade por parte da cozinha e também alguma mão de obra. É preciso descascar, separar o que estiver estragado do que ainda está em condições de ser consumido. Mesmo assim é possível, garantem-nos, ainda que a regulação do setor, na Finlândia, seja bastante estrita e a ASAE local não dê tréguas. Os fundadores do restaurante – que não tem pratos de carne – assumem ainda um papel de consultores, ajudando outras entidades a criarem modelos de negócio semelhantes, além de terem a preocupação de dar emprego e ajudar no processo de adaptação de imigrantes. Porque o objetivo principal é promover uma mudança de estilo de vida e não (exclusivamente) fazer dinheiro.

Estima-se que na Finlândia, todos os anos, se desperdicem 0,4 milhões de toneladas de comida (em Portugal será um milhão de toneladas de alimentos deitado fora). No final deste ano, é possível que o valor baixe um pouco. É que a cadeia de supermercados WeFood, com origem na Dinamarca, já está presente em Helsínquia, oferecendo produtos que não podem estar à venda nos supermercados ditos normais, por a embalagem estar danificada, mal etiquetada ou as frutas e legumes terem mau aspeto, ainda que boa saúde. Os produtos são vendidos a metade do preço, os funcionários da cadeia de supermercados são todos voluntários e o lucro reverte para uma organização humanitária.

Bloomberg Creative Photos/ Getty Images

Lixo que é luxo
Os ecrãs espalhados pela sala, com medições atualizadas ao segundo, as paredes de vidro e o ar concentrado dos operadores sugere uma sala de controlo de uma missão espacial, mas, na verdade, o que aqui se comanda é lixo. Manobrando o gancho metálico, um dos funcionários da central de produção de eletricidade e aquecimento Vantaa Energy vai deslocando a amálgama que enche o fundo do bunker, com 38 metros de profundidade, para a entrada dos fornos. Através do vidro, conseguem-se identificar fraldas descartáveis, embalagens sujas, panos, uma misturada de lixo indiferenciado e que não faz parte das outras cinco categorias de separação – cada bloco de apartamentos na região de Helsínquia tem um contentor para cada um dos seguintes tipos de materiais: biodegradável, papel, cartão, vidro, metal e indiferenciado (as garrafas de plástico são recolhidas pelos estabelecimentos comerciais). Tem aparência de lixo, mas não cheira a lixo. Um sofisticado sistema de comportas e circulação de ar evita que o mesmo saia do reservatório para a rua. A cada ano, a central queima 360 mil toneladas de desperdícios, resultando deste processo energia elétrica e calor para alimentar o sistema de aquecimento doméstico. Este tratamento, aliado a um eficaz sistema de separação, reutilização e reciclagem de lixo, com especial ênfase para a produção de biogás e adubo a partir dos restos alimentares, faz com que, no final do processo, apenas 1% de todo o lixo produzido vá parar a aterro (a título de exemplo, dados de 2016, apontam para um valor de 34% em Portugal).

D.R.

Derrete-se na água...
... e não nas mãos. Este é o segredo da Sulapac, a startup que nasceu de um sonho protagonizado por duas investigadoras da área da bioquímica. O objetivo: ajudar a Humanidade a livrar-se do plástico, o material para embalagem mais comum do mundo. Para criarem o seu material, patenteado, Suvi Haimi e Laura Kylloenen inspiraram-se na natureza finlandesa. A base são as árvores, cuja origem está certificada pelo Forest Stewardship Council, que assegura a gestão responsável da floresta, e a empresa garante a degradação do material ao fim de 21 dias de contacto com a água. Sem qualquer vestígio de microplástico. Os pigmentos também são de origem natural. Há o verde-pinho, o púrpura-framboesa ou o vermelho-morango. Outra mais-valia do sulapac é poder ser usado numa linha de produção já montada, sem necessidade de adaptação da maquinaria. Para breve, estará o anúncio de uma parceria com uma importante marca de cosméticos a nível mundial. No próximo ano, deverá ser apresentada uma nova linha, resistente à água, mas com as mesmas propriedades amigas do ambiente, revela Suvi Haimi, visivelmente orgulhosa da embalagem de 50ml que segura na mão esquerda. Quando lhe perguntamos se a palavra “sula” (que resulta da junção das iniciais dos nomes das fundadoras) tem algum significado em finlandês, os seus olhos azuis abrem-se num sorriso: “Significa derreter.”