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Novos medicamentos, mais fáceis de produzir e mais ajustados às necessidades dos doentes valem Nobel austríaco a cientista português

Sociedade

Nuno Maulide, professor e investigador em Viena, recebe prémio Lieben, pelo seu trabalho em química orgânica

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Nuno Maulide gosta de começar cedo o dia. É nas primeiras horas da manhã que consegue alguma concentração para ter as ideias que podem mudar a forma como são produzidos os medicamentos.

Mas por estes dias está a ser difícil manter o sossego. Em menos de um mês, o cientista português, professor catedrático na Universidade de Viena, recebeu duas importantes destinções. Esta semana venceu o prémio Ignaz Lieben, a mais antiga atribuída a cientistas da Áustria e no início do mês já tinha sido homenageado pelo Clube de Jornalistas de Ciência e Educação austríaco, com o título "Cientista do ano", aqui pelo seu particular interesse na divulgação de Ciência.

No seu gabinete, não param os telefonemas, as interrupções dos alunos - aos 39 anos o químico orienta 28 estudantes -, os pedidos de entrevista para órgãos de comunicação austríacos e também portugueses.

Mesmo assim, na conversa telefónica com a VISÃO, Nuno Maulide, que é também professor convidado do ITQB Universidade Nova de Lisboa, não se coíbe de relatar com entusiasmo o trabalho que tem vindo a desenvolver, numa área que considera "fascinante".

Nuno Maulide foi escolhido entre outros 40 candidatos, todos com menos de 40 anos, pelos seus "contributos excepcionais no desenvolvimento de novos mecanismos reacionais em química orgânica", segundo a Academia das Ciências da Áustria, que atribui o prémio.

Maulide chama "a arte da síntese química" ao trabalho de produção de compostos com determinada função. Um objetivo que se atinge através da manipulação das substâncias ao nível do átomo. Um carbono mais à direita, um fluor mais à esquerda e o resultado pode ser uma nova molécula, capaz de curar uma doença ou pelo menos diminuir os efeitos secundários.

Por estes dias, o seu laboratório anda às voltas com uma molécula, extraída de uma bactéria, que funciona como um imunomodulador, que controla a resposta do sistema imunitário - o tipo de medicamentos usados no tratamento de doenças auto-imunes, como a artrite reumatoide em que é o próprio sistema de defesa que, desregulado, ataca as articulações. A expectativa é que este extrato da bactéria apresente menos efeitos secundários, sendo melhor tolerado pelos doentes, do que os imunossupressores disponíveis atualmente.

"O nosso trabalho é como o de um arquiteto", compara. "Por vezes, podemos ter de começar a construir a casa pelo telhado, para que esta tenha a forma que nos interessa", ilustra. "Ou mudar a cor das janelas", continua.

Com estas manobras da síntese química protege-se o ambiente. Ao ser poupada uma espécie de rãs que produz um importante composto medicinal, por exemplo. Além de se consegui produzir maiores quantidades de material, com mais controlo de qualidade e maior ajuste às necessidades. "Pequenas modificações permitem-nos melhorar o que a natureza produziu."

O prémio que agora acabou de receber tem o valor de 32 mil euros e ao longo da história - foi instituído em 1962 - já distinguiu cientistas que vieram a receber o Prémio Nobel, como é o caso dos químicos Fritz Pregl e Viktor Hess.