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Varsóvia: há qualquer coisa de novo no ar

Sociedade

Luís Barra

A linha de novos arranha-céus da capital polaca representa uma ambiciosa forma de ver o futuro, ainda que o presente se encontre em paragens mais periféricas. Um passeio de fim de semana por uma cidade a querer posicionar-se no século XXI

João Nauman

A plataforma de observação do Palácio da Cultura estaciona-nos sensivelmente a meio caminho dos seus 230 metros de altitude. Não há qualquer tipo de deceção com isso, a altura basta, mesmo assim, para sentir a sua imponência, e é suficiente também porque em toda a cidade não há melhor forma de acompanhar o desenrolar da sua malha urbana: para leste estende-se o centro financeiro, o rio Vistula e o bairro de Praga; a turística cidade velha observa-se mais a norte, enquanto que o moderno bairro de Mokotow nos surge a sul rodeado de uma grande mancha de jardins.

De oeste, por sua vez, chega-nos uma linha de novos arranha-céus, impossível de perder, e nem sequer está ali contabilizada a Varso Tower, um projeto de Norman Foster que, com os seus 310 metros, será em breve o mais alto edifício em toda a Europa. O famoso arquiteto Daniel Libeskind, ele próprio com uma edificação residencial de 52 andares, refere que o despontar destes novos ícones trarão uma nova imagem à cidade, embora o assunto urbanístico seja tudo menos pacífico entre as hostes locais.

No entanto, e para quem chega, é inegável que a cidade vive um momento interessante, de mudança. Ainda assim, e descartando a disneylandização que decorre pela cidade velha, a onda de turismo que abala Cracóvia e Gdansk ainda não aqui chegou, pelo que Varsóvia continua a destacar-se pela tranquilidade e discrição – um destino muito mais inclinado para aquela “velha guarda”, que se encanta com uma esplanada a ver correr o dia, do que para millennials à procura do próximo post instagrâmico.

O bairro mais varsoviano

A velha zona de Praga é um maravilhoso exemplo disso mesmo. Ao contrário do lado ocidental da cidade, o conjunto foi deixado praticamente incólume durante a Segunda Guerra Mundial, razão pela qual os locais o consideram o mais varsoviano dos bairros. Mais fácil de perceber, no entanto, é o seu estado relativamente abandonado, com diversos lotes vazios onde habitam enormes árvores, prédios danificados e uma profusão de arte urbana, exercício de camuflagem repetido um pouco por todo o lado, mas que neste caso surge em sintonia com a efetiva vida que os artistas aqui oferecem, exímios na arte de aproveitar rendas baratas e espaços vazios.

Luís Barra

As galerias abrem e fecham, os happenings e as performances decorrem com regularidade. Mais estável parece ser a comunidade dedicada a recuperar o design polaco esquecido, curiosamente muito prolífico durante a era comunista. Das várias paragens possíveis destacamos o Café Mango e a Look Inside na Rua Wilenska, uma zona com alguns tiques de gentrificação, embora fique a milhas do vizinho Museu da Vodka, um recente complexo que de uma antiga fábrica de vodka viu nascer, além do referido museu, vários projetos de coworking, um restaurante fine dining e um campus da Google.

Luís Barra

Frente ribeirinha

Para compreender o momento da cidade é também fundamental dar um pulo ao Vistula, ali mesmo ao lado, um rio que, após tanto tempo, os locais podem tratar por tu. Esta nova relação é sobretudo visível entre as pontes Slasko-Dabrovski e a Poniatowski, em especial na margem ocidental, toda ela reconstruída recentemente. É ali que encontramos o novo Centro Náutico Copérnico e o Museu de Arte Moderna, mas também um circuito de corrida, bicicletas e caminhadas, um parque de skate e muitas esplanadas para aproveitar os dias de verão.

O passatempo é recente, mas já quase rivaliza em movimento com a “vida de parque” polaca, um outro prazer local com origem mais remota no tempo e que dá uso à mancha verde que cobre 25% de Varsóvia, a mesma que a coloca na dianteira das cidades com maior biodiversidade na Europa.

Quem sabe disto perfeitamente é a comunidade de Mokotow, um bairro de ruas arborizadas, envolvido por parques, do mais glamoroso que a cidade pode oferecer. A revista Monocle andou por lá, fazendo a reputação subir no sentido inverso à sua identidade, mas trata-se, ainda assim, de uma zona prometedora para o visitante. No cardápio constam lojas de design, restaurantes e cafés “vestidos” segundo a moda mais atual, mas também pérolas como o Iluzjon, uma cinemateca de bairro recentemente restaurada, um belíssimo exemplo de arquitetura da época do realismo social.

A disciplina é garantia, aliás, de uma maravilhosa forma de viajar em Varsóvia. Além do mencionado Palácio da Cultura, uma referência ao exercício brutalista da torre Smolna 8 e naturalmente a Marszalkowska, uma longa avenida de praticamente uma só fachada. Tal como parte significativa da cidade, foi reconstruída após a Segunda Guerra Mundial, utilizando fotografias para que se tornasse uma réplica perfeita.

A ironia funciona na perfeição para finalizar a viagem. Enquanto a gente local deambula, eu, o único turista naquela esplanada, observo. O passado pode ser uma aparência, mas a grande e nova transformação de Varsóvia está bem à vista.