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Um pigmento azul encontrado nos dentes de uma mulher da Idade Média pode reescrever a História

Sociedade

ullstein bild(Getty

Até agora pensava-se que apenas os homens usavam folha de ouro e um pigmento azul extremamente raro e caro – lapis lazuli – para ilustrar escritos e livros medievais. Mas uma nova descoberta diz que também as mulheres o faziam

A descoberta de um pigmento azul raro na placa dentária do esqueleto de uma mulher medieval está a dar algumas luzes sobre um capítulo oculto da história.

Onze investigadores de várias universidades debruçaram-se sobre os restos mortais de um cemitério medieval ligado a um mosteiro de mulheres na Alemanha, onde acreditam ter existido uma comunidade de mulheres no século X e publicaram agora os resultados na revista Science Advances.

Há poucos documentos relacionados com o mosteiro, devido a um incêndio que o destruiu durante o séc. XIV, mas há registos do cemitério que datam de 1244.

Os cientistas estavam a estudar o esqueleto de uma mulher que teria entre 45 e 60 anos e que terá morrido entre 997 e 1162. A ossada não parecia ter nada de especial, não havia sinais visíveis de traumatismos ou infeções, mas tinha manchas azuis nos dentes.

As análises com recurso à espectrografia (utilização da fotografia para registar espectro luminosos) revelaram que a cor azul se devia a um pigmento raro feito de pedras lápis-lazúli trituradas. Este pigmento era luxuoso na altura, tão caro quanto o ouro e extraído de um único local no Afeganistão.

O pigmento azul, assim como as folhas de ouro, eram apenas utilizados para ilustrar manuscritos e livros de luxo de mosteiros e só os melhores e mais habilidosos artistas podiam usá-los devido ao seu elevado preço.

As partículas de lápis-lazúli encontradas na dentição do esqueleto observado

As partículas de lápis-lazúli encontradas na dentição do esqueleto observado

Science Adavances

Encontrar livros com este pigmento azul junto a mosteiros Alemães não é surpreendente, já que era usual serem feitos. Mas não são atribuídas às mulheres as ilustrações destes obras luxuosas.

“Só aos escribas e aos artistas de grande qualidade era confiado este pigmento azul”, diz, em comunicado, um dos investigadores.

Dado que as obras muitas vezes não eram assinadas, como gesto de humildade, caso houvesse mulheres que as pintassem a História encarregar-se-ia de obliterar esta prática.

Os investigadores consideraram várias hipóteses sobre como a mulher pode ter entrado em contacto com o pigmento. Mas apenas uma lhes parece verdadeiramente viável.

“De acordo com a distribuição do pigmento azul na sua boca, concluímos que o cenário mais provável é que ela mesmo se tivesse pintado com o pigmento ao lamber a ponta do pincel enquanto pintava”, esclarece, em comunicado, a alemã Monica Tromp, co-autora do estudo.

“Esta mulher estava ligada a uma rede comercial global que se estendia das minas do Afeganistão até sua comunidade na Alemanha medieval”, explica outro investigador.

Segundo os autores, “temos provas diretas de que uma mulher não pintou apenas, mas fê-lo com um pigmento muito raro e caro e num lugar remoto”.