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Partículas de poeira gigantes do Saara encontradas nas Caraíbas: Um "conflito com as leis da Física e da gravidade"

Sociedade

Stefan Cristian Cioata/ Getty Images

Não só foram detetadas a uma distância recorde de 3500 quilómetros, como ainda são 50 vezes maiores do que os cientistas julgavam ser possível. Para os investigadores responsáveis pela descoberta, isto implica a necessidade de repensar os atuais modelos climáticos

Ainda no último verão, os carros, sobretudo no sul do País, cobriram-se com poeira castanha, oriunda do Norte de África. A deslocação entre continentes das partículas de poeira do deserto do Saara é comum, mas, neste caso, as partículas eram quase 50 vezes maiores do que se acreditava poder ser transportado pelo vento.

"Estas partículas de pó são levantadas do deserto do Saara e transportadas entre continentes e a maioria das pessoas conhece-as das situações em que acabam por cobrir os seus carros ou quando provocam aqueles sinistros céus cor de laranja", afirma Giles Harrison, professor de Física Atmosférica da Universidade de Reading, Inglaterra, coautor do estudo, agora publicado no Science Advances.

"Contudo", continua, "as ideias existentes não permitem que partículas tão massivas viagem distâncias tão vastas pela atmosfera, o que sugere que há um processo atmosférico ou uma combinação de processos ainda desconhecidos que as mantém no ar."

A equipa de investigadores recolheu partículas de poeira em bóias e armadilhas subaquáticas de sedimentos em cinco locais no Oceano Atlântico, entre 2013 e 2016. E se a convicção científica era de que partículas a esta distância poderiam ter entre 0,01 a 0,02 milímetros de diâmetro, as que foram localizadas nas Caraíbas chegavam a ter 0,45 mm.

"O facto de partículas maiores de poeiras se manterem a flutuar na atmosfera durante muito tempo é considerado um conflito com as leis da física e da gravidade", considera mesmo Michele van der Does, outro autor do estudo.

O papel destas partículas, sobretudo na formação de nuvens e no ciclo de carbono dos oceanos não tem tido grande destaque nos modelos usados para explicar e prever as alterações climáticas precisamente porque se pensava que não tinham capacidade para persistir na atmosfera.

Os investigadores ainda não encontraram uma explicação para o fenómeno, mas acreditam que pode ter a ver com a carga das partículas e as forças elétricas associadas.