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Cientistas australianos descobrem, por acidente, que um tipo de argila é mais eficaz a eliminar gordura do que um medicamento para emagrecer

Sociedade

É daquelas ideias que tinha tudo para nunca sair do domínio das mezinhas - apesar de ter sido usada na Grécia Antiga e de contar com celebridades como Elle Macphereson a apregoarem os seus benefícios - mas uma descoberta acidental transportou-a para o domínio da ciência

Não faltam, na Internet, formas "milagrosas" para desintoxicar o organismo e expelir a gordura, que vão das mais inofensivas (e ineficazes) às mais perigosas (e igualmente ineficazes, na maioria dos casos). Um grupo de investigadores australianos descobriu agora, no entanto que um colher de argila pode ter mesmo o efeito de impedir a absorção da gordura. E sem efeitos secundários.

Chama-se geofagia a prática de comer "terra" e se é comum em crianças que brinquem em locais propícios, também é encontrada em algumas culturas como hábito, como é o caso da Grécia Antiga, mas ainda atualmente, em alguns pontos do globo, normalmente como remédio para problemas de estômago. Em muitos países ocidentais é classificada como parte do transtorno mais alargado que se traduz no apetite por coisas/substâncias não alimentares.

Agora, uma equipa de investigadores da Universidade do Sul da Austrália descobriu, sem querer, o benefício de um tipo específico de argila, o caulino, que é formado por depósitos de minerais e faz parte da composição de um medicamento antidiarreico. Tahnee Daning estava a tentar perceber que compostos poderiam ajudar o organismo a absorver melhor comprimidos antipsicóticos quando reparou que algumas partículas de argila não estavam a comportar-se como esperado: Atraíam a gordura e absorviam-na, impedindo que, pelo contrário, esta fosse absorvida pelo organismo. Desta forma, a gordura passava simplesmente pelo sistema digestivo até ser expelida naturalmente.

"Foi este comportamento único que mostrou logo que podíamos estar prestes a descobrir algo significativo, uma cura potencial para a obesidade", entusiasma-se a investigadora, principal autora do estudo publicado no Pharmaceutical Research.

Com esta descoberta, a equipa passou a testar teoria, administrando a ratos uma alimentação rica em gorduras, a que juntou um de três suplementos: o medicamento Orlistat usado para ajudar a perder peso, um mineral da argila chamado montmorilonite, conhecido pela sua a capacidade de absorver água, e um placebo.

Dos três grupos de roedores, o que ganhou menos peso foi o dos que tomaram o suplemento de argila. Como a função do Orlistat é impedir que a gordura proveniente da alimentação seja digerida, os investigadores querem agora testar os dois em simultâneo. A ideia é "atacar a digestão e a absorção da gordura de duas formas diferentes", explica Tahnee Daning, com a esperança de que esta combinação resulte "numa maior perda de peso com menos efeitos secundários".

Até aqui, os estudos sobre geofagia não revelaram riscos significativos, a não ser obstipação em casos de consumo muito elevado.