Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O calor está a dizimar as renas

Sociedade

JONATHAN NACKSTRAND

O aquecimento do Ártico terá diminuído as populações de renas para menos de metade em apenas 20 anos. E esssa é só uma das más notícias

Com o aumento da temperatura, o norte do planeta está a ficar mais verde. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o facto de haver mais erva a cobrir o solo não é bom para todos os animais - nem sequer para os que comem erva. O Relatório do Ártico, divulgado todos os anos pela NOAA (sigla em inglês para a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, dos EUA), estima que as populações migratórias de rena da América do Norte e na Gronelândia tenham caído 56% - de 4,7 milhões de animais para 2,1 milhões - nas últimas duas décadas. Uma queda que não é homogénea. Das 22 manadas estudadas, cinco viram os seus números derrapar mais de 90%.

Os autores do estudo admitem que as variações de manadas variarem muito ao longo das décadas. Mas acrescentam que esta diminuição é diferente - algumas populações encontram-se no ponto mais baixo desde que há registos.

O estudo arrisca associar a mortalidade dos animais ao aumento de agentes patogénicos do Ártico em épocas de calor. Porém, um dos investigadores envolvidos aponta o dedo diretamente ao aumento de vegetação potenciado pelo calor. Em declarações à BBC, Howard Epstein, da Universidade de Virginia (EUA), explicou que, devido ao calor, a vegetação rasteira de que as renas se alimentam está a ter uma concorrência crescente de outras ervas, que crescem mais e roubam espaço ao alimento preferencial do animal. Por outro lado, a subida das temperaturas estará igualmente a fazer crescer as populações de insetos, obrigando as renas a despender mais energia para os enxotar.

Mas a pressão sobre as renas é, por assim dizer, a ponta do icebergue. O relatório da NOAA indica que a temperatura no Ártico está a subir a um ritmo duas vezes superior à média do globo; que se tem assistido à expansão de algas tóxicas, pondo em risco a cadeia alimentar; que os últimos 12 anos foram os que registaram as áreas de gelo marinho mais pequenas e finas de sempre, e que a contaminação da vida marinha por microplásticos também já chegou ao Ártico, o que representa um perigo considerável para as espécies locais.