Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Já se sabe porque morreu o piloto que combatia os incêndios de agosto de 2017

Sociedade

Pablo Blazquez Dominguez / GettyImages

O empenho do piloto em cumprir a missão de combate ao incêndio, ignorando o risco de voar próximo de cabos de alta tensão, originou a queda do helicóptero, em agosto de 2017, em Castro Daire, Viseu, concluiu a investigação

O piloto, de 51 anos, morreu na sequência da queda do Eurocopter AS350, após o helicóptero embater em cabos de alta tensão ativos e se incendiar no solo, quando combatia um incêndio florestal na freguesia de Cabril, a 20 de agosto do ano passado.

O relatório final do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), a que a agência Lusa teve hoje acesso, refere que, "apesar de o fogo florestal deflagrar muito próximo das linhas de alta tensão", o piloto, português e com 965 horas de experiência de voo, após desembarcar a equipa de cinco bombeiros num local seguro no topo do monte, "decidiu prosseguir com a missão" de combate ao incêndio.

"A entrevista com os bombeiros que foram trazidos ao local pelo helicóptero revelou que o piloto era uma pessoa muito consciente em relação à segurança. Contudo, nesta ocasião, não foi realizada uma análise adequada dos riscos, estando o piloto focado no combate ao incêndio, ignorando o risco de se voar tão perto de cabos de alta tensão ativos", indica o relatório final da investigação, acrescentando que o piloto estava ciente da existência dessas linhas no local.

O fogo deflagrava numa floresta de eucaliptos, num desfiladeiro entre dois montes e uma linha de transporte de energia de alta tensão, provenientes dos aerogeradores [ventoinhas] próximos e que cruzavam o vale.

"Contribuiu para este acidente a localização e progressão do incêndio florestal em terreno montanhoso, e por debaixo de linhas de alta tensão que cruzavam o vale; o foco do piloto em completar a missão de combate ao incêndio, ignorando o risco de colisão eminente ao voar perto de linhas de alta tensão em orografia complexa", acrescenta o GPIAAF.

A causa provável determinada pelos investigadores para o acidente "foi o embate do rotor de cauda com os cabos de alta tensão" no momento em que o piloto voava "intencionalmente a baixa altitude durante a operação de combate ao incêndio florestal".

Devido ao facto de o helicóptero não possuir nenhum dispositivo de gravação e também por não haver testemunhas a bordo, o GPIAAF ressalva, contudo, que "não foi possível excluir a possibilidade de o fumo do incêndio florestal ter comprometido a consciência situacional do piloto".

Após "uma análise criteriosa" de todos os factos relacionados com este acidente fatal, este organismo entendeu não ser necessário a emissão de recomendações de segurança, mas deixou um alerta.

"Apesar de os factos apurados no relatório não justificarem a emissão de recomendações de segurança, este acidente vem recordar a importância de os pilotos, envolvidos neste tipo de atividade, estarem bem cientes dos riscos existentes e da necessária manutenção de elevados níveis de alerta em operações a baixa altitude, e em específico relativamente ao risco de colisão com linhas aéreas de transporte de energia", vincou o GPIAAF.

O relatório final conta que o helicóptero descolou às 10:52 de 20 de agosto da base instalada na vila de Armamar, distrito de Viseu, levando a bordo uma equipa de cinco bombeiros.

Ao chegar ao local, "o piloto fez uma análise rápida com a equipa da direção do fogo, perigos locais e possíveis pontos para enchimento do sistema de balde" e, de seguida, desembarcou os bombeiros num local seguro no topo do monte, prosseguindo o piloto, agora como único tripulante, para a missão.

O primeiro lançamento de água foi efetuado com sucesso e testemunhado pelos bombeiros em trabalhos no solo.

"O lançamento de água do segundo balde foi também completado com sucesso, mas, imediatamente após o lançamento, o rotor de cauda do helicóptero embateu nas linhas de alta tensão que cruzavam o vale, e o piloto perdeu o controlo da aeronave, que se despenhou logo abaixo das linhas de alta tensão, tendo-se incendiado de imediato", relata o relatório final do GPIAAF.