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Chicória: Conheça os benefícios do novo espinafre

Sociedade

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Interessada em desenvolver novas formas de cultivar plantas, a Europa vai começar pela chicória – da qual se descobrem agora benefícios que vão muito para lá de ser uma boa alternativa ao café

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Até há pouco tempo não passava de uma erva que se dava aos coelhos e que aparecia no rótulo de bebidas substitutas do café. Depois começou a chegar-nos à mesa, misturada entre diferentes tipos de alface. Em breve, graças aos seus inúmeros atributos, poderá ser a estrela principal do seu prato. Pelo menos é este o objetivo da União Europeia (UE), que vai gastar 7,3 milhões de euros no projeto CHIC, que envolve institutos de investigação de 11 países europeus, incluindo Portugal, e mais um na Nova Zelândia, num valor de mais de 7 milhões de euros.
Na Europa, ao contrário da América, a engenharia genética aplicada ao melhoramento de plantas não é bem-vista. Há o terror relativo aos organismos geneticamente modificados – os OGM –, mesmo que nenhum estudo feito em décadas de utilização tenha encontrado qualquer malefício. Assim, para evitar protestos e desconfiança por parte dos consumidores, a UE quer melhorar as formas de cultivo, aumentando a eficiência e melhorando as espécies, sem recorrer àquele método.

Numa técnica de melhoramento tradicional, os agricultores vão escolhendo as melhores plantas de cada safra e cruzando esta seleção por inúmeras vezes até chegarem ao espécime próximo do ótimo: que cresça mais rapidamente ou dê mais sumo, que seja mais vermelho quando estiver maduro. Na engenharia genética, é selecionado um gene de um ser vivo que confira uma vantagem, como a capacidade de resistir à seca. Este gene é implantado na planta em questão e assim obtém-se uma planta mais resistente. No processo convencional, pode-se demorar 25 anos, num esquema de tentativa e erro, até se atingir o objetivo. Na engenharia genética, encontrado o gene que interessa introduzir, tudo acontece de forma mais rápida, mas há a questão da desconfiança. Daí que a UE esteja interessada em encontrar um meio-termo. Técnicas de produção alternativas, que combinem uma forma “suave” de engenharia genética com o ideal de melhoramento que tem vindo a ser feito desde os nossos antepassados agricultores, no Neolítico.

Estas novas técnicas de produção passam, por exemplo, pela cisgénese, que também implica a introdução de um gene, mas de uma espécie que poderia cruzar-se naturalmente. No caso de uma maçã verde, é adicionado um gene que confere a cor de uma maçã vermelha. O resultado desta mistura será um fruto mesclado, de verde e vermelho. A diferença parece subtil, mas é o suficiente para que haja um movimento a favor da não classificação da cisgénese como uma técnica de engenharia genética que dá origem a um OGM.

Tecnologia verde

Por ser pouco desenvolvida em termos de produção e com grande potencial nutricional – é um bom anti-inflamatório, anticancerígeno, laxante –, a chicória foi a planta eleita para a aplicação das novas técnicas. Portugal participa através do Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (iBET), instituto privado sem fins lucrativos, que atua na área da biotecnologia e das ciências da vida. Uma importante parte do projeto consiste em testar se as variedades selecionadas são toleradas pelo intestino, ou seja, se não são tóxicas.

Será esta a tarefa da investigadora Cláudia Nunes Santos que, no laboratório em Oeiras, irá receber a planta melhorada, identificar a que tem melhores propriedades, como anti-inflamatório, por exemplo, e verificar se tem toxicidade – um teste que será feito em células. “Já sabemos que as folhas da chicória têm propriedades anti-inflamatórias. Agora, queremos selecionar as que são mais ricas neste aspeto, sem que isso traga efeitos negativos à saúde do consumidor”, explica Cláudia Nunes Santos, responsável pelo grupo de investigação em nutrição molecular e saúde.

Outra parte, que ficará a cargo do iBET, é a extração dos compostos que podem funcionar como um medicamento, como é o caso dos terpenoides ou terpenos – com propriedades anticancerígenas – que existem na planta da chicória, mas em quantidade muito reduzida. A intenção, portanto, é chegar a uma planta mais rica nestas substâncias e, depois, conseguir extraí-las de forma que possam ser tomadas, em maior concentração, num comprimido, por exemplo. Será esta a participação do grupo de Ana Matias, que está a desenvolver um processo amigo do ambiente e da saúde das pessoas para a extração dos terpenos.

O método será à base de dióxido de carbono que, sujeito a pressões e a temperaturas controladas, tem a capacidade de “arrastar” os terpenos da chicória, separando-os da planta. O processo acontece numa espécie de tanque, sendo que à saída ficam os terpenos, o inócuo dióxido de carbono e os restos da chicória. “O dióxido de carbono tem vindo a ser usado como um solvente verde, em alternativa à acetona e ao clorofórmio, que são prejudiciais [o processo ainda usado por algumas empresas na extração da cafeína, para fabricar o descafeinado]”, explica Ana Matias. O leitor tem então quatro anos e meio, o tempo de duração do projeto, para adaptar o seu paladar à nova tendência no mundo dos superalimentos.

O que é que a chicória tem?

Os benefícios de um alimento que só tem virtudes

Na raiz

- A raiz da chicória é rica em inulina, uma fibra que ajuda na perda de peso e alimenta a saúde do intestino, protegendo a flora

- Contém vitamina B6, associada a uma boa saúde cerebral

- Ajuda a manter bons níveis de açúcar no sangue

- Alguns estudos em animais indiciam propriedades anti-inflamatórias

Nas folhas

- Bons níveis de vitamina A, para a saúde da pele e das mucosas, e betacaroteno

- Alto teor em vitamina K, que contribui para a saúde do cérebro

- Boa fonte de ácido fólico, importante no metabolismo dos hidratos de carbono