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Reportagem: A nova vida do homem-lobo

Sociedade

Lucília Monteiro

A madrasta sovava-o até ele ficar com as costelas “em pó”. Vendido pelo pai em criança, viveu 12 anos entre lobos. Quando o capturaram na floresta, rosnava: era mais bicho do que humano. Este não é apenas o relato de um sobrevivente improvável, marginalizado pela sociedade. Marcos Pantoja é hoje um espetáculo itinerante, comovedor e torpe, da sua própria história

Quem se aventura pelo Nordeste da Galiza em busca da criança selvagem outrora abandonada no vale andaluz da serra Morena encontra-a. É isso que está escrito na coluna de cimento da pequena casa de pedra da aldeia de Rante, na província de Ourense, entre a caixa do contador da luz e o desenho da cabeça de um lobo. A mensagem não oferece dúvidas quanto à identidade do inquilino, mas nem tudo é para levar à letra.

Naquela manhã quente de setembro, Marcos Rodríguez Pantoja, 72 anos, não estava. Saíra cedo e ainda não voltara.

Na mesa do alpendre, em cujo céu de madeira pintou uma constelação de pegadas de lobo, deixara no cinzeiro o primeiro cigarro do dia e um velho exemplar da National Geographic com os leões de Serengeti na capa. Lavara a roupa à mão, esfregando-a no cabeço de granito colado às escadas, e regara vasos de salsa, hortelã e manjericão. Quando se fez à rua, levava chapéu de marinheiro e uma t-shirt estampada com a imagem do filme Entrelobos, inspirado na sua vida. Debaixo do braço, uma pasta com documentos e, a tiracolo, a bolsa onde aconchega palhinhas de plástico a partir das quais improvisa flautas para enfeitiçar a pequenada. No peito, balouçava o cordão de dentes de javali, amuleto dos tempos solitários da floresta do qual nunca se liberta. Se o sol outonal se mantiver, não terá de preocupar-se, para já, com as goteiras no teto da sala, onde espetou facas e chaves de parafusos para assinalar infiltrações.

“Onde andas?”, ligara-lhe, entretanto, pelo telemóvel, Diego Cid, suspendendo os afazeres no café-bar O Campo, local privilegiado para tomar o pulso ao pachorrento povoado com umas 60 famílias. “Despacha-te, estão à tua procura.”

Todas as semanas aparecem curiosos na demanda daquele que Espanha conhece por homem-lobo. A insólita saga deste Mogli originário da Andaluzia será contada daqui a nada, mas saiba-se, desde já, que Marcos inspirou teses, livros e filmes. Desde então, é uma romaria: querem vê-lo, conhecê-lo, tocar-lhe. Por vezes, assediá-lo ou aldrabá-lo.

Julgando-o milionário, uma mulher veio de longe rondá-lo. Acabou deitando-se com ele à luz de uma psicadélica bola de discoteca comprada para a ocasião. Confiante, ela sugeriu viver com ele, mas precisava de dinheiro para montar uma clínica. Ainda na cama, Marcos atirou-lhe a carteira para as mãos. “Está rota”, resmungou ela, abrindo-a. “Pois está”, concordou ele. “Este sou eu. Roto.”

“Se soubesse ler e escrever, seria Presidente, todos votaríamos nele”, ri-se Diego, de regresso ao serviço, onde, entre cafés, cervejas e vinho branco, a fama do protagonista vai dando para bebericar histórias.

O mais tagarela é Jesus Iglesias, proprietário da casa onde vive Marcos. “Ele só paga a água e a luz”, começa, pousando o copo. “Nunca me deu sequer uma mão para cortar lenha, mas queixa-se sempre!”, refere, sem maldade, o velhote. “Como nunca gastou um duro, tudo lhe parece caro!”, atalha Diego, passando o pano pelo balcão. “Ele gosta é de conversa”, arrebita Jesus, de novo. “Noutro dia, saiu daqui três vezes para almoçar, mas encontrava sempre alguém pelo caminho e voltava atrás. Andou nisto até às quatro da tarde!”, desfia, contagiando sorrisos à volta.

Lucília Monyeiro

Marcos popstar

É quase meio-dia quando Marcos assoma à esplanada e entra no café. Vem mascando um pequeno caule silvestre que lhe sai dos lábios finos e acompanha-o José Sanz, a quem chama padrinho. A manhã, passaram-na juntos, no banco e noutros afazeres burocráticos.

“Há uns anos, vi-o na televisão e soube que morava a poucos quilómetros de Xunqueira, terra da minha mulher. Preparava as uvas para fazer vinho quando o encontrei”, recorda este empresário de fruta e verduras radicado na Holanda. “Quando ele me apareceu, eu sabia lá o que era a Holanda!”, assegura Marcos, soltando gargalhadas de lhe achinesar o rosto. “Estamos em sintonia desde essa altura”, resume José, mastigando um pedaço de pão com lombo fatiado. “Sou de um povo de Múrcia, também tive uma infância difícil. No fundo, ambos perdemos a guerra depois de nascermos. Vimos e vivemos o fascismo...” Se depender dele, nada faltará ao amigo.

Ainda assim – e porque, em breve, fará por aqui um frio de enregelar as ideias –, o coletivo ambientalista Amigos das Árvores da Limia recolheu donativos para comprar o recuperador de calor que a pensão de Marcos, a rondar os 400 euros, não pode pagar. “Ele nunca nos pediu nada, nem pede a ninguém”, garante Xosé Otero. Durante uma ação para evitar cortes de árvores, Marcos apareceu, solidário. “Dias depois, telefonaram de Bilbau para perguntarem se o conhecia, pois queriam convidá-lo para umas conferências. Visitei-o e comprovei o estado da casa: precisava de arranjos no teto e na cozinha, aquecimento, pintura. Lançámos a campanha de ajuda para garantir condições mínimas de habitabilidade e conforto”, conta. As palestras de Marcos Pantoja em vários locais e instituições já permitiram arrecadar cerca de oito mil euros para obras.

O que vale ao homem-lobo é ser a melhor propaganda de si próprio.

Vive de contar a sua história em escolas, institutos, teatros, bibliotecas e, claro está, nos programas de horário nobre. “Se fizessem um filme a sério sobre a minha vida, começava hoje e só acabava no ano que vem.”

Nas ocasiões solenes, Marcos “aperalta-se como um pincel”, gracejam os conterrâneos. Em todos os lugares onde vai, imita, a pedido, o uivar dos lobos e o som das perdizes. Vende os três DVD da sua história, cuja capa desenhou e carimbou com um lobo e uma serpente. “É o meu selo.” Repete pormenores do seu calvário, censura pais e filhos viciados nos jogos eletrónicos, apela à proteção da Natureza e ao respeito pelos animais. “Têm de ser vocês a cuidar deles, não o papá ou a mamã”, incita, diante de plateias com miúdos. “É feio chegar da escola, dizer ‘olá, gatinho’, ‘olá, cãozinho’, virar costas e pegar na maquinita”, provoca.
Durante as sessões, recicla, do avesso, o mito do lobo mau, e exibe filmes sobre a sua vida. “Mando parar o vídeo na cena em que colho trufas e digo: ‘Levante-se quem souber o que estou a fazer.’ Já me responderam: ‘Estás a apanhar ovos.’ E eu deito as mãos à cabeça! As crianças sabem tudo sobre maquinitas, mas não aprenderam de onde vem o que comem.”

A curiosidade das audiências é infinita. E também resvala.

“Quando vivia na serra, como é que fazia para ter mulheres?”, perguntou, certa vez, um adolescente. “A isso só respondo quando estivermos diante do teu papá!”, reagiu Marcos, qual lobo enfurecido.

Num auditório universitário a rebentar pelas costuras, uma mulher pediu a palavra. “Ouça”, interpelou-o, “quando vivia na floresta, como fazia para ter relações sexuais?”. O reitor deitou as mãos à cabeça, envergonhado, mas ele não se ficou. “Boa pergunta”, começou por dizer, “mas a mim nunca me ocorreria perguntar o que faz à noite com o seu marido. Como a senhora não estava lá para me ajudar, tinha de resolver.” Na sala só faltaram “olés”. Marcos, esse, gaba-se de sair destas situações “como um toureiro numa praça”.

Quando está por Rante e o almoço se atravessa na conversa, ele sugere uma ida ao Muiño do Chirlo, antigo moinho transformado num bucólico restaurante, na margem do rio Orillo, a 20 minutos de carro. “Hoje é melhor comeres pernil, Marcos”, sugere a empregada Marga Blanco, em tom familiar. “É fácil de mastigar, como tu gostas.” Quando a Guarda Civil capturou o bicho-homem no seu “idílio” selvagem, em 1965, arrancaram-lhe os dentes de nascença para que não mordesse. Agora não bebe vinho tinto nem come alimentos difíceis de triturar. O sorriso, esse, é de origem e escancara-se quando a Natureza o chama. Se um gafanhoto pousa na mesa, é vê-lo a dar-lhe gelado, à colher. Ambos deliciados.

Os amigos procuram não saturá-lo. Protegem-no de assédios, tentam mantê-lo na sua zona de conforto, evitar que se sinta pressionado. Mas quando viaja, telefonam-lhe, um atrás do outro. Querem saber se não se perdeu, se está bem alimentado, se o trataram bem. Rezingão, ele chega a zangar-se com tantos cuidados.

Os convites, entrevistas e reportagens sucedem-se. “Não sei dizer não, embora, por vezes, me enganem. Mas com a verdade posso ir a todo o lado”, justifica. No fundo, Marcos passa mais tempo fora de casa. “Metade de Espanha tem o meu número de telemóvel.”

Nestas andanças, geram-se momentos caricatos. A equipa da Tele 5 esteve dois dias com ele e, no final, ofereceu-lhe uma caneta. “Logo a mim, que não sei escrever!”, conta, desmanchado de riso. “Quando tenho de anotar alguma coisa, peço ajuda. Era melhor terem-me comprado uma botija de gás!”, lamenta.

O que não tem graça é viajar de comboio até Madrid, Barcelona, cidades grandes onde querem ouvi-lo, e ele não saber ler o nome das estações, identificar as linhas ou o painel dos horários. “Vou, mas não sei por onde”, lamenta, cabisbaixo, de rosto entretanto transfigurado. “A maioria das deslocações, faço-as sozinho. Mas já memorizo direções pelo aspeto, peço ajuda e chego ao destino.” Marcos conhece os números, junta letras, mas não sabe o seu significado. Já comprou exemplares da novela da sua vida, a partir do relato gravado pelo antropólogo Gabriel Manila (Eu Brinquei com Lobos), mas acaba sempre por emprestá-los até não serem devolvidos. “A mim, não me servem de nada.” Mas já aprendeu a identificar os animais pelo nome num livro de escola primária.

Primeira vida

Três vidas. Marcos Pantoja costuma dizer que teve três vidas. Uma má, a boa, e outra má. Por esta ordem.

Nasceu em Añora, humilde lugarejo de Córdova, a 7 de junho de 1946, num ambiente de pobreza extrema. A mãe morreu durante o terceiro parto, em Madrid, para onde a família migrara em busca de trabalho. Os dois irmãos foram entregues a tias e ele ficou com o pai. Este juntou-se a outra mulher que já tinha um filho.

Regressaram então às origens, instalando-se em Fuencaliente, província de Jaén, na serra Morena, para fazer carvão. Na memória de Marcos sobrevivem meros sussurros dessa vivência desesperada escutados ao pai. São os tempos da trágica ressaca do segundo conflito mundial e do franquismo. Fome e miséria propagaram-se. 
A família habitava um barraco de terra batida, madeira, pedra e sacos de palha. A época era de rejeições, abandono, isolamento. “Guerras sempre perdidas pelos mesmos”, escreverá o antropólogo Gabriel Manila na pele de Marcos.

Nítida é a recordação das sovas diárias da madrasta, mulher de voz áspera e castigos impiedosos. Obrigado a recolher bolotas, disputadas com javalis ou roubadas a vizinhos, Marcos Pantoja era espancado, privado de comida e obrigado a dormir ao relento quando não estava à altura da tarefa. “Ela batia-me até deixar-me as costelas em pó”, recorda-se.
Certo dia, antes do anoitecer, viu aproximar-se um homem forte, de chapéu negro, montado a cavalo. Entregou umas poucas notas ao pai, pegou no rapaz, sentou-o na garupa do animal e foi-se. “O meu pai vendeu-me como se vende uma cabra”, conta Marcos. “Mas não fez por mal”, acode às suas próprias lembranças. “Éramos pobres e passávamos fome”, procura justificar.

Tinha 7 anos. Nunca soube quanto pagaram por ele.

O cavaleiro que o comprou atravessou a montanha por caminhos estreitos e tortuosos. Numa casa, Marcos comeu chouriço, bacon, morcela e carne seca. O pão era grande, nunca o vira daquele tamanho. Depois, deixaram-no numa caverna na serra Morena, aos cuidados de um velho pastor que calçava sapatos de cortiça. Ordenaram que o ajudasse a tomar conta do rebanho de cabras. Voltariam para recolhê-las. Marcos agasalhou-se numa pele de veado, não fez perguntas e adormeceu.

Semanas e meses se passaram, parcos em palavras, rotineiros.

“Uma noite, o pastor disse que ia caçar um coelho e nunca mais voltou.” Sozinho, desamparado, Marcos arriscou, entre coices e cornadas, tirar o leite às cabras ou mamar diretamente das tetas.

Atabalhoado, desesperando até às lágrimas, aprendeu a armadilhar coelhos, perdizes e veados, mantendo sempre o fogo aceso. Aos poucos, já pescava, caçava, roubava ovos. Vendido e abandonado, entrara na serra quando outras crianças entraram na escola, mas nunca se imaginou o centro do seu novo universo. Sentiu-se, sim, parte dessa comunidade governada por regras até aí desconhecidas, mas onde perceberá o que fará toda a diferença para sobreviver: mãos e pensamento.

Segunda vida

Com os anos, Marcos suspende a fala, esquece o vocabulário dos homens e conjuga a linguagem da serra, o canto dos pássaros, o choro dos cervos, o uivo dos lobos. Grunhidos, rugidos, silvos e sons com os quais ele crê entender-se com outros animais. Na memória, ressoavam as tareias da madrasta. Não queria voltar e escondia-se quando, de longe a longe, capatazes e donos de terras iam pelas cabras e o procuravam.

Na serra, e na imaginação, fabrica outra família. Alimenta-se entre lobos, a cobra protege-o em troca de leite, as corujas velam por ele. A ligação à Natureza, a mitificada coexistência sobrepõem-se à vontade de procurar o caminho de regresso a casa. “Cuidava de todos os bichos e eles de mim. Nunca me maltrataram.” Ainda hoje, Marcos Pantoja elege os amigos em função do trato dado aos animais. E torna-se uma fera quando participa em debates com caçadores e criadores de gado. “Neste mundo”, descreve, “se uma pessoa não tem dinheiro, não come, nem bebe. Na serra, não tinha esse problema. Quando tinha fome, juntava-me aos lobos. Se tentavam tirar-me a carne, também lhes rosnava.”

Uma coisa é o que sucedeu. Outra é o que Marcos crê que sucedeu.

Talvez a distância entre ambas seja, afinal, curta. “A princípio, duvidei da história”, assume Gabriel Manila. O antropólogo de Palma de Maiorca calcorreou os lugares desta dolorosa odisseia humana, ouviu testemunhos do estado “selvagem” de Marcos após a captura e da sua ausência de ligações à dita civilização durante 12 anos. Ao longo de cinco meses, mais de uma hora por dia, não o largou. Nunca lhe apanhou contradições. “Ele narrava e eu gravava. Obrigava-o a repetir episódios para comprovar se os alterava. Mais importante do que aquilo que Marcos viveu é o que ele acredita ter vivido. A imaginação, o facto de atribuir sentido a tudo o que lhe acontecia, salvou-o. Não o fazemos todos?”

Lucília Monteiro

Terceira vida

Gabriel Manila conheceu-o em 1976. Marcos tinha 29 anos.Era a ingenuidade em corpo adulto, chamavam-lhe El Tontito.

Dez anos antes, fora capturado por elementos da Guarda Civil, perdido e solitário, entre ravinas. De volta a Fuencaliente, de mãos atadas, pano entalado na boca e esperneando, temeu pela vida quando viu a navalha nas mãos do barbeiro. Já de cabelo curto, sossegou.
Chamado ao quartel, o pai, então doente e quase cego, repreendeu-o por ter perdido o casaco que levava quando o vendeu. Foi a única coisa que lhe disse. Depois rejeitou-o. Um padre da zona continuou sem acreditar que uma família “tão abençoada” pudesse alguma vez ter negociado o menino agora crescido.

Quando o encontraram, Marcos tinha duas polegadas de calos.Demorará a calçar sapatos, a

usar talheres, a recuperar postura, a aprender bons modos, a falar. Enquanto a sua versão selvagem perdurou por aquelas bandas, as famílias usavam-na para assustar as crias. “Se não comeres”, ameaçavam, “o homem da serra leva-te”.

Entre a casa de missionários em Lopera e o convento em Madrid, Marcos reaprendeu a existência como se tivesse quatro patas. “Não sabia deitar-me numa cama, dormia como um cão, numa manta.” Quando ouviu rádio, jurou haver gente presa dentro do aparelho. No cinema, saltou por cima dos espectadores, desembestado e aterrorizado com os cowboys e cavalos que ele julgava irem no seu encalço. “Quando me deram o primeiro cigarro, comi-o.” A jogar futebol, respondia à patada e à dentada quando tentavam roubar-lhe a bola. Enfurecido, até levava a baliza à frente.

A disciplina do serviço militar de nada serviria. Um dia saiu-se aos tiros, azougado, disparando à toa. “Este filho da puta está louco!”, gritaram, em fuga, os aquartelados. As balas, essas, não eram a sério.

Marcos recorda com nostalgia os tempos vividos no convento.

Um dia viu-se ao espelho, “bonito, bem vestido”.

“Isto é para quê?”, perguntara, babado.

“Vais fazer a Primeira Comunhão”, responderam as freiras.

“E isso é o quê?”

“É o dia em que vais conhecer Deus.”

“E esse onde está?”

“Está em todo o lado.”

“Em todo o lado? Na serra nunca o vi.”

“Mas Ele via-te a ti.”

“Não sei como, eu era tão pequenino. Tinha barba?”

“Tem.”

Na cerimónia, as freiras cantaram, em coro. “E eu a olhar para toda a gente a ver se entrava alguém com barba...”

No convento, encenaram peças de teatro. E ele subia ao palco para interpretar animais ou a personagem de Drácula. Também cantava Una Paloma Blanca, sucesso estrondoso de Antonio Molina. Dessa época, porém, não sobrou qualquer devoção. “Alguém fez o mundo, isso é certo, mas, se há um Deus tão poderoso, como deixou que acontecesse o que aconteceu a esta criatura?”, interroga-se Marcos, introspetivo.

Fez-se à vida em Maiorca, para onde viajou de ferry, sem saber o que era uma ilha e a razão de haver tanta água. Inadaptado, enfrentou um cenário hostil. Varreu, lavou louça, serviu às mesas, andou pela construção civil e nas serrações. “Trabalhava noite e dia”, recorda, como se as palavras carregassem nuvens negras. No entanto, faltava ou falhava sempre qualquer coisa. Acabou a vender droga pensando que era remédio para os males de estômago. “Não sabia contar o dinheiro, negociar um salário. Enganavam-me, batiam-me, roubavam-me, faziam pouco de mim.” Hoje, se calha de insultar alguém, recorre ao repertório aprendido nas cozinhas dos hotéis e ao balcão dos bares, “hasta los cojones”.

Durante muito tempo, Marcos quis esquecer essa parte da vida. Quando contava a história da floresta, riam-se. “Viste filmes a mais”, troçavam. De mulheres nada sabia, mas aventurava-se, desajeitado, desinformado, inocente. Para o assustar, diziam-lhe que se pagasse para se deitar com mulheres de rua, apanharia doenças e “teria de cortá-la”.

Quando Gabriel Manila o encontrou, Marcos cuidava de um velho amigo do antropólogo, então doente. “Tens de vir a minha casa ouvir uma história incrível”, disseram-lhe, ao telefone. Gabriel foi. Escutou o relato de um desgraçado, vítima de uma marginalização duríssima. “Ao ver que as suas relações com os outros eram um contínuo fracasso, Marcos começou a dizer que vivia melhor na serra, entre os lobos. Mas seria incapaz de voltar à caverna”, crê Gabriel. Ele concorda. “Já não cheiro a lobo. Agora lavo-me com sabão, ponho água-de-colónia, estou domesticado.”

Lucília Monteiro

Depois da saga

Por volta de 1980, Marcos Pantoja deixou Maiorca em direção ao Sul de Espanha. Sem saber ler nem escrever, viveu anos na cauda da escala laboral, vadiando e recorrendo a expedientes.
Em 1998, morava no sótão de um prédio abandonado em Fuengirola (Málaga). Alcoolizado, mendigava comida ou procurava-a no lixo quando o polícia Manuel Barandela, de visita ao filho, o encontrou.

Viúvo, reformado e tocado pela sua história, o galego lançou a rede que o salvou: “Vem viver comigo para Rante.” O andaluz aceitou e mudou-se.

Os primeiros tempos na Galiza não foram fáceis. Porém, Marcos ganhou carinho, respeito e dignidade na companhia de Manuel e da sua então companheira, Ester. Cuidava dos animais como Noé na arca, depois do dilúvio. Cortava lenha, fazia recados. Educado nas tarefas domésticas, aprendeu letras a custo e a tocar o órgão hoje guardado na sua sala.

li descansa da longa viagem, qual lobo solitário longe da matilha, rodeado de objetos que ilustram a sua rara história de superação: fotos da comunhão, imagens de lobos e serpentes, desenhos e cartas de crianças, recortes de entrevistas, cartazes do filme Entrelobos, fotos de convívios nas escolas e de uma rapariga de Maiorca por quem se apaixonou.

Depois da morte do amigo polícia, a nostalgia vai e vem. “O mundo dos humanos é pior do que o dos lobos. Sei-o desde sempre. Mas também descobri gente boa.” Noutro tempo, se lhe dessem a escolher, regressaria à caverna, na serra. Com “televisão, máquina fotográfica e quatro ou cinco mulheres: uma para conversar, outra para fazer comida, outra para procurar espargos, outra para andar comigo nas montanhas...”.

Agora, bastava-lhe uma. “Tratá-la-ia como uma rainha e teria filhos a quem ensinar o que aprendi.” Também gostava de saber ler e escrever. “Para contar ao mundo, pelas minhas palavras, o que foi a minha vida e não a merda que tentaram fazer dela. Quando me capturaram, deviam ter-me metido numa escola, não num convento...”
Ultimamente, Marcos Pantoja tem andado adoentado.

Problemas nos joelhos, dificuldade em urinar, achaques próprios da idade num homem que só foi operado uma vez, ao apêndice. A idealização do seu lugar na Natureza não se perdeu. Com a sua idade, já não fará sentido perguntar se, algum dia, será uma pessoa normal. “O tempo que viveu sozinho deixou marcas, o bosque não saiu de dentro dele”, admite Gabriel Manila, entre o comovido e o angustiado. “A fome e a miséria estão na base da sua história. O resto é farsa, um espantalho criado pela curiosidade das pessoas”, censura o antropólogo. Aí está, ironiza, o selvagem que parece saído da fábrica Disney, produto de um filme romantizado em demasia, repetindo uma e outra vez o espetáculo. Máscaras de um homem “com rasto de inocência”, mas sem entender o mundo em que vive. “Recorda-me os monstros de feira, é patético. Não por ele: ao fim e ao cabo, tem de comer. Mas por causa de quem procura nele o espantoso freak.”

Ainda assim, Marcos Pantoja integrou-se na vida comunitária.

Agora já acreditam nele e pedem desculpa por não terem acreditado. Em Rante, participa nas festas da terra, nas matanças, nos enterros. Política e futebol, passa. Só desafina quando o picam por ganhar “mais dinheiro do que um toureiro” à custa de se tornar uma celebridade. “Se me levam às boas, sou um torrão de açúcar”, repete. O amigo ambientalista Xosé Otero di-lo “sensível, inteligente, amante da Natureza, mas”, adverte, “nunca terá um comportamento igual à maioria dos humanos”.

À noite, Marcos Pantoja revê os filmes sobre a sua outra vida. Antes de adormecer, afaga o póster da loba colado por cima da cama e à qual chama “mamã”. A criança arrancada brutalmente à infância e à floresta nunca morrerá. Mas, por muitas arrelias que tenha vivido no universo humano, a sua longa viagem caminha para o ocaso, por fim tranquila. “Bom é este povo que conheço”, confessa. “Aqui cheguei e aqui quero ficar até deixar este mundo.”

  • Da Serra Morena à selva humana: a longa viagem do homem-lobo

    Sociedade

    O andaluz Marcos Pantoja foi vendido pelo pai quando tinha 7 anos. Abandonado na Serra Morena, viveu mais de uma década entre os bichos. Quando o "resgataram" rosnava. Mas a "selva humana" não o tratou melhor. Fomos conhecê-lo à Galiza, onde vive hoje em dia. A reportagem pode lê-la na edição desta semana da VISÃO. E o vídeo pode espreitá-lo aqui