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O surpreendente caso da mulher que apareceu morta numa praia, ninguém sabe quem é, mas teve uma multidão a assistir ao funeral

Sociedade

Birling Gap, Sussex

Tim Grist Photography

Um corpo de mulher apareceu numa enseada de East Sussex, Inglaterra, no último mês de julho e, até agora, não apareceu ninguém à sua procura. Mas a história chegou à internet e mais de 100 estranhos compareceram ao seu funeral

Dela, não se sabe nada. Sobre o que lhe aconteceu, sabe-se apenas o que revelou a autópsia: que das três uma: ou caiu de uma grande altura, ou foi atingida por um barco ou foi atirada contra as rochas pelas ondas. Não é possível determinar com exatidão quanto tempo esteve no mar e nem as análises de ADN nem de impressões digitais resultaram numa pista que seja sobre a sua identidade. Também não apareceu nenhum familiar a reclamar o corpo e não consta de nenhuma base de dados de pessoas desaparecidas. A polícia distribuiu um retrato, obra de um artista forense, que apresenta uma mulher de cabelo castanho pelos ombros, olhos escuros, um rosto agradável, um leve sorriso; Ascendência europeia e uma idade algures entre os 25 e os 55 anos. O retrato mostra ainda dois colares, eventualmente distintivos, já que um deles tinha um pendente que parece antigo. Mas sem resultado também - A identidade da mulher é oficialmente um mistério.

Chamemos-lhe, então, a "A Senhora Desconhecida", que é o nome a que se resignaram as autoridades e não será difícil imaginar um funeral nestas circunstâncias. A iniciativa de duas mulheres, no entanto, a que rapidamente a comunidade aderiu em massa, mudou esse desfecho previsível e, no mês passado, mais de 100 estranhos compareceram às cerimónias fúnebres organizadas pela câmara. Supermercados e floristas doaram coroas e outros arranjos de flores, a campa teve direito a uma lápide onde se lê "Linda Senhora Desconhecida" e um hotel local abriu as portas para uma pequena receção.

As duas mulheres, que organizaram tudo por telefone e e-mail, só se conheceram no dia no funeral. Mas tanto Christina Martin, 38 anos, responsável pela saúde pública dos distritos administrativos de Rother e Wealden, como Sara Taylor, 41, que tomou conhecimento da história através da Internet, não querem ficar por aqui e continuam a tentar encontrar a família da vítima.

“Foi um momento extraordinário, quando vi pessoas até onde a vista alcança”, recorda Christina. “Éramos um grupo de pessoas que não se conheciam mas todos partilhávamos um pensamento – se fosse a nossa mãe, a nossa irmã ou filha, esperaríamos que alguém estivesse lá para ela”, resume, por seu lado, Sarah.

Aos meios de comunicação britânicos, Christina explica ainda como o caso é diferente de todos os que já lhe passaram pelas mãos: “Em 20 anos, o nosso conselho nunca teve de lidar com uma pessoa desconhecida nessas circunstâncias. Normalmente recebemos um telefonema da polícia com o nome e a morada para começar a nossa investigação. Fazemos uma busca domiciliária e eu vasculho listas de contactos, mas com a senhora desconhecida deparei-me com um vácuo absoluto.”

Essa ausência total de pistas – a polícia também está às cegas - fez a responsável virar-se para as redes sociais. “Parte do meu trabalho é garantir não só que alguém é cremado ou enterrado, mas dar-lhes um funeral digno”, justifica. As empresas que se ofereceram desde logo para ajudar foram várias, mas o caso tocou também Sarah, cujo internamento hospitalar de cinco meses, no início do ano, a confrontou com a solidão de vários idosos doentes e a deixou “mais sensível” a esta história.

“O conselho estava a tratar do funeral e, então, eu pensei: tenho de fazer as outras pessoas saber”. E Sarah espalhou a palavra nas longas viagens de comboio diárias e no Facebook. “Tentei garantir que apareciam tantas pessoas quanto possível. Pensei que podiam ser 20, por isso foi incrivelmente comovente quando vi mais de 100.”

E não se pense que a “Linda Senhora Desconhecida” não teve direito a umas palavras durante a cerimónia, que não foi religiosa, por se desconhecer (também) esse dado, mas Sarah fez um pequeno discurso, houve quem lesse poesia e todos terminaram a cantar o Hallelujah de Leonard Cohen.

Agora, a ideia é traduzir o apelo da polícia em várias línguas e dar-lhe alcance internacional e Sarah espera ainda lançar uma campanha para a qual vai tentar conseguir o apoio de celebridades. “Tudo o que espero é que um dia a família apareça e lhe dê um nome”.