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Provadora de comida de Hitler: a mulher que arriscava a vida três vezes por dia pelo Führer

Sociedade

Hitler durante um jantar, em 1938, com o primeiro ministro inglês Neville Chamberlain (à esquerda)

Heinrich Hoffmann/Getty

Durante dois anos Margot Wölk foi uma das 15 provadoras de comida de Hitler. Durante dois anos, a escritora Rossella Pastorino investigou a fundo a alimentação do déspota e, na semana em que se iria encontrar com Wölk esta morreu

Margot Wölk tinha 24 anos quando membros das SS de Hitler lhe baterem à porta. “Venha connosco”. Ela foi. Não tinha escolha. A partir desse dia tornou-se umas das 15 provadoras de comida de Adolf Hitler, que tinha medo de ser envenenado.

Durante dois anos, entre 1942 e 1944, um carro das SS parava à porta da casa onde vivia com a sogra – o marido estava na guerra – e percorria os três quilómetros que a separavam de Wolfsschanze (A Toca do Lobo), um gigantesco complexo com vários bunkers onde Hitler e o seu séquito de malfeitores estavam. perto de Rastenburg, à época Prússia Oriental e hoje, território da Polónia.

Todos os dias o trabalho de Wölk era provar a comida que, cerca de uma hora depois, era servida ao Führer. E, enquanto os alemães se debatiam para conseguir uma chávena de café ou um bocado de margarina, ali tudo era em grande. “Havia legumes, molhos, pratos de macarrão e frutas exóticas.

Nunca houve carne porque Hitler era vegetariano”, disse Margot numa entrevista a um jornalista alemão do jornal Berliner Zeitung, em 2012, no dia em que fez 95 anos. “A comida era boa ... muito boa. Mas não a pudemos aproveitar.” O receio de ser ela própria envenenada pairava a cada pedaço de comida. Três vezes por dia dava a vida por Hitler. Nunca o viu.

Arriscar a vida três vezes por dia para sobreviver

Quando, em 1944, o soviético Exército Vermelho estava às portas da Toca do Lobo, um membro das SS pôr Margot num comboio para Berlim, salvando-lhe a vida. Depois da II Guerra Mundial terminar ela voltou a encontrar esse mesmo homem. Contou-lhe que as restantes 14 colegas provadoras tinham sido fuziladas pelas tropas soviéticas. Algumas semanas depois, ela própria foi capturada por soldados e violada e mantida em cativeiro durante duas semanas.

De seguida houve um enorme muro de silêncio. Margot voltou para a casa onde nasceu, perto da Toca do Lobo, mas nunca mais falou sobre o assunto. Juntou-se ao marido e viveu com ele até à sua morte.

O que mudou para, em 2012, aos 95 anos, querer falar sobre a sua vida? A insistência de um jornalista que a levou até à da Toca do Lobo e apenas a vontade de dizer que “Hitler era uma pessoa repugnante”, disse ao Berliner.

Margot morreu em 2014, pouco tempo antes da escritora italiana Rosella Postorino conseguir falar com ela. Postorino ficou fascinada com a história e quis escrever um romance sobre a provadora de Hitler. Pesquisou sobre a alimentação, os pratos que eram confecionados, leu cartas, livros e conseguiu vários testemunhos. Margot morreu na semana em que se iriam encontrar.

Rosella Postorino conseguiu na mesma montar a história que queria, embora parte dela seja ficção. Margot Wölk é Rosa Sauer no livro que lançou em abril deste ano e que, agora, chegou aos escaparates espanhóis com o título “La Catadora” (“A Provadora”).

“Ela manteve vivo o nazismo e Hitler. Não era das SS, mas esteve em contacto com o mal absoluto, apaixonou-se por um nazi, perdeu pessoas que amava e que não soube proteger e sentia uma enorme culpa por isso tudo. No final sobreviveu, mas para viver como uma pessoa que não tem redenção possível”, disse a escritora ao diário espanhol El País.

Postorino, confessa, ficou obcecada com o desenvolvimento do seu livro, e há uma pergunta recorrente nesta prosa literária. “O que faria eu numa tal situação de precariedade existencial que me empurrasse a fazer esta concessão: arriscar a vida três vezes por dia para sobreviver?”