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Cidades à prova de calor

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As zonas urbanas chegam a ser dez graus centígrados mais quentes do que o campo. Mas algumas cidades – incluindo portuguesas – estão a tentar resolver o problema

Sébastien Maire não quer que as escolas parisienses voltem a fechar devido a uma onda de calor, como aconteceu em junho, quando alguns recreios chegaram aos 55oC. E, para isso, tem um plano: o Alto-Responsável da Resiliência de Paris quer transformar, até 2050, os pátios das 800 escolas da cidade em ilhas de frescura, através de pormenores arquitetónicos e paisagísticos (mais áreas verdes e sombras, sobretudo) que ajudem a baixar os termómetros. Para proteger as crianças e também para abrir os portões à população, em casos de emergência.

Não é um projeto barato – remodelar todas as escolas custa cerca de 300 milhões de euros –, mas o funcionário público francês está convencido de que é uma questão de vida ou de morte, tendo em conta os milhares de pessoas que sucumbem todos os anos devido ao calor.
Reduzir a temperatura nas cidades é cada vez menos um debate sobre conforto e mais sobre sobrevivência, tendo em conta o aquecimento global e o falhanço anunciado do Acordo de Paris, que deveria limitar a subida média global a 2oC até ao fim do século (alguns estudos apontam para 3oC ou 4oC, se os países mantiverem esta linha). Nas zonas urbanas, onde vive a maior parte da população mundial, a situação é particularmente grave. Devido ao betão, ao vidro, ao trânsito e ao asfalto, as cidades ganham um microclima que as torna muito mais quentes – quando a radiação solar incide, essas superfícies absorvem-na e voltam a emitir calor, gerando temperatura radiante que aquece o ar. Em certos casos, a diferença para a temperatura oficial atinge os dez graus centígrados.

É por isso que várias metrópoles têm investido em medidas para minimizar o calor. Singapura, por exemplo, aposta no verde, através de legislação que obriga os novos empreendimentos imobiliários a ter uma área ajardinada equivalente à área de construção (daí que proliferem os jardins verticais, que já ocupam 100 hectares na cidade-Estado). Nova Iorque e Los Angeles, nos EUA, preferem o branco, que reflete a luz solar: na primeira, já foram pintados 500 mil metros quadrados de telhados; na segunda, tingem-se as estradas. Na China, no Japão e na Austrália, têm sido instalados aspersores nas ruas. Nos Emirados Árabes Unidos, há edifícios com fachadas móveis (placas nas paredes que abrem e fecham, de acordo com a hora do dia, criando sombras dinâmicas).

Espelho de água da Praça da Liberdade, em Almada

Espelho de água da Praça da Liberdade, em Almada

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Como Almada se arrefece

Não precisamos de ir muito longe para ver este tipo de adaptações. Em julho, o Fundo Ambiental disponibilizou €1,6 milhões para apoiar projetos, em 11 municípios portugueses, contra o calor urbano: espaços verdes, zonas públicas de refrigeração e corredores de ventilação. Mas talvez nenhum concelho esteja tão adiantado neste campo como o de Almada. Há três anos que a autarquia da Grande Lisboa põe em prática um projeto de adaptação às alterações climáticas, apresentado na Cimeira do Clima, em Paris, em 2015.

Almada foi uma das 20 cidades selecionadas para estarem presentes na cimeira. “O projeto obrigou-nos a olhar para as atuais vulnerabilidades do concelho e a perceber como iriam ser amplificadas”, conta Catarina Freitas, engenheira e diretora do Departamento de Energia, Clima, Ambiente e Mobilidade da câmara municipal. São 70 quilómetros quadrados de um território eminentemente costeiro, com 13 quilómetros de frente atlântica de praias. “Somos suscetíveis aos galgamentos oceânicos, à instabilidade da encosta com uma arriba fóssil, à erosão dos ecossistemas dunares, e temos problemas exacerbados das linhas de águas artificializadas”, elenca Catarina Freitas.

Um dos estudos realizados incidiu sobre os efeitos da “ilha de calor urbano”, nome dado ao fenómeno que explica a diferença de temperatura nas cidades. A solução da autarquia passa por criar mais zonas verdes. “Quando existe vegetação, esta, naturalmente, faz evapotranspiração e transforma parte da luz em gotas de água, que ficam nas plantas, e que de estado líquido passam a gasoso, arrefecendo o ar”, explica Catarina. Entre as zonas com menos construção da Charneca da Caparica, onde ainda há densidade verde e casas com logradouros, as temperaturas, quando comparadas com as do centro de Almada, têm uma diferença de 3,5oC a 4oC. Quando, no coração da cidade, os termómetros marcam 33oC, na zona rural e litoral a temperatura está nos 29oC. “Pode parecer pouco, mas numa onda de calor passar de 42oC para 46oC é uma grande diferença.”

As previsões para o concelho de Almada indicam que entre 2050 e 2100 haverá um aumento da temperatura mais substancial na primavera e no outono, além de uma redução da precipitação média (embora, aumentando no inverno, o que irá agravar o problema das cheias urbanas). “A duração média anual das ondas de calor aumentará dos atuais cinco a seis dias para 30 a 40 dias, entre 2080 e 2100. Serão mais frequentes e vão durar mais tempo”, diz Catarina Freitas.
Hoje, quem mora na envolvente do Parque da Paz, o grande pulmão de Almada, em permanente construção, tem a vantagem de sentir um arrefecimento de 2oC, graças a espécies mais resilientes ao clima em mudança. Também o espelho de água na Praça da Liberdade, toda em pedra, é ideal para as pessoas se refrescarem. E, em alguns troços dos carris do metro ligeiro de superfície, o corredor verde de relva ameniza o calor.

O MultiAdapt é um dos vários projetos da cidade para lidar com vulnerabilidades climáticas, através de soluções de base ecológica. Com um custo de €95 mil, financiado em parte pelo Fundo Ambiental, criaram-se na Charneca da Caparica as hortas da Quinta do Texugo, junto à ribeira da Foz do Rego. Agora há produção de alimentos e a linha de água volta a cumprir as suas funções – tudo isto no meio de uma área urbana. Onde havia várias linhas estropiadas e erodidas, a água chegava ao topo da arriba e levava tudo à frente. No verão de 2017, a linha de água foi renaturalizada e recuperou-se a bacia de retenção. Catarina Freitas está a tentar obter financiamento para replicar o modelo no Laranjeiro, no Feijó e noutra zona da Charneca.

No próximo ano, o município prevê instalar em Cacilhas um pavimento fotovoltaico que transformará as estradas em verdadeiras centrais elétricas. O futuro passa por aqui: este tipo de pavimento reduz o calor, ao substituir o alcatrão, 
e ainda produz energia.

As soluções à mão de semear

Zonas verdes - Jardins verticais, telhados com relva e hortas, corredores verdes junto às estradas e muitas árvores são medidas que reduzem a temperatura em 2 ou 3 graus

Muito branco - Nova Iorque e Los Angeles têm programas para pintar de branco telhados e estradas; uma estrada branca chega a ser 23 graus mais fresca do que uma tradicional

Sombras dinâmicas - Placas nas paredes exteriores que abrem e fecham, consoante a luz solar, são a nova proposta da arquitetura para resolver o problema do calor urbano

Água por todo o lado - Aspersores, fontes e espelhos de água em locais públicos fazem diminuir a temperatura em redor até 10 graus