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Quando a pornocracia dominava o Vaticano

Sociedade

Um livro agora publicado em Portugal escrutina ao pormenor a submissão do trono de Pedro ao “governo das prostitutas”, no século X, repleto de atrocidades. Comparadas com este período histórico, as atuais guerras de poder em torno do papado de Francisco parecem uma brincadeira

Certa rameira sem vergonha chamada Teodora foi durante algum tempo a única monarca de Roma e – tenho vergonha de o escrever – exerceu o seu poder como um homem. Teve duas filhas, Marósia e Teodora, que não só a igualaram como a ultrapassaram nas práticas amadas por Vénus.” Quem caracteriza desta forma aquela nobre romana, esposa do autonomeado cônsul, senador e duque Teofilato, é o cronista Liutprando (920-972), bispo de Cremona e diplomata. “Esta família da nobreza romana era extremamente influente, até mesmo na escolha dos Papas, e interferia nos assuntos religiosos em Roma, tanto através de conspirações como de negociatas e casamentos”, diz José Brissos-Lino, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona. Estamos num período histórico, na primeira metade do século X, que “ficou conhecido como ‘o governo das prostitutas’”, devido à “influência decisiva” de Teodora (também senadora) e da filha Marósia no centro do poder do Vaticano, acrescenta o professor universitário. José Brissos-Lino anota ainda que a história destas mulheres surge numa altura do papado igualmente denominada “Idade das Trevas”.

Confirma-o o jornalista de investigação e escritor espanhol Javier García Blanco no seu livro A História Secreta do Vaticano, agora publicado em Portugal (ed. Matéria-Prima, 260 págs., €17). Numa nota introdutória, o autor da obra diz que nas suas averiguações encontrou “um inventário de atrocidades que fariam estremecer o mais cruel dos assassinos”. Mas, ao mesmo tempo que fala em “Papas manejados”, reconhece Teodora e Marósia como mulheres dotadas de “enorme inteligência” e de uma “beleza hipnótica e sensual”, e que, à debilidade dos homens que manipulavam, contrapunham “grande habilidade” na alcova.

Quem será o pai da criança?

Em 904, o bispo de Ceres e conde de Túsculo, após muito batalhar, ascendeu a Papa como Sérgio III. Prendeu e mandou degolar dois antecessores contra os quais lutou – Leão V e Cristóvão. Sérgio III também ficou com a “duvidosa honra de ter iniciado uma etapa papal que o bispo de Cremona, Liutprando, batizou como ‘pornocracia’”, conta García Blanco. O clérigo sentou-se no trono de Pedro alçado por Teodora e pelo marido. E, pouco depois, “começou a procurar prazeres mais carnais, folgando nos lençóis pontifícios com a jovem Marósia”, de apenas 15 anos, “oferecida ao Papa pela sua mãe”. 
O escritor espanhol relata que algumas fontes, como o Liber Pontificalis (livro das biografias dos Papas), as crónicas do bispo Liutprando de Cremona e autores mais modernos, asseguram que “Marósia engravidou de Sérgio e que o seu filho se converteu, anos mais tarde no Papa João XI”. Outros investigadores, no entanto, “creem que tal filho seria de Alberico I”, poderoso nobre com quem Marósia se casaria. Porém, o mais provável, admite o autor, é que este pormenor “nunca seja clarificado”.
Sérgio III morreu em 911 sem deixar saudades. E a série de Papas que lhe sucedeu subiu ao poder pelos Teofilato, com Teodora e Marósia à frente de todas as conspirações. Anastácio III serviu-lhes durante dois anos (911-913), ao fim dos quais morreu sob suspeita de envenenamento. O arcebispo de Ravena, D. Lando, seguiu-se-lhe, também com um papado curto e uma morte súbita.

Depois, Teodora tudo fez para colocar João de Tossignano, bispo de Bolonha, na liderança da Igreja. Seria o Papa João X. “As más-línguas – neste caso a do bispo Liutprando – asseguraram, sem pudor, que Teodora se havia enamorado perdidamente pelo jovem e belo João, durante as constantes visitas deste à Cidade Eterna, tendo sido ela quem o encaminhou na hierarquia da Igreja, primeiro como bispo, depois arcebispo e, finalmente, como ocupante do trono de Pedro”, escreve García Blanco.

Foi a época áurea da nobre e senadora romana. Controlava o papado através de João X, a nobreza, por via do seu marido, Teofilato, e o poder militar graças ao genro, Alberico, marquês de Camerino, já casado com Marósia. A partir daqui, porém, instala-se um enigma quanto ao destino destas personagens, à exceção de Marósia, por ausência de relatos fiáveis. “As menções a este período informam-nos de que Alberico, Teodora e Teofilato faleceram, mas não explicam em que circunstâncias”, diz o autor de A História Secreta do Vaticano. “Alguns rumores, mais tardios, sugerem que Alberico, ao ambicionar cada vez mais poder, acabou expulso de Roma e assassinado.”

Marósia, “serial killer” de Papas

Por crónicas fidedignas, sabe-se que, em 926, após a morte de Alberico, Marósia casou-se com Guido, líder da Toscana 
e meio-irmão de Hugo de Provença. 
E o Papa ficou com o destino traçado. João X nunca tinha sido do agrado de Marósia – “e, morta Teodora, sua amante e protetora, havia chegado o momento de o afastar”, descreve García Blanco. O Papa ainda procurou um aliado que o defendesse. Viajou até Ravena e entabulou conversações com Hugo da Provença, a quem prometeu a coroa de Roma em troca de proteção – em vão. Dois anos depois, em 928, Marósia mandou encarcerar o Papa. João X esteve preso durante um ano até a cruel nobre ordenar que o asfixiassem com uma almofada.

Marósia já decidira que o seu filho favorito, João, seria Papa. Só era preciso esperar que “alcançasse uma idade razoável para tomar o lugar de príncipe dos apóstolos”, como escreve García Blanco. Por isso, os Papas que se seguiram a João X “foram simples marionetas” com sentenças de morte antecipadas. Leão VI, apesar de dócil e servil, rapidamente acabou assassinado. Sucedeu-lhe Estêvão VII, que foi Papa de 928 a 931. Embora com um pontificado mais longo do que o do seu predecessor, também seria assassinado.

Às tantas, a filha de Teodora até encomendou o assassínio do marido, Guido da Toscana, que já não lhe servia para nada. E, “depois de Estêvão VII, subiu enfim ao trono apostólico o filho da calculista Marósia, aquele que, de acordo com os indícios, era fruto dos seus amores passados com o Papa Sérgio III”, relata García Blanco.

Com ferro mata...

O novo Papa foi consagrado com o nome de João XI aos 25 anos. E este foi também o momento para a “concubina de Roma” procurar novo marido. A escolha recaiu em Hugo da Provença (meio-irmão do seu ex-cônjuge, Guido), que tinha sido coroado rei por João X. “Aparentemente, o provençal já era casado, mas isso não acarretou problemas para ele, que não pestanejou na hora de matar a sua esposa”, escreve García Blanco.

Agora, os planos de Marósia eram muito mais ambiciosos. “Como novo pontífice, João dispunha do poder de coroar um novo imperador”, explica o investigador. “E essa era a ideia de Marósia: se o Papa coroasse como imperador o seu novo e ostentoso marido, o rei Hugo da Provença, ela converter-se-ia em imperatriz.

Um inimigo imprevisto surgiu – Alberico II, o filho de Marósia e do primeiro Alberico, “que havia sido condenado ao ostracismo desde pequeno, em favor do seu meio-irmão”, o novo Papa, conta o escritor espanhol. Alberico, de 18 anos, apelou ao levantamento dos romanos contra o “tirano Hugo”. A gente de Roma respondeu à chamada: ainda se recordava daquele que tinha sido o herói da cidade, o pai do jovem, Alberico I, que encabeçara um Exército que enfrentou e venceu o invasor muçulmano que ameaçara a Itália.

O povo dirigiu-se à fortaleza onde Marósia e o seu marido habitavam. Hugo fugiu sem deixar rasto. “Uma vez expulso o monstro, Alberico autonomeou-se ‘senador e príncipe de todos os romanos’”, relata García Blanco. E não demorou a ordenar o encarceramento da mãe “até ao fim dos seus dias nas obscuras masmorras da fortaleza de Sant’Angelo, mantendo o seu irmão, o Papa, como prisioneiro no Palácio de Latrão”, diz o jornalista e escritor espanhol. João XI morreu em 936 e Alberico II elegeu os seus sucessores: Leão VII, Estêvão VIII, Marino II e Agapito II. Todos eles controlados pelo “senador e príncipe” que governou Roma durante 22 anos, de 932 a 954.

“Por caprichos do destino, Alberico desposou Alda de Vienne, filha de Hugo da Provença”, escreve García Blanco. Desse casamento nasceu o único filho do príncipe de Roma, que recebeu o nome de Otaviano. Depois, já muito doente, Alberico II reuniu a nobreza e o clero e, mediante um juramento solene na Basílica de São Pedro, “fez-lhes prometer que, após a morte do Papa Agapito II, nomeariam o seu filho Otaviano como príncipe de Roma e novo vigário de Cristo”, diz o escritor.

As autoridades políticas e eclesiásticas aceitaram a proposta. E a 16 de dezembro de 955, aos 18 anos, Otaviano obteve a tiara papal e adotou a designação de João XII. Foi com ele que se instaurou a tradição de mudar o nome de quem é eleito Papa. De resto, revelou-se mais um licencioso no trono de Pedro. “Todos os cronistas e historiadores coincidem em assinalar que o novo líder da Igreja estava mais interessado em levar à prática todas as suas inclinações sexuais do que em exercer o poder”, relata García Blanco. Os genes não perdoam

Uma Papisa Joana ou duas?

Como um fogo florestal, a história alastrou-se entre os séculos XIII e XVII. Joana, bela e inteligente jovem inglesa, viajou para Atenas, onde visitou um convento beneditino. Aqui, apaixonou-se por um dos seus mestres e foi correspondida. Para se manter no convento, ocultou o seu aspeto feminino e, disfarçada, converteu-se num monge, coberta com o hábito e exibindo a típica tonsura. Passou a ser conhecida por “João, o Inglês”, e em segredo continuou ao lado do homem que amava. O amante faleceu e a rapariga embrenhou-se ainda mais nos seus estudos. Mudou-se para Roma, onde impressionou os clérigos com a sua sabedoria e acabaria por ser eleita Sumo Pontífice em 855, sob o nome de João VIII. No entanto, um novo caso amoroso fez com que engravidasse e, para escândalo geral, deu à luz no decurso de uma procissão. Assim terminou o seu papado de dois anos, um mês e quatro dias. Esta é a lenda, para a qual o jornalista e escritor espanhol Javier García Blanco propõe uma nova explicação, no seu livro

A História Secreta do Vaticano, agora publicado em Portugal. “Atualmente, a maior parte dos estudiosos parece concordar em que não foi uma única mulher, mas duas, que serviu de inspiração para a lenda de Joana”, escreve García Blanco. Essas duas mulheres são a aristocrata e senadora romana Teodora Teofilato e a filha Marósia (ver texto nestas páginas), “verdadeiras protagonistas do período seguinte do papado, possivelmente o mais obscuro e nefasto da História”, defende o escritor.