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Homem que é homem... talvez use maquilhagem

Sociedade

Getty Images

Do eyeliner ao rímel, passando pela base e pelo batom, as marcas de cosmética reconhecem a mudança e lançam coleções só para eles

Há muito que as prateleiras da casa de banho dos homens deixaram de ter apenas after shave, um substituto do álcool puro para os que têm barba rija. Gel para lavar o rosto, hidratante, corretor de olheiras, eyeliner ou protetor labial preenchem agora os armários masculinos. Aliás, 75% dos homens portugueses já usam produtos de beleza e 89% têm mesmo um papel ativo na escolha e na compra dos produtos que utilizam, segundo um estudo da L’Oréal Portugal.

Pintar os olhos, como os antigos egípcios, ou pôr blush nas maçãs do rosto, como os romanos, não são propriamente práticas recentes, antes pelo contrário. “A história vai alterando os hábitos até no que à beleza diz respeito. No século XVIII já os homens usavam maquilhagem, pois ter uma pele branca carregada de pó era sinónimo de sensualidade. Nessa altura, eles também usavam saltos altos e collants”, lembra Pedro Lucas, diretor da revista Men’s Health. “Tudo tende a tornar-se um hábito aceitável, mas penso que a maioria dos homens que decide usar maquilhagem irá fazê-lo mais numa perspetiva de prevenção e de disfarce de ligeiras imperfeições, rugas ou olheiras. Hoje, pode parecer estranho usar maquilhagem como as mulheres, assim como, há 17 anos, quando lançámos a revista em Portugal, ninguém aceitava que os homens portugueses pudessem usar um creme hidratante”, analisa Pedro Lucas.

Para as grandes marcas de cosmética e beleza, o maior desafio é fazer com que eles acreditem que a maquilhagem pode ser viril. Para isso rebatizam os produtos, chamando manscara à máscara ou rímel, guyliner ao eyeliner e hidratante colorido à base. Lembrar aos homens que a maquilhagem é benéfica para problemas de pele é outra das técnicas de marketing utilizadas.

Há precisamente uma década, a gigante francesa Yves Saint Laurent foi a primeira a focar-se no rosto masculino, adaptando o seu corretor facial feminino Touche Éclat, um clássico de 1992. A embalagem dourada pensada para as mulheres deu lugar a um tubo de estanho fácil de guardar. Já este mês, a 1 de setembro, foi a vez de a Chanel apresentar a sua linha de maquilhagem específica para homens. A Boy de Chanel, coleção composta por três produtos (base e lápis de sobrancelhas, ambos em quatro tons, e protetor labial mate) chegou primeiro às lojas da Coreia do Sul, onde o mercado de produtos masculinos para a pele aumentou 80% entre 2010 e 2016. Segue-se o lançamento internacional no site da marca, em novembro, e nas boutiques, em janeiro do próximo ano. “Tal como Gabrielle Chanel pegou em peças do vestuário masculino para vestir as mulheres, hoje a marca inspira-se no mundo feminino para definir uma nova estética pessoal para os homens”, salientava fonte da marca ao jornal Women’s Wear Daily.

Lindos meninos

Já não são só os homens do meio artístico, atores ou cantores, que usam maquilhagem como detalhe extravagante da sua imagem – lembra-se de David Bowie, Steven Tyler, Boy George ou Kurt Cobain, ícones das décadas de 1970 a 1990, com o que de mais kitsch a sua make-up poderia representar? Segundo um relatório do Financial Times, o mercado de cosméticos masculinos gerou cerca de €42 milhões, em 2016. Além dos cantores e atores, o próprio Emmanuel Macron, Presidente francês, gastou €26 mil em maquilhagem nos seus primeiros 100 dias de governo.

Este filão de negócio está cada vez mais presente nas redes sociais, sobretudo no Instagram, com uma série de beauty boys, como são chamados os jovens que dão a cara pelas marcas e fazem tutoriais de como um homem se deve maquilhar. Há dois anos, a CoverGirl anunciou James Charles, com 7,8 milhões de seguidores no Instagram, como o seu primeiro embaixador masculino, numa campanha para divulgar uma máscara de pestanas. Mais autodidata, Patrick Starrr (4,5 milhões de seguidores) começou desde cedo a ver programas de beleza. Já o seu melhor amigo, Manny Gutierrez, conhecido por Manny Mua, com uma legião de cinco milhões de fãs, é o rosto de um anúncio de rímel da Maybelline, insígnia da L’Oréal. “Os rapazes merecem o mesmo reconhecimento cosmético”, escreveu no seu Instagram.

A maquilhagem está a mudar o significado da masculinidade, mas será que o pudor está a desaparecer? Há um ano, Vismay Sharma, diretor da L’Oréal no Reino Unido, explicava que usar cosméticos já não era um tabu para a “geração selfie” e que, dentro de cinco a sete anos, a maior parte das lojas terá prateleiras dedicadas só à maquilhagem para eles. E não se trata de uma questão de querer imitar o mundo feminino. “O homem atual já percebeu que os cosméticos lhe são benéficos por vários motivos. Quando usam um hidratante regularmente, sentem a pele mais firme e saudável. Depois, aplicam um creme anti-idade e reparam que as rugas ficam mais ténues, um creme de contorno dos olhos disfarça as olheiras... É óbvio que se sentem mais confiantes, bonitos e com um aspeto saudável. Quem não o faz é porque teima em viver no tempo dos homens feios, porcos e maus e ainda não percebeu que usar cremes não está relacionado com género ou orientação sexual. A investigação científica na cosmética masculina tem evoluído tanto nos últimos anos que é uma pena que alguns homens não percebam os benefícios. Tudo pode ser usado, de forma inteligente, natural e sem exageros”, conclui Pedro Lucas.