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Raparigas menos felizes: a “culpa” é do stresse escolar e dos media sociais

Sociedade

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Um inquérito realizado no Reino Unido, junto de raparigas e jovens adultas, revelou que são cada vez menos as que afirmam sentir-se felizes. E em Portugal o panorama não é muito diferente

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

“Se és do sexo feminino, não estranhes se te sentires menos feliz, à medida que chegas à idade adulta.” Este poderia ser um aviso à navegação estudantil, em tempos de Brexit. Mas não, nada disso. A conclusão resulta de um inquérito realizado para a Girlguiding, a maior organização juvenil do Reino Unido, e que se baseou em 1900 entrevistas a raparigas com idades compreendidas entre os sete e os 21 anos. Apenas uma em cada quatro (25%) se considerava “muito feliz”, ou seja, um valor bem inferior ao obtido em 2009, que superou os 40%. O estudo, divulgado pelo jornal The Guardian, vai mais longe ao analisar a progressão do “desapontamento” manifesto nas respostas do grupo etário superior, com idades entre os 17 e os 21 anos (mais 16% do que no estudo anterior): cerca de 27% afirmaram sentir-se infelizes.

Stress, media e descontentamento

Admitindo que o estado emocional nesta fase da vida tende a sofrer flutuações, estes dados não seriam problemáticos, mas a partir do momento em que o estado de humor compromete a qualidade de vida, ou seja, quando afeta negativamente o dia-a-dia, isso é sintomático. os dados assim o mostraram, já que a maioria das inquiridas que sentia descontentamento afirmou que isso influenciava, para pior, a sua autoconfiança, o estado de saúde, os seus relacionamentos e, ainda, o rendimento nos estudos, por esta ordem de importância.

A análise de conteúdo das respostas permitiu apurar as principais razões que estariam na base deste sentimento sombrio. Quase 70% das meninas e jovens apontaram o stresse crescente das avaliações escolares e o aumento da pressão social, sobretudo online, com o aumento de comportamentos menos aceitáveis e, até, ameaçadores.

Ter voz e fazer-se ouvir

Estes dados não são assim tão diferentes dos portugueses, já que, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, 78% das consultas psiquiatria da infância e adolescência realizadas no Serviço Nacional de Saúde, em 2016, foram com utentes do sexo feminino. Ainda que estes dados possam ter uma leitura que envolva questões de género - elas parecem ter mais facilidade em pedir ajuda e falar dos problemas que as afetam - há outros fatores possíveis, a ter em conta nesta análise. É o caso da forma como as jovens passaram a relacionar-se, nos últimos anos: medida que o espaço de interação e a vivência de grupo foram passando do registo presencial - das casas dos amigos, por exemplo - para o virtual, tal trouxe implicações. Neste inquérito, a frequência de perturbações mentais que afetam as próprias ou as amigas pode ter aumentado, embora tal possa igualmente significar que o tema é discutido com mais abertura em meio escolar e entre amigos.

As participantes “deixaram uma mensagem clara acerca da seriedade dos assuntos com que se debatem diariamente, bem como do impacto negativo que isso tem nas suas vidas”, afirmou a coordenadora do estudo britânico, Amanda Medler, ao The Guardian. O mundo pode ter hoje dinâmicas mais complexas, mas trazer, por isso mesmo, mais oportunidades de partilhar emoções, ideias e valores, de ter uma voz e de fazer-se ouvir, como sucedeu com estas jovens, que falam mais aberta e assumidamente do que as interessa e das suas aspirações nas esferas pessoal, social e profissional. Sem medos nem tabus.