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Os chapéus estão de volta para fazer o que fazem melhor: causar impacto. Enormes, de palha ou a remeter para décadas passadas, eis as tendências de verão, na praia ou na cidade

Gigante - 
O La Bomba, da Jacquemus, custa 500 euros 
e está esgotado em todo o mundo

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O La Bomba, da Jacquemus, custa 500 euros 
e está esgotado em todo o mundo

O chapéu panamá, de palha, arredondado e com uma ligeira curva, só se tornou realmente popular quando Theodore 
Roosevelt usou um elegante exemplar de fita preta, numa visita ao canal do Panamá em 1906. Num fato em tons claros, a fotografia do Presidente dos Estados Unidos da América chegou às primeiras páginas dos jornais da altura e deu um empurrão àquela que se tornaria uma das mais lucrativas exportações do Equador.

Raramente podemos desvalorizar o poder de um chapéu: Winston Churchill não saía de casa sem percorrer a sua muito respeitável coleção; Ronald Reagan foi capa da Time, em 2004, com o seu emblemático chapéu de cowboy; e a propaganda revolucionária dos anos 60 não teria o mesmo poder sem a imagem de Che Guevara usando a sua boina com uma estrela vermelha. A mesma que artistas e intelectuais foram reinventando, e que a moda de 2018, de Chanel a Christian Dior, voltou a repensar, agora mais feminista e com materiais mais sofisticados.

As tendências deste verão (e algumas do próximo outono) podem não ser todas políticas, mas não deixam de se afirmar. Temos os bonés, que recuperam referências da moda que vem das ruas; as viseiras dos anos 80, década em que usar um chapéu era tão importante como uma boa permanente; e os modelos bucket, a lembrar a britpop dos anos 90. Nada melhor do que olhar para o Reino Unido para se perceber até onde chega a influência de um bom chapéu, tão essencial nas corridas de Ascot como nos corredores do Palácio de Bucking- ham. “Os chapéus começaram por ser usados por razões conformistas e, agora, são-no pelas razões opostas, por pessoas que querem ocupar o seu próprio espaço”, resumiu Philip Treacy, que já criou vários modelos para a rainha Isabel II, ao jornal The Independent. A entrevista é de 2015, mas reflete na perfeição a moda de hoje, que tanto se recria para a era das redes sociais como para incentivar quem a veste a dizer o que pensa.

Palha de luxo

Não será coincidência, claro, que o homem por detrás do chapéu mais procurado da estação, Simon Porte Jacquemus, apresentado na Semana da Moda de Paris, no final do ano passado, deva parte do seu sucesso ao Instagram. É difícil fazer percorrer o feed e não passar pelo La Bomba, modelo inspirado numas férias no Sul de França e companheiro de verão de modelos e bloggers de moda. De palha e tão largo que precisa de vários metros quadrados de praia só para si, é o símbolo do sucesso da marca francesa.

Com apenas 28 anos, Simon Porte cresceu na era da internet e do vídeo, mas sempre teve uma ligação ao campo, infiltrando-se na conservadora moda francesa sem formação em design nem conhecimento do sistema. É isso que lhe dá charme, como notou Loïc Prigent, o sempre crítico jornalista e realizador de documentários de moda, numa entrevista à Vogue norte-americana, em que elogiou a honestidade do criador, qualidade rara num meio sobrelotado e mais virado para o parecer do que para o ser: “A sua energia é tão interessante, tão real e genuína – as peças de roupa que desenha são sexy de uma forma que nenhuma marca avant-garde consegue ser, sem nunca serem vulgares nem exageradas”, resume.

É a moda a dizer-nos que o regresso às coisas simples também se faz nas passerelles, mensagem que está a ter impacto em quem compra. Tal como aconteceu com os cestos, que voltaram às tendências nas últimas estações, a lembrar Jane Birkin nos anos 70, e também ao design de interiores – mais uma prova de como se podem transformar objetos funcionais em peças de luxo. Sem surpresas, o La Bomba está esgotado há várias semanas, apesar de o preço ultrapassar os 500 euros. 
Quem disse que a simplicidade é barata?

Clássicos reinventados

Neste verão e nas próximas estações, os chapéus atravessam décadas e estilos completamente diferentes, mas todos se vestem com atitude

1 Bucket hat Este modelo da Versace, para o verão de 2019, lembra os anos 90 e bandas como os Oasis

2 Viseiras dos anos 80 A Christian Dior apresentou novos chapéus, como as boinas e este modelo amarelo

3 Bonés Nada melhor do que juntar o glamour da Versace a um símbolo do streetwear

4 Transparentes A Chanel apresentou várias peças transparentes para este verão, incluindo botas pelo joelho