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E se o buraco na Estação Espacial Internacional tiver sido mesmo sabotagem?

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A fissura detetada recentemente na cápsula Soyuz tem apenas 2 milímetros, mas está a dar muito que falar. E a teoria de boicote ganha cada vez mais força

Em maio deste ano, quando Vladimir Putin nomeou o ex-político Dmitry Rogozin para diretor-geral da Roscosmos, a comunidade espacial não estranhou. O homem ameaçara dar um pontapé no rabo aos astronautas americanos da Soyuz, sendo, por isso, considerado potencialmente tóxico para o trabalho conjunto com a congénere americana, mas Donald Trump acabara de indicar para dirigir a NASA um negacionista das alterações climáticas, o ex-advogado Jim Bridenstine (que inesperadamente iria dar o dito por não dito pouco depois de assumir o cargo). Na verdade, estavam bem um para o outro.

Agora, Dmitry Rogozin volta a surgir nas notícias por causa das suas declarações a propósito do buraco detetado numa parede da secção superior da cápsula Soyuz, acoplada ao segmento russo da Estação Espacial Internacional (ISS, sigla em inglês), a 400 quilómetros da Terra. “De que se trata? De um defeito de fabrico ou de um ato premeditado?”, aventou, numa entrevista à agência noticiosa russa RIA Novosti.

A fissura, de 2 milímetros, foi detetada na noite de 30 de agosto, numa altura em que os astronautas a bordo da ISS se encontravam a dormir, nos seus sacos-cama. A pressão na cabine diminuíra ligeiramente, mas não o suficiente para pôr em causa a sobrevivência na estação. De Terra, decidiu-se então nada lhes dizer durante a noite, por isso só na manhã seguinte a equipa da chamada Expedição 56 tratou de tapar rapidamente o minúsculo buraco, primeiro com uma fita adesiva resistente ao calor e depois com um selante e gaze.

De imediato surgiram várias teorias para explicar o sucedido. A primeira apontava para o buraco ser o resultado do impacto de um micrometeoróide, descartada quando os investigadores determinarem que o impacto foi feito de dentro para fora. Seguiram-se as hipóteses de ser um defeito de construção ou posteriormente, mas ainda em Terra, de o buraco ter sido feito durante testes no cosmódromo Baikonur, no Cazaquistão. Por fim, foi avançada a suspeita de sabotagem, com Dmitry Rogozin a dizer serem detetáveis “várias tentativas de perfuração”, aparentemente levadas a cabo por uma “mão vacilante”.

Poderá ter sido a mão de um astronauta “perturbado”, desejoso de regressar mais cedo a Terra? Essa foi a hipótese levantada por Maxim Surayev, um antigo cosmonauta entrevistado pelo Guardian. “Somos todos humanos”, lembrou, “mas este método é muito baixo.”

Já foi criada uma comissão para apurar a origem da fissura, e o diretor-geral da Roscosmos prometeu que será apurado o nome do responsável. “É uma questão de honra” para o fabricante da Soyuz, a empresa russa Energiya, sublinhou.

A bordo da ISS estão seis astronautas, metade desde março e os outros desde junho: Drew Feustel, Ricky Arnold e Serena Auñón-Chanceler, da NASA; Alexander Gerst, da Agência Espacial Europeia; e Oleg Artemyev e Sergei Prokopyev, da agência espacial russa Roscosmos.

Há uns dias, Prokopyev publicou um vídeo nas redes sociais, mostrando o pequeno buraco já tapado. “Como podem ver, está tudo calmo a bordo”, tweetou o cosmonauta de 43 anos, que está na sua primeira missão no espaço. “Vivemos em paz e amizade, como sempre.”