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Afinal, é bom ou mau ser o filho do meio?

Sociedade

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Há quem defenda e analise a suposta influência da ordem do nascimento na personalidade de cada um dos irmãos. Há até o Dia do Filho do Meio. Mas também há quem defenda que tudo não passa de "uma patetice". Em que ficamos, então?

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Já passou muito tempo, mas Otília Monteiro Fernandes ainda tem bem presente o dia em que lhe nasceu um irmão, quatro anos mais novo. “Lembro-me perfeitamente. Fui visitá-lo ao hospital e, naquele momento, odiei aquele bebé”, recorda. Este episódio, associado ao facto de (já em adulta) um dos seus quatro irmãos ter morrido de cancro, levou-a a encaminhar a carreira académica para o estudo das relações entre irmãos. Hoje, aos 
56 anos, a professora do Departamento de Educação e Psicologia, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, consegue analisar o que sentiu na altura: “Fui destronada!”

Este sentimento (de deceção e até de uma certa revolta) é o que mais se associa ao chamado “irmão do meio”– o que nunca chega a ter a atenção exclusiva dos pais, como acontece com o mais velho, nem o mimo e a condescendência de que beneficia o mais novo. “O do meio, ou os do meio, nem sequer tem bem uma designação na hierarquia familiar”, continua a professora e autora de vários livros sobre a família. Não é nem o primogénito nem o benjamim. Anda por ali. Isto compele, muitas vezes, estes filhos “ensanduichados” a distinguirem-se e, assim, tentarem captar a atenção dos pais, em áreas como a arte ou o desporto. “No meu caso, comecei a escrever cedo e cheguei a publicar textos na extinta revista DN Jovem”, diz. “Muitos atletas olímpicos são segundos e terceiros filhos”, exemplifica. Os grandes escritores também raramente são os filhos mais velhos, condenados por vezes a seguir o negócio da família ou a cumprirem as expectativas dos pais.

Esta questão em torno do “filho do meio” dá azo a muitas conversas e teorias. Fala-se em síndroma do filho do meio e até já se instituiu o Dia do Filho do Meio, celebrado a 12 de agosto, algo que o psicólogo, psicanalista e pai de seis crianças Eduardo Sá classifica como uma “”patetice”. “Chega a parecer que ser filho do meio é um defeito de fabrico, que é necessário salvaguardar os seus direitos, como se se tratasse de uma minoria”, nota. “O que me preocupa é que, de tanto se falar, isso se torne um dado adquirido, criando-se constrangimentos aos pais, que acabam por se coibir de exercer a autoridade para não correrem o risco de discriminar. Isto traz mais custos do que benefícios”, defende. “Somos todos mais complexos do que isso, há tantos constrangimentos... Nunca somos pais da mesma forma e não há drama algum nisso. É mesmo a coisa mais normal do mundo”, conclui Eduardo Sá.

Estereótipos à parte, há, no entanto, algumas características que podem estar associadas aos filhos do meio, vistos, por vezes, como as ovelhas negras. Num estudo do investigador do Massachusetts Institute of Technology, Joseph Doyle, que recolheu dados de milhares de irmãos norte-americanos, o filho do meio tem mais tendência para se meter em apuros. No trabalho, que se centrou exclusivamente em rapazes, conclui-se que estes têm 25% a 40% maior probabilidade do que os irmãos de se envolver em problemas, como suspensões na escola e delinquência juvenil, e até podem acabar na prisão. No livro do jornalista de Ciência norte-americano Jeffrey Kluger, sobre as relações entre irmãos (The Sibling Effect), as crianças do meio são mais difíceis de definir, porque, por vezes, há mais do que uma nestas circunstâncias. Algumas tendem a estar mais próximas do irmão mais velho, procurando proteção, outras preferem manter a distância. Podem tornar-se introvertidas e com problemas de autoestima, por crescerem com a sensação de passarem despercebidas, mas, em geral, são mais independentes e observadoras. “Enquanto crescia, tanto me sentia a irmã mais nova (dos três primeiros filhos) como a mais velha (relativamente aos dois mais pequenos)”, exemplifica novamente Otília Fernandes. “Os irmãos do meio são os mais difíceis de descrever”, concede.

A tragédia do filho único

No livro The Secret Power of Middle Children, Catherine Salmon, psicóloga da Universidade de Redlands, na Califórnia, resume 20 anos de trabalho nesta área. Menor dependência dos pais para a resolução de problemas e uma maior tendência para recorrer aos irmãos e aos amigos é uma das principais características identificadas. No que diz respeito aos relacionamentos sociais, também são mais capazes, porque se adaptam a diferentes personalidades.

A discussão em torno da ordem de nascimento numa família voltou à ribalta depois de um artigo, escrito na primeira pessoa e publicado na New York Magazine, de Adam Sternbergh, ele próprio filho do meio e pai de um filho do meio. Chama-se A Extinção do Filho do Meio e nele se dão exemplos de figuras destacadas da sociedade norte-americana, como o ativista Martin Luther King e o apresentador de televisão David Letterman. O autor questiona “o que seria do mundo sem filhos do meio”, uma consequência direta de as famílias 
norte-americanas terem cada vez menos filhos e da tendência de caminharmos para uma sociedade de filhos únicos. “Isto, sim, é uma verdadeira catástrofe, que resulta de uma total ausência de políticas de incentivo à natalidade, e uma enorme irresponsabilidade de todos os partidos”, denuncia Eduardo Sá.

Em Portugal, de acordo com o Censos de 2011, nos agregados domésticos com descendência, 55% das famílias são compostas por filhos únicos, 37% por dois filhos e só 8% por três ou mais. Uma tendência que se mantém há décadas – já no início dos anos 80 do século passado que a média de filhos por mulher era inferior a três. “Quando os meus estudantes de doutoramento vão às escolas fazer inquéritos para os nossos trabalhos sobre irmãos, não raras vezes, mais de metade dos miúdos das turmas não tem irmãos, 
o que acaba por dificultar o trabalho”, exemplifica Otília Fernandes. 
A professora universitária também se refere a este facto com um substantivo forte: “É uma tragédia.” “Quer do ponto de vista social quer na perspetiva 
individual. A convivência com irmãos enriquece-nos como pessoas”, argumenta. E tanta falta nos faz um bom 
conciliador.

“Filhos do meio” célebres

Apesar da ordem de nascimento, 
ou por causa dela. Exemplos 
de filhos “ensanduichados”



Paulo de Azevedo - 
Filho do meio do empresário 
Belmiro de Azevedo, Paulo, 
de 52 anos, tem um irmão mais velho 
e uma irmã mais nova. Licenciado 
em Engenharia Química, tal como 
o pai, assumiu a liderança do grupo em 2000. Recentemente cedeu 
o lugar à benjamim da família.

Miguel Lobo Antunes - 
Membro de uma família de seis notáveis, em que se incluem o já falecido neurocirurgião João e o escritor António, é o quarto do clã. Licenciado em Direito, contra a vontade do pai, médico, acabou por se dedicar à programação cultural, no Centro Cultural de Belém 
e na Culturgest.

Martin Luther King - 
Pastor batista, é o nome mais reconhecido na luta pelos direitos civis, em particular da população negra norte-americana. Tendo Gandhi como fonte de inspiração, manteve sempre uma atitude pacífica e conciliadora, sendo reconhecido 
com o Prémio Nobel da Paz, em 1964. Tinha uma irmã mais velha e um irmão mais novo.






Katy Perry - 
Cantora, atriz, empresária, 
aos 33 anos, a californiana, com sangue português, tem o mundo a seus pés. Em casa, teve de disputar a atenção com um irmão mais novo, que também se dedica à música, 
e com uma irmã mais velha.