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A Monsanto foi condenada. Mas isto não significa que o glifosato causa cancro

Sociedade

JEAN-FRANCOIS MONIER/ Getty Images

Empresa de agroquímica foi condenada a pagar 290 milhões de euros a jardineiro que sofre de linfoma. A sentença muda o que sabemos sobre o pesticida?

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

É impossível não ficar sensibilizado com a história. Dewayne Johnson é um jardineiro americano, de 46 anos, pai de duas crianças, de 10 e 13 anos, que sofre de linfoma de não-Hodgkin e provavelmente não verá os filhos chegarem a adultos. A imagem de Dewayne Johnson, visivelmente abatido pela doença e pela quimioterapia a que tem de se sujeitar para tentar controlar o linfoma, dado como incurável, rapidamente se tornou no símbolo da luta contra os gigantes da indústria dos agroquímicos. Um verdadeiro David contra Golias, que processou a empresa de agro-produtos alemã Bayer - dona da Monsanto, companhia que desenvolveu o herbicida RoundUp, à base de glifosato - e ganhou. De acordo com a tese defendida pelos seus advogados, o linfoma de que sofre terá sido causado pela exposição ao pesticida glifosato, durante a sua atividade como jardineiro escolar. O juri, composto por onze pessoas comuns, ou seja, não cientistas, determinou que a empresa agiu "com maldade" por não ter informado acerca dos perigos do herbicida RoundUp e ainda que o RangerPro, a versão profissional do produto, contribuiu para a doença do jardineiro.

Em resposta à deliberação, a Bayer, condenada a pagar uma multa de quase 280 milhões de euros, avisou que vai recorrer da sentença, socorrendo-se da existência de mais de 800 estudos que mostram não haver relação entre o glifosato e o cancro. Por outro lado, os mais de quatro mil queixosos, em processos semelhantes, animaram-se com a possibilidade de também serem recompensados.

A decisão do tribunal americano reacendeu a polémica em torno do herbicida, que é o mais utilizado a nível mundial, graças à sua alta eficácia e preço baixo - a patente expirou no ano 2000, pelo que há vários produtos no mercado à base de glifosato.

Poucas substâncias terão sido tão escrutinadas como esta, aplicada no extermínio de ervas daninhas há mais de 40 anos. Mas a base de todas as críticas é sempre a mesma: o parecer da Agência Internacional para a Investigação sobre Cancro (IARC), um organismo assimilado pela Organização Mundial de Saúde, que classificou o produto como "provavelmente carcinogénico para humanos."

Em Portugal, e também no Canadá, e em Itália, está proibida a sua utilização em parques e jardins públicos.

Outras agências, como a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) tiveram entendimento oposto: "é pouco provável que o glifosato represente um perigo de cancro para humanos e as observações não suportam a classificação de potencial carcinogénico." A IARC não terá considerado todos os estudos tidos em conta pela EFSA, explicou a EFSA. Tal como o comité composto por membros da Organização Mundial de Saúde e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação, FAO, que defendeu num relatório ser pouco provável que a ingestão de glifosato nos alimentos tenha um efeito tóxico sobre o material genético, em mamíferos.

Da mesma forma, a Agência para a Proteção Ambiental americana (EPA) também não encontrou ligação de causa e efeito entre a utilização de glifosato e o aparecimento de problemas de saúde em pessoas.

Num trabalho publicado pela agência noticiosa Reuters, em que se comparou o rascunho do documento da IARC com o texto final, mostra-se que foram eliminadas referências que excluíam a ligação entre o produto e problemas de saúde. A IARC nunca explicou aos jornalistas da agência noticiosa por que razão tinha havido esta 'limpeza' no texto final.

No blog dedicado a promover a medicina baseada na evidência, SciMed, da responsabilidade do médico João Júlio Cerqueira, o seu autor escreve: "Depois de 40 anos de investigação, a ciência está relativamente bem estabelecida. O glifosato, nas doses a que estamos expostos, é um herbicida seguro. Para isto não ser verdade, a Monsanto teria que corromper os investigadores de mais de 800 estudos científicos e comprar todos os investigadores que fizeram os relatórios de avaliação de risco. Algo que não é possível ser realizado por nenhuma indústria no mundo inteiro, muito menos durante 40 anos."