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Os homens também podem ter depressão após o nascimento dos filhos?

Sociedade

D.R.

Embora não seja um tema consensual, há estudos com resultados a indicar que sim e não se limita à questão hormonal. As emoções e as variáveis sociais pesam, e muito, no desencadear de sintomas depressivos, que merecem ser melhor estudados no masculino

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

O tão aguardado momento da chegada do bebé compensa tudo. Os desconfortos da gravidez, as dores do parto, as mudanças do corpo e as outras que hão-de vir. Para cerca de 10% das mulheres, as alegrias da maternidade tendem a ficar ensombradas, em boa parte, pelas alterações hormonais e o seu impacto no humor: a chamada depressão pós-parto. Já os homens, que têm vindo a dedicar mais atenção à parentalidade e preparação para serem pais presentes, desde a concepção até ao nascimento e mais além, esta questão ganha novos contornos. Terão eles questões parecidas, capazes de traduzir-se em estados depressivos? Esta era uma pergunta sem resposta até ao dia em que, também eles, começaram a submeter-se ao rastreio da sua saúde mental e que era necessário aperfeiçoar as formas de avaliar esta dimensão no caso masculino.

Numa linha idêntica, vários profissionais de saúde começam encarar a questão num novo ângulo. Por exemplo, numa convenção recente da American Psychological Association, houve ‘psis’ a avançar a possibilidade de tanto pais como mães serem alvo de exames para despiste de perturbações mentais. Por trás desta ideia, a meta de intervir em tempo útil, prevenindo implicações nefastas na relação do casal e, tão ou mais importante, nas etapas do desenvolvimento infantil. Isto tanto se aplica aos pais adotivos como aos que se vêem a braços, por exemplo, com alterações de humor da parceira ou, em situações mais complexas, como sucede no caso dos homens que recebem a notícia de uma interrupção involuntária da gravidez.

Um novo olhar sobre o homem-pai

Promover o bem-estar psicológico dos pais, após o serem, é o tema na ordem do dia em matéria de investigação, como atesta um artigo publicado em novembro do ano passado no American Journal of Men's Health. No abstracts do estudo, refere-se que “a transição para a paternidade representa um teste à saúde mental dos pais e, se o forem pela primeira vez, a depressão pós-parto pode afetá-los”. As consequências não se evidenciam apenas no plano individual. Elas podem impactar igualmente a relação conjugal e a quantidade e qualidade das interações estabelecidas com o bebé.

Há dois anos, num estudo publicado no Scandinavian Journal of Public Health e que teve por meta avaliar a prevalência dos sintomas depressivos numa amostra de 885 pais suecos, três meses depois do nascimento dos filhos, eles e as companheiras responderam a um questionário que incluiu a Edinburgh Postnatal Depression Scale. Os resultados mostraram que 6,3% dos pais e 12% das mães apresentavam sintomas depressivos. Além disso, no caso deles, foi encontrada uma prevalência de depressão major de 1,3%. Foram ainda encontradas correlações entre estes sintomas e as seguintes variáveis: problemas na relação conjugal, baixo nível de escolaridade, depressão prévia, acontecimentos de vida stressantes e baixo apoio da companheira. Em síntese: eles podem ter valores mais baixos que elas na escala de sintomas depressivos mas o facto de estarem envolvidos e sentirem dificuldades nesta fase de transição justificará, nestes casos, uma intervenção de apoio.

Nem só de hormonas…

No Reino Unido, um casal atento a este problema, por ter passado por ele, decidiu lançar uma campanha em final do ano passado. O grupo "Father's Reaching Out", fundado por Mark Williams e a mulher, chegou à Câmara dos Comuns, conforme noticiou recentemente o jornal britânico The Guardian. Segundo a mesma fonte, o psicólogo especializado em saúde mental perinatal, Andrew Mayers, foi um dos apoiantes, admitindo que os estudos mais recentes apontam para a existência destes sintomas mas não existe, ainda, um diagnóstico similar ao das mulheres para eles. Similares porquê? Porque nem tudo se resume a hormonas, “elas são apenas uma pequena parte do problema”, vulgarmente designado por “baby blues”.

Maria do Céu Santo, ginecologista e obstetra, coordenadora do núcleo de medicina sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia e com uma vasta experiência clínica neste campo e esclarece: “Os níveis de testosterona no homem tendem a aumentar nesta fase e, no curto e médio prazo, se a sua namorada ou mulher passa a ser só a mãe e a isto acrescentar noites mal dormidas e falta de apoio de familiares, estão criadas as condições para, também ele, se ir abaixo”. Caso se trate de um segundo filho e a manterem-se as dificuldades quotidianas (falta de apoios familiares, comunitários e sociais, stresse profissional, relacionamento íntimo escasso ou ausente e falta de sono), isso traz implicações negativas acrescidas ao casal, segundo a médica. O medo do estigma e a tendência a esconder ou dissimular o problema e ir suportando a situação até pode funcionar, mas apenas no começo. Com o passar do tempo e o acumular das dificuldades, “é frequente aumentar o grau de conflito e os comportamentos agressivos (que não deixam de ser sintomas depressivos), por exemplo, e isso ter impacto na relação em casa e com o bebé”.