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O "mau gosto" virou moda

Sociedade

Sandálias ortopédicas, vestidos da avó ou sacos de plástico são algumas das peças que estão a chegar aos guarda-roupas – o mau gosto nunca fez tanto sentido

Quando, em outubro passado, a Balenciaga apresentou, na Semana da Moda de Paris, uns Crocs em amarelo e rosa-pastilha elástica, com plataformas e pins sui generis (incluindo minibandeiras de Portugal), as sobrancelhas das primeiras filas levantaram-se – e algumas em desaprovação, outras antecipando o que aconteceria a seguir. Na fase de encomendas, os novos modelos já tinham esgotado. Estratégia de marketing ou nem por isso, os sapatos com menos estilo do planeta tornaram-se tão apetecíveis quanto uns stilettos Christian Louboutin. Quatro anos antes desta manobra do diretor criativo da Balenciaga, Demna Gvasalia (o designer georgiano perito em lançar tendências e peças-relâmpago a partir de objetos do dia a dia), Phoebe Philo fazia ainda melhor na passerelle da Céline: reinventava as Birkenstocks, antes práticas e confortáveis em materiais como a pele e o pelo. Perfeitas para combinar com as peças de linhas direitas da marca francesa, voltaram a fazer parte do vocabulário do estilo, duas décadas depois de Kate Moss as calçar numa das mais belas imagens da fotógrafa Corinne Day.

Se se ficar o tempo suficiente na montanha-russa que é a moda, há uma grande probabilidade de se voltar à casa de partida. Da mesma forma que os anos 80 brincaram com o exagero e os 90 com o grunge, as passerelles de hoje estão a dizer-nos para não ligarmos ao que os outros pensam. O problema, diz Paulo Macedo, ex-diretor criativo da Vogue Portugal, é quando a irreverência também cai no previsível. “Algumas destas peças são golpes de génio, mas à velocidade a que as coisas andam nada é memorável.” Para o stylist, há muito que a passadeira vermelha dos Oscars se tornou enfadonha: “A atriz lindíssima, o vestido ideal, as joias incríveis, tudo aquilo é ensaiado ao milímetro.” E nada melhor para desconstruir a perfeição do que uma boa dose de mau gosto.

Como um doce da casa

Umberto Eco já tinha avisado no essencial História da Beleza (2004) que o feio pode tornar-se bonito quando visto aos olhos da arte: “Até que ponto uma bela representação do feio (e do monstruoso) não se torna em certa medida fascinante?”, perguntava. “Aquilo que consideramos bonito ou feio depende de vários fatores, como o que aprendemos a gostar ao longo dos anos, os valores que temos, a socialização, a época e o facto de gostarmos ou não de trabalhar a nossa imagem”, avança Cristina L. Duarte, socióloga e investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, autora do livro Moda e Femininos em Portugal (2017). “Também sabemos que o feio é muitas vezes exagerado na passerelle, como um megafone para criar impacto”, acrescenta. Da mesma forma, o que não é imediatamente bonito pode contribuir para desfazer ideias feitas sobre o género e para a diversidade. “A moda pode assentar num fenómeno social de imitação, mas depois é preciso ser-se diferente dentro dessa imitação.”

O ser diferente sempre foi natural para a designer Alexandra Moura, habituada a desenhar fora das linhas, sobretudo em relação ao género, e para quem discutir o feio e o bonito é um exercício quase esquizofrénico. O que só torna as coisas ainda mais interessantes, claro. “A moda de hoje está à procura de extremos, há uma espécie de grito de libertação que vem das ruas e da necessidade de busca de uma identidade própria”, diz. Passámos anos e anos a combinar cores e a não misturar padrões, e de repente o azul e o preto, as riscas e os quadrados, nunca fizeram tanto sentido juntos. 
Da mesma forma que se começam a desatar os espartilhos de género, como as silhuetas definidas para as mulheres e os cortes direitos para os homens. Tal como, no início do séc. XX, Marcel Duchamp provocava nas galerias de arte, vemos agora t-shirts da DHL, sacos da lavandaria e almofadas de avião, tudo repensado na passerelle. Paulo Macedo acrescenta que existem alguns casos, como o universo da Gucci, criado por Alessandro Michele, que resultam muito, e bem, da combinação das peças. 
“É como chegar a um restaurante e pedir o doce da casa, com a bolacha e as natas. É previsível, mas às vezes é disso que precisamos.”