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Drones já são muitos e são para todo o serviço

Sociedade

Anadolu Agency

São tantos que foram precisas novas medidas para regular o espaço aéreo. Em Portugal, já patrulham a costa, ajudam na agricultura e vão transportar medicamentos

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

8 imagens possíveis graças a drones

O vulcão da Ilha do Fogo cuspia ferozmente há duas semanas. A lava já havia engolido três localidades e começava a secar à superfície, escondendo as correntes que avançavam por baixo. Era imperioso retirar mais pessoas num raio de muitos quilómetros, perante a impossibilidade de prever a atividade 
e a trajetória dos “rios de lava”.

Quando um amigo geólogo lhe descreveu o cenário de emergência, ao telefone da ilha cabo-verdiana, Ricardo Mendes disponibilizou-se para ajudar. Uma chamada da ministra responsável pela operação de socorro pôs o engenheiro informático a caminho, naqueles primeiros dias de dezembro de 2014. Em duas horas, ele e uma pequena equipa de apoio colocaram no ar um drone com câmaras térmicas e fizeram-no sobrevoar a área do vulcão. As autoridades, ao tomarem conhecimento das zonas que tinham lava ativa, deram ordens de evacuação dos locais de risco efetivo.

“Foi tão simples que, dado o contexto, cobrámos zero”, conta o cofundador da Tekever, a multinacional portuguesa especializada na prestação de serviços não militares a forças de segurança, com recurso a drones – uma das quatro grandes áreas do mercado, a par da militar, da lúdica e da profissional, a qual já abrange atividades tão distintas como a agricultura, a cartografia, as transmissões televisivas, o transporte de bens, a fotografia e a construção de grandes obras de engenharia. Todo um novo mundo em expansão.

A juntar aos contratos com o Ministério da Defesa britânico, a Agência Espacial Europeia, as Forças Armadas colombianas e a Marinha brasileira – além de Exército, Marinha, PSP e GNR portuguesas –, a Tekever ganhou, em 2017, dois concursos públicos lançados pela Agência Europeia de Segurança Marítima, no valor recorde de 77 milhões de euros, para vigiar a costa da União Europeia (UE). Do contrabando de droga à pesca ilegal, passando pelo fluxo de migrantes no Mediterrâneo, os drones da empresa criada por três alunos do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, estão a monitorizar as águas com tecnologia de ponta – que tanto deteta embarcações a quase 100 quilómetros de distância como mostra as movimentações noturnas no interior das mesmas.

A Tekever é uma espécie de ponta-de-lança em Portugal, mas há outros exemplos inovadores que mostram como a era dos drones deixou de ser um cenário futurista. No ano passado, segundo a revista Time, venderam-se cerca de três milhões de exemplares no mundo. A arma que ganhou fama por atos de guerra cirúrgicos popularizou-se, nos últimos tempos, em versões bem menos bélicas, vendida como brinquedo ou utilizada como ferramenta de trabalho. A UE estima que, na próxima década, os drones atinjam 10% do volume de negócios no setor da aviação civil.

A democratização do acesso a estes veículos aéreos não tripulados obrigou a uniformizar a legislação europeia para salvaguardar a segurança do espaço aéreo. Em 2017, registaram-se 
37 reclamações de pilotos de aviões em Portugal, forçados a desviar a rota ou a protelar aterragens devido à presença de drones. Foi neste quadro que o Governo português anunciou na quinta-feira, 5, algumas das novas medidas a aplicar: a lei vai passar a impor o registo de todos os drones com peso superior a 250 gramas, de forma a poder identificar-se o proprietário (os aparelhos terão uma matrícula); e acima de 
900 gramas será obrigatório contratar um seguro de responsabilidade civil, para prevenir eventuais danos causados a terceiros. Desde janeiro do ano passado que já vigoram outras restrições, como a proibição de voar acima dos 120 metros de altitude ou em zonas de aglomeração de pessoas, sem a autorização da Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC). Junto aos aeroportos, os limites de altitude são ainda mais apertados e foram agora definidas multas de €300 a €7 500 para quem os desrespeitar, além de uma sanção adicional de dois anos sem poder pilotar drones.

Ao serviço dos doentes com cancro

Ao sinal verde da ANAC para avançar, a Connect Robotics vai fornecer à Fundação Champalimaud um serviço de transporte de amostras biológicas, entre as instalações da fundação e um laboratório. O acordo visa substituir as entregas por estafeta, de modo a diminuir o tempo de espera dos doentes pelos resultados dos exames. “O drone vai demorar cinco minutos por viagem. Será mais rápido e tem um custo mais reduzido”, avança Eduardo Mendes, 
34 anos, cofundador da Connect Robotics, que já fez demonstrações bem-sucedidas para a Santa Casa da Misericórdia e para os CTT.

Após vários anos a desenvolver a tecnologia, a empresa está no arranque da atividade operacional, e o primeiro cliente a beneficiar do transporte aéreo será uma farmácia no Interior do País. Neste caso, a ANAC já deu o aval para o trajeto até a um lar de idosos, que vai receber medicamentos armazenados num recipiente especial, capaz de preservar a temperatura e a humidade, e já aprovado pelo Infarmed. “Sem os termos procurado, estamos a receber muitos contactos de hospitais e outras instituições de saúde”, adianta Eduardo, cuja ideia de negócio passa por transportar todo o tipo de encomendas.

O horizonte abre-se para os drones. A Eye2Map, uma startup criada por alunos da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, começou por se dedicar a serviços agrícolas, como deteção de pragas e doenças ou estimativas de produção para culturas, sobretudo vinhas e olivais de grandes produtores. As imagens aéreas proporcionam inúmeras possibilidades. Hoje, a empresa estende a atividade à topografia e à cartografia, requisitadas por engenheiros civis, ateliers de arquitetura e câmaras municipais, e à monitorização de zonas costeiras, avaliando o volume dos areais, o estado dos pontões e até a biodiversidade de algas e bivalves, para entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente ou o Centro de Investigação Marinha e Ambiental. “Abrimos atividade em 1 de janeiro de 2016 e cada vez nos pedem mais trabalhos”, admite o cofundador, Óscar Moutinho, engenheiro geógrafo de 29 anos, de olhos postos num futuro que já é presente.