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Afinal, sonhamos para quê?

Sociedade

D.R.

Quanto mais se investiga a atividade onírica, melhor se percebe a sua função reguladora e vital. A polémica está na interpretação do seu conteúdo, sem valor científico

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

7 Significados que damos aos temas dos sonhos

Encontrar um amigo e, à medida que conversam, dar-se conta de que estão no deserto. Deslizar sobre a água e levantar voo. Ou fazer malabarismos vários para não embater no carro da frente por ter ficado sem travões. Cenas da vida durante os sonhos, ficções curtas e longas onde somos protagonistas após fecharmos os olhos. Tão fascinantes como aterradores, estes estados alterados de consciência, com registos de tempo e espaço tão diferentes dos da vigília, são essenciais ao nosso equilíbrio interno e, revelam as últimas investigações, parecem ter um grande valor adaptativo enquanto simuladores de situações perigosas.

O psiquiatra e investigador norte-americano Allan Hobson, da Universidade Médica de Harvard, é a referência mundial neste campo e confirmou à VISÃO que a atividade onírica se resume a “impulsos elétricos que geram pensamentos e imagens aleatórias a partir da memória, mas sem qualquer significado”. Num dos livros do autor, From Angels to Neurons (2005), o pai da psicanálise, Sigmund Freud, regressa do mundo dos mortos e admira-se com o que vê: uma realidade em que sonhar, acordado ou a dormir, não traduz, afinal, desejos inconscientes reprimidos pela parte censora da mente.

As novas teorias dos sonhos estão ancoradas nos circuitos neuroquímicos, monitorizados e estudados com técnicas de imagiologia e processamento de dados. Nos últimos anos, estas tecnologias evidenciaram o efeito regenerador de certas fases do sono, quer pela eliminação de material acumulado durante a vigília quer pela consolidação de memórias e informações novas. Na ausência desses estados, fica-se propenso a quebras de memória, falta de concentração e sensibilidade excessiva. Estamos já longe do tempo em que a mente era um continente inexplorado e as “visões” noturnas eram encaradas como revelações – no Antigo Testamento, o sonho de Jacob contemplava uma escada rumo ao Céu. Hipócrates via nos sonhos auxiliares de diagnóstico e Freud encarava-os como uma ponte para a cura de neuroses.

O fim da teoria dos sonhos

A fase de movimentos oculares rápidos (R.E.M.) que ocorre ciclicamente durante o sono foi descoberta pelo fisiologista norte-americano Nathaniel Kleitman e pelo seu aluno Eugene Aserinsly, em meados do século XX, e abriu uma nova era: a ciência dos sonhos. Uma década depois, o investigador Michel Jouvet demonstrou que durante esta fase, também chamada sono paradoxal, as ondas cerebrais rápidas e irregulares eram semelhantes às da vigília e comuns a humanos e outros animais. Nos anos 1980, foi a vez de ficar provado que os movimentos oculares rápidos correspondiam à descrição de sonhos dos participantes, sendo mais facilmente lembrados quando ocorriam na última parte do sono.

A teoria da ativação-síntese, desenvolvida por Allan Hobson e Robert McCarley, explica o que acontece enquanto dormimos e sonhamos. 
O tronco cerebral e o sistema límbico – centro do medo, da fome e da ativação sexual – estão ligados, mas o córtex visual estriado e o córtex pré-frontal, responsável pela atenção e pelo pensamento racional, estão em modo off. Na fase R.E.M., que surge na última etapa de um ciclo de sono, o tónus muscular fica inibido e a estimulação sensorial suprimida: formam-se então imagens e fragmentos de ideias que culminam numa narrativa ficcional, tal como a lembramos ao acordar.
No início do século XX não se sabia disto. Enquanto Freud andava entusiasmado com a sua Interpretação dos Sonhos (1905), o poeta dos heterónimos, Fernando Pessoa, ocupava-se a descrever o efeito perturbador deste registo caleidoscópico: “O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas (...) Não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.”

AutoRregulação e simulação

À luz da neurobiologia, há boas razões para passarmos por um estado alterado de consciência caótico, distorcido e, com frequência, vívido e intenso. Basta pensar nas pinturas de Dalí e nas construções impossíveis de M.C. Escher. Uma vez feito o check-in na dimensão onírica, é difícil saber qual a natureza da realidade.

Numa entrevista recente ao Huffington Post, o psicólogo norte-americano especializado em medicina do sono Rubin Naiman comparou o cérebro a “um segundo intestino, capaz de receber, digerir, filtrar e eliminar informação”. A poda de sinapses que acontece ao longo deste processo tem um papel regulador no funcionamento do cérebro. Em certo sentido, sonhamos para esquecer, já que libertamos desse modo carga emocional acumulada no sistema, depois de filtrar, sem que seja um processo consciente, a informação a reter e a consolidar.

Num artigo científico de Allan Hobson e Karl Friston, publicado há seis anos, o cérebro sonhador é visto como um gerador de realidade virtual para simular mecanismos de defesa básicos em situações potencialmente ameaçadoras no mundo real.

Este sistema parece desenvolver-se bastante cedo. “Ao sonhar, as crianças acedem à realidade virtual e à experiência da parcialidade do real sob a forma de consciência onírica primária”, afirma António Mendes Pedro, psicanalista, especialista em medicina psicossomática e autor de um estudo sobre a construção da plasticidade da consciência numa amostra de 12 crianças de três grupos etários. “Aos sete anos, os sonhos são semelhantes aos dos adultos”, afirma o docente, acrescentando que a partir dos cinco “a produção de emoções permite atribuir intencionalidade aos sonhos”. Porém, sem lugar a significados ocultos: “Nos sonhos está tudo à mostra.” Dos oito anos em diante, as crianças já conseguem ter consciência de que estão a sonhar – o chamado sonho lúcido ou consciente – e intervir nele. Como nos videojogos.

Indigestões emocionais

Ficar imerso num loop de emoções e de eventos recorrentes é bastante comum na véspera de avaliações e tomadas de decisão importantes e, contrariamente ao que se pensava, não reflete apenas emoções de medo. Uma pesquisa canadiana realizada há quatro anos pelos psicólogos Geneviève Robert e Antonio Zadra, permitiu concluir que o medo estava praticamente ausente dos sonhos maus (sobre conflitos relacionais) e só aparecia num terço dos pesadelos. Nestes, eram comuns os temas da morte, preocupações de saúde e ameaças, que levavam os sonhadores a acordar sobressaltados. Em ambos os casos, os participantes declararam ter sentimentos de fracasso, preocupação, tristeza e culpa.

Joaquim Moita, coordenador do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, explica porquê: “A tendência para sonhar mais – e lembrar-se mais – é frequente quando se está ansioso, muito focado numa questão que nos preocupa e em perturbações do sono, como a insónia e a apneia.” Em qualquer dos casos, o sono apresenta-se fragmentado e não é reparador. Segundo o especialista, que preside a Associação Portuguesa do Sono, a fase R.E.M., responsável por 80% da produção onírica, consolida aprendizagens, sobretudo na infância, mas também garante estabilidade emocional. Se existirem transtornos, devido à toma de certos fármacos e a doenças, “o movimento toma o lugar do sonho e é frequente existirem quadros de agitação e até de agressão a quem está a dormir ao lado”.


O nosso cérebro pode influenciar a realidade mesmo estando adormecido. Nas primeiras décadas do século XX, a emergência da psicanálise e dos movimentos surrealistas na arte trouxe consigo o culto da programação de sonhos. Por essa altura, o cartoonista belga Hergé era perseguido em pesadelos por um esqueleto branco: em vez de fazer uma pausa da banda desenhada, como aconselhava o psiquiatra, usou o material recorrente para criar Tintin no Tibete, e logo deixou de sonhar.

Algumas invenções parecem ter sido fruto de sonhos e do treino para entrar neles e simular a resolução de problemas. Bem antes de ter comprovação científica, a prática do sonho lúcido ou consciente foi amplamente usada por mentes criativas. Antes de inventar a máquina de costura, Elias Howe sonhou estar prestes a ser cozinhado por canibais e, ao olhar para as suas lanças, viu nelas orifícios em movimentos ascendente e descendente. Já a mente do inventor Nikola Tesla funcionava melhor na fronteira entre vigília e sono (estado hipnagógico, caracterizado por sonolência e imagens mentais erráticas). O sonho lúcido terá igualmente contribuído para a criação do modelo de dupla hélice do ADN, nos anos 1950, que valeu um Nobel ao biólogo norte-americano James Wat-
son e ao físico inglês Francis Crick.

O sonho lúcido envolve o treino da mente e, tal como a respiração, o relaxamento e a atenção plena, é uma forma natural de ampliar estados de consciência e de os colocar ao serviço da criatividade. Se Pessoa o fazia, não sabemos, mas era ele que dizia: “O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.”