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Vida de cão na China? Para este border collie, que fez o dono rico, passa por viver na sua própria mansão

Sociedade

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D.R.

A loucura pelos cães neste país é um fenómeno que tem aumentado, principalmente na geração dos filhos únicos, e que faz com que os donos ganhem muito dinheiro...e fama

Os chineses gastam cada vez mais dinheiro em animais de estimação, uma tendência que aumenta todos os anos. Segundo uma pesquisa de mercado da empresa alemã Euromonitor, espera-se que, na China, o valor gasto em animais ronde os 6 mil milhões de euros em 2022, um aumento de 2,2 mil milhões relativamente ao ano passado.

Um exemplo disso é a história, contada pelo The Washington Post, de Zhou Tianxiao, de 31 anos, que construiu uma casa de meio milhão de dólares (cerca de 400 mil euros) para o seu melhor amigo, um cão da raça Border collie chamado Sylar, - assim batizado por haver um personagem com o mesmo nome na série americana Heroes. O que antes era um antigo armazém abandonado nos subúrbios de Pequim é hoje um espaço muito especial: foi recuperado e, agora, além de piscina interior e spa, tem um trampolim, duas paredes com o focinho de Sylar desenhado e uma sala de festas.

Há várias teorias que tentam explicar esta afeição crescente dos chineses pelos animais, sendo que vários especialistas a associam à política do filho único, lançada pelo governo chinês no fim da década de 70 e que se manteve em vigor até ao início de 2016.

O licenciamento para se ter um cão na China pode custar até centenas de dólares e, por isso, as pessoas com menos posses acabam por não investir tanto no cuidado dos animais. Mas os chineses mais abonados não poupam no que diz respeito ao dinheiro investido nos seus melhores amigos. E, apesar de quererem ser cada vez mais independentes, continuam a procurar um companheiro para a vida.

Ao The Washington Post, o dono de Sylar, Zhou Tianxiao, diz mesmo que foi o cão que lhe deu "um propósito para a vida". Há quatro anos, estava desempregado e ainda vivia com a avó no centro de Pequim. Aos 15 anos, tinha abandonado a escola e o seu dia-a-dia era passado em cafés, maioritariamente a jogar videojogos. Foi quando se sentia mais farto da vida que levava que um amigo lhe propôs que fossem ver alguns cachorros que estavam à venda. "Foi amor à primeira vista", lembra Zhou.

Inspirado pela personagem de Heroes que lhe deu o nome, o dono de Sylar decidiu que o seu cão, ao contrário do Sylar da série - um serial killer superpoderoso que rouba os poderes de outros super-humanos - iria utilizar tudo o que aprendesse para fazer o bem. Assistiu a tutoriais no Youtube de treinadores a fazer truques com cães e ensinou-os a Sylar que, passado uns tempos, já conseguia andar como um humano e fingir-se de morto.

A revolução aconteceu quando Zhou decidiu publicar um vídeo das proezas do cão num site chinês de partilha de vídeos e obteve milhões de visualizações. Sylar rapidamente ficou conhecido, os seus fãs no Instagram cresceram até aos 800 mil e de toda a China chegaram cartas para o animal.

A partir do sucesso de Sylar, o dono conseguiu abrir uma loja de comida e brinquedos para cães num dos maiores sites de compras online do país. E, em forma de agradecimento, não só tatuou o seu nome no braço, como quis oferecer-lhe uma casa maior, com imenso espaço, onde Sylar pudesse realmente ser feliz. Com a ajuda da namorada, conseguiu recuperar o armazém que, agora, é um casarão de meio milhão de dólares.

A casa foi aberta ao público em maio, onde os donos dos animais podem levar os seus amigos de quatro patas para um banho medicinal no spa ou uma massagem relaxante. Além disso, podem dormir na casa, em quartos onde não falta ar condicionado e almofadas confortáveis para todos.

Mas este fenómeno de sucesso de Sylar não é único na China: há animais que têm mais seguidores nas redes sociais do que celebridades internacionais e que fazem com que os donos obtenham lucros altos.

Esta tendência faz com que o casamento seja adiado, principalmente para os membros da geração de filho único. Andrew Atkinson, analista do mercado de cães e gatos em Xangai, diz que os filhos únicos foram “incrivelmente mimados durante toda a vida” e que, agora, estão a “transferir esse sentimento para os animais de estimação”. Na opinião da socióloga Amy Huilin Tsang, esta fixação por eles pode ser, também, associada a um símbolo de estatuto social.