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Por dentro da quinta no Alentejo que trata adolescentes dependentes

Sociedade

Marcos Borga

No Alentejo profundo, existe uma comunidade terapêutica que trata adolescentes dependentes de drogas e de álcool. Para muitos destes miúdos entre os 15 e os 18 anos, sobretudo para os que foram enviados pelo Tribunal de Família e Menores, esta pode ser a sua última oportunidade

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

A primeira coisa que pensamos ao ver Rita é que deviam ter-nos avisado. Deviam ter-nos falado da sua beleza seráfica, porque quando nos cruzamos com ela rebobinamos em segundos as razões que a levaram à Quinta Horta da Nora e não acreditamos que possa ser a mesma miúda.

“Gostas de estar aqui?” A pergunta é da diretora desta comunidade terapêutica da ART (Associação de Respostas Terapêuticas) em Castro Verde. A adolescente encolhe os ombros e sai-se com um “É evidente que não” murmurado. Susana Monteiro sorri, insiste “... dentro do possível...?”, mas ela não desarma. “Queria estar em casa e ir à escola”, diz, antes de seguir abraçada ao namorado.

Rita não percebe por que razão está internada. E, no entanto, foram vários os motivos que levaram o Tribunal de Família e Menores a enviá-la para tratamento. Comportamentos desregrados, fugas de casa constantes, consumo de estupefacientes, faltas às aulas e às consultas de psicologia... A lista de malfeitorias é longa e culminou numa urgência de psiquiatria, por causa de mais um surto psicótico desencadeado por drogas. Não pode ser a mesma miúda de ar inocente e desarmante, pode?

Pode, claro, sabe-se de cor na equipa técnica, mas nós só percebemos que nada do que escrevemos atrás fica estampado na cara quando Rita e os outros adolescentes que não frequentam a escola da vila se juntarem na “choupana” para a distribuição das atividades. Nesta manhã há capoeira, vólei, fotografia e dinâmicas educativas (para aqueles que não têm aulas há muito tempo), anuncia Nuno Crespo, o coordenador dos monitores que vários miúdos tratam por “pai”.

Dos 52 adolescentes, ficam em casa 27 (meia dúzia de raparigas, porque são apenas 14 no total), contamos à sombra do telheiro de alvenaria, branco e debruado a azul como todas as outras construções da quinta. São onze horas e o sol rompeu as nuvens. Já tínhamos conhecido algumas meninas de olhos claros e límpidos como os de Rita; agora reparamos nos rapazinhos imberbes, a falta de barba disfarçada com piercings e uma pose desafiadora. Têm todos entre 15 e 18 anos, mas a maioria parece ter bastante menos.

O monitor Miguel lê os nomes de quem irá jogar vólei, e meia dúzia levanta-se sem tugir nem mugir, mas a colega Maria João ainda está no início da lista das dinâmicas e ouve-se a boca “Sempre os mesmos!” Estamos no fundo da dita choupana, sentados ao lado da psicóloga clínica que dirige a comunidade. Susana Monteiro sorri abertamente e sussurra, numa óbvia defesa dos seus meninos: “Às vezes, o principal problema é tudo o que está por detrás, as vivências e experiências que foram tendo. São jovens que enfrentaram grandes dificuldades, as dependências são uma consequência.”

Talvez por isso as fricções entre eles sejam constantes. O brasileiro Elson treina apenas quatro rapazes e uma rapariga, mas logo estala a confusão por causa dos lugares, e o monitor usa essa ninharia para lhes fazer uma curta preleção. “Disciplina e educação não é só na capoeira, é na vida”, diz, já gingando. “Capoeira é companheirismo, por isso não se ponham a discutir, está bem? Salvé!”

Uma “mochila” bem pesada

Aproveitamos o cumprimento para fugir de mansinho e ouvir a diretora explicar que há duas raparigas a completarem o 10º e o 11º anos no Ensino à Distância (através de uma plataforma digital) e que Rita tem agora a sua primeira consulta com o pedopsiquiatra da ART, Pedro Strecht. Fizéramos pontaria para estar às 9 e meia na Quinta Horta da Nora, a apenas sete minutos de carro do centro de Castro Verde, pequena vila do distrito de Beja com pouco mais de cinco mil habitantes. É a essa hora que o médico chega todas as terças-feiras, começando invariavelmente por uma reunião para se inteirar das novidades.

Hoje o tema de abertura tinha de ser Rita, internada desde a quinta-feira anterior. 
A adolescente, com 17 anos, filha de pais separados, acabou sinalizada por abandono escolar e visitada por técnicos de uma EMAT (Equipa Multidisciplinar de Apoio Técnico aos Tribunais) que sugeriram o seu internamento na ART como medida de promoção e de proteção. “A miúda trazia a mãe muito preocupada, uma mulher com estudos superiores”, conta a psicóloga clínica Rute Marques.

Embora a esmagadora maioria dos adolescentes venha das zonas mais complicadas do País, também há casos de famílias diferenciadas. Rita estava numa escola privada a frequentar um curso profissional na área das Artes, que ficará suspenso pelo menos até dezembro. Ao fazer 18 anos, é livre de sair da comunidade ou optar por ficar até completar os 12 meses do programa – opção que muitos tomam sobretudo para poderem terminar o ano letivo. Quanto ao consumo de drogas, ele é transversal nestas idades e, em termos de padrão, voltou o MD (Methedrine, uma substância que transmite euforia e dá muita energia) e o LSD (um psicotrópico que muda a perceção, o humor e a consciência). “Já a cocaína e a heroína são raras”, sabe Pedro Strecht.

“O consumo na adolescência não é a causa, mas a consequência”, repetirá ao almoço Carla Silva, diretora-geral da ART. “Os jovens não vêm para aqui por terem uma dependência, mas a história de vida deles acabou assim.” Ao contrário do que dizem as estatísticas, os técnicos da associação deparam-se com mais consumos nos jovens e estes são cada vez mais novos. “E os consumos são também cada vez mais aceites socialmente, até pelos pais”, nota. “Já aconteceu levarem o filho a passar o dia fora da quinta [as visitas acontecem de dois em dois meses e é possível sair a partir da segunda visita], deixarem-no beber álcool e ainda perguntarem: 'Qual é o mal?'.”

Na Horta da Nora são raros os miúdos que nunca consumiram algum tipo de droga (no atual grupo de 52, um único rapaz entrou com a indicação de ter outro vício: videojogos), mas nada que se compare com a população anterior da quinta. Há 20 anos, quando a ART abriu portas, a sigla era a abreviatura de Associação de Recuperação de Toxicodependentes. Em 2007, dois miúdos de 16 anos vieram revolucionar a Quinta Horta da Nora e, por “contágio”, as outras duas casas (em Marco de Canavezes). “Criámos um grupo em cada uma delas, mas, com o decorrer do tempo, verificámos que estávamos a deixar os adultos para segundo plano”, lembra Carla Silva. Pouco depois, a instituição decidia que apenas trabalharia com menores e hoje é a única que tem as camas convencionadas a cem por cento.

Claro que nessa altura foi preciso reestruturar o plano terapêutico, e as casas que, até então, eram quase geridas pelos próprios “utentes” – eles faziam de tudo um pouco, como é habitual neste tipo de comunidades. Agora, a ART emprega 39 pessoas, que trabalham por turnos, e não é preciso ler os estatutos da associação para perceber que elas têm de estar todas muito motivadas para fazerem parte da oportunidade de estes jovens mudarem o seu rumo de vida. O desgaste emocional é enorme. “Os jovens chegam cada vez com mais mochila, ou seja com mais vivências e muitas vezes com diversas institucionalizações”, lembra Carla Silva.

Como se tratam os jovens

Quando se pergunta a Pedro Strecht como se tratam estes adolescentes, o pedopsiquiatra começa por fazer uma ressalva: “Frequentemente, não estão nas drogas ditas duras e, por isso, não precisam de programas de desintoxicação ou de metadona. Contudo, às vezes chegam aqui muito descompensados. Hoje, se vemos entrar numa urgência um miúdo a delirar, pensamos sempre que pode ser por causa de drogas ditas leves, e não devido a uma esquizofrenia”, lembra. “Sabemos que em personalidades frágeis estas drogas podem ter esse efeito.”

O primeiro passo-chave na Quinta Horta da Nora é naturalmente a abstinência – o jovem não pode consumir, e se for apanhado a fazê-lo cumpre com algumas penalizações. Depois, logo que possível, integra intervenções terapêuticas em grupo (há reuniões comunitárias diárias, que podem ou não ser temáticas) e recebe um suporte psicoterapêutico regular (todos têm o seu psicólogo). Existe igualmente avaliação e suporte pedopsiquiátrico para todos, incluindo muitas vezes, “sobretudo no início”, diz Strecht, apoio psicofarmacológico. “Eles não dormem e vêm com uma agitação muito grande”, justifica.

Segue-se aquilo que os técnicos chamam estruturação terapêutica do dia a dia na comunidade, por exemplo a presença de regras e de limites, de adultos de referência (“o Crespo”, respondem todos), de rotinas e do seu cumprimento, que inclui fazer a cama, cuidar da higiene ou servir à mesa. “Que também é terapêutico”, vai-se ouvir no próximo dia 8, na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto, durante o encontro promovido pela ART, para debater intervenção terapêutica destinada a adolescentes que apresentem comportamentos desviantes e aditivos.

No fim, consegue-se um suporte e uma retaguarda às famílias, direto ou em articulação com as EMAT, sempre com a preocupação da reintegração social no futuro. É esse o grande objetivo, mas nem sempre se sabe se foi concretizado, lamenta Carla Silva. “Temos de as contactar ao fim de um ano e passados três anos, mas basta mudarem os telefones para lhes perdermos o rasto.”

A equipa técnica já sabe que Rita quer trabalhar no meio audiovisual. Ana, 16 anos, hesita entre candidatar-se à Polícia Judiciária e ir para a tropa. “Gosto daquela emoção de andar atrás deles [ladrões] e gosto de armas. Quando faço capoeira sinto-me melhor, porque descarrego as raivas todas”, ri-se. 
É a primeira a querer mostrar as fotografias da sua família, que pregou num placard de cortiça, juntando 1+1: “Comecei a fumar [ganzas] muito cedo, aos 11, porque o meu pai trabalhava fora de Portugal; era a minha melhor relação... Quando vim para aqui, também bebia e estava sempre na pastilha e no MD.” Lá fora, Ana metia-se sempre em confusões, para horror da mãe que, analisa ela agora, lhe dava demasiada liberdade. Fugir da quinta foi coisa que de início lhe passou pela cabeça, mas... não. “Se fosse, ia para onde? E era logo apanhada. Temos piercings, somos os malandros.” Resumem as vidas em duas ou três frases, o que diz muito sobre a ideia que têm de si próprios.
“Cheguei com 40 quilos, nem ia à praia, não gostava do meu corpo”, diz Catarina, a uns dias de atingir a maioridade e de ir viver com a mãe, com quem não está há mais de um ano. “Ela fazia tudo para me agradar e eu revoltei-me quando um dia me disse 'Não'.”

Bárbara quer ir para procuradora do Ministério Público ou assistente social da EMAT. Aos 15 anos, não conhece muito mais profissões, e ser freira (passou vários anos interna num colégio de religiosas) não é opção. “Ia sozinha para a escola e todos os dias levava droga, garrafas, tudo, para o colégio.” Hoje, aquilo que mais gozo lhe dá é sair da quinta uma vez por mês para comprar “pê agás” – tem as prateleiras do quarto a abarrotar de produtos de higiene - como qualquer outra adolescente.

Os nomes dos menores foram alterados para proteger a sua identidade