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“A elevação de D. António Marto a cardeal é uma reprimenda”

Sociedade

Papa Francisco com D. António Marto, na última visita a Fátima, em 13 de maio de 2017

Rui Duarte Silva

Para Paulo Mendes Pinto, professor de Ciências das Religiões na Universidade Lusófona, o Papa Francisco também quis chamar a atenção a um certo clero português que não o tem compreendido

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Falta pouco mais de um mês para o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, ser nomeado cardeal, aos 71 anos, juntando-se no Colégio Cardinalício aos portugueses D. José Saraiva Martins, D. Manuel Monteiro de Castro e D. Manuel Clemente. O anúncio foi feito pelo Papa Francisco, através da Sala de Imprensa da Santa Sé, no domingo, 20, dia quem que também foram avançados os nomes de mais 13 novos cardeais, a maioria de fora da Europa.

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

José Caria

Trata-se de uma nomeação “especial”, começa por dizer Paulo Mendes Pinto, professor de Ciências das Religiões na Universidade Lusófona, e membro da Bolsa de Especialistas da VISÃO. “Fazer um cardeal é uma escolha direta, pessoal, do Papa”, lembra. “Passar um bispo a cardeal é um direito do Papa, onde mais nenhum órgão interfere.”

O Papa molda o colégio dos cardeais, vai-lhe dando um certo cunho, e Francisco tem usado esse instrumento de uma forma mais recorrente do que os anteriores. Por exemplo, nomeou um cardeal que era bispo de Cabo Verde, o que não é usual, e agora anunciou fazer cardeais bispos do Iraque, do Paquistão, do Peru, de Madagáscar e do Japão. “Este instrumento pode ser uma forma de gerir o colégio dos cardeais. Se a maioria estiver em consonância com ele, naturalmente haverá continuidade.”

Por tradição, desde o século XVIII que o bispo de Lisboa é cardeal. Nada obriga a que o seja, mas tem sido essa a tradição. É natural, por isso, que se pergunte porquê a escolha do bispo de Leiria-Fátima.

Paulo Mendes Pinto encontra três leituras. A primeira, que tem visto na Internet e que considera “estapafúrdia”, é a de que se trata de um reconhecimento e agradecimento pelo bom acolhimento que D. António Marto lhe deu na visita a Fátima. “Não faz sentido.”

A segunda é que esta nomeação será um reconhecimento pelo peso, o lugar especial, deste santuário mariano no quadro nacional e a nível mundial. “De facto, e isso entra pelos olhos adentro, a vitalidade do Santuário de Fátima vai muito além do catolicismo português.”

Mas a leitura que este especialista em Ciência das Religiões faz é que o Papa Francisco está a usar o tal instrumento, a mostrar a vontade de ter no colégio dos cardeais alguém que tem dado corpo, de forma recorrente e visível, a uma posição mais próxima da sua. “Ainda recentemente isso aconteceu, acerca da possibilidade de os divorciados comungarem. Enquanto D. Manuel Clemente revelou ter uma posição muito afastada, D. António Marto tomou o partido do Papa.”

Lembre-se que, dos quatro cardeais portugueses, apenas dois são eleitores porque D. José Saraiva Martins e D. Manuel Monteiro de Castro já têm mais de 80 anos. Só D. Manuel Clemente e, a partir de 29 de junho, no próximo consistório, D. António Marto são membros de pleno direito, podendo ajudar a definir a linha eleitoral.

“O Papa ao elevar este bispo a cardeal está a tomar uma posição política muito clara. D. Manuel Clemente tem tido posições mais conservadoras e contrárias às do Papa. Esta nomeação é também um recado, uma reprimenda, a um certo clero português que não tem compreendido a sua linha.”