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Mudar (e salvar) o mundo a partir de Tomar

Sociedade

Marcos Borga

Leyla Acaroglu, uma das ambientalistas mais inovadoras do mundo, comprou uma quinta em Portugal para instalar um refúgio criativo para a mente. Fomos conhecê-lo

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

No ano passado, Leyla Acaroglu ressentiu-se da sua agenda permanentemente agitada. Facilmente visitava mais de meia dúzia de países num mês. Nascida na Austrália, mas estabelecida em Nova Iorque, nos EUA, “vivia sobretudo em aviões”, ilustra a designer de 35 anos. Quando recebeu o título de Champion of the Earth (Campeã da Terra), que lhe foi atribuído pelas Nações Unidas em 2016, começou por perguntar se teria direito a uma capa voadora igual às dos super-heróis. A brincadeira não era descabida. O prémio destacava-a como uma das ambientalistas mais inovadoras do mundo e as solicitações para dar palestras sobre design sustentável e alterações climáticas em todos os continentes não tardaram a multiplicar-se.

“Às tantas, não entendia por que razão não tinha energia nenhuma. Só percebemos que estamos em burnout quando já é tarde demais. É como se a nossa chama se extinguisse e não soubéssemos como voltar a acendê-la”, explica. Diziam-lhe, invariavelmente, que deveria ir recuperar energias para um spa, mas Leyla Acaroglu encontrou uma forma alternativa de reacender a sua chama: “Eu não precisava de um spa para o corpo, mas de um spa para o cérebro.” Não se pense que o seu “brain spa” é um espaço de descanso e introspeção. “Eu não quero pôr o meu cérebro em jejum”, enfatiza. Pelo contrário. “Preciso de saber que há outros seres humanos que se importam com os mesmos problemas do que eu e que vão ajudar-me a resolvê-los.” A designer concluiu que o local certo para este encontro de cérebros criativos seria Portugal, onde decidiu instalar o Creative Optimism Project (Projeto de Criatividade Otimista).

“Perguntam-me por que razão vim para Portugal, pelo menos, uma vez por dia”, admite, com o olhar perdido nas 150 árvores que compõem a paisagem da quinta que adquiriu no Ribatejo. “As pessoas ficam muito intrigadas por eu ter vindo para cá, mas tenho viajado por todo o mundo e é fácil ver que o que existe aqui não é comum.” A australiana visitou o País pela primeira vez há oito anos e ficou encantada. “Pensei que se algum dia vivesse na Europa, seria em Portugal.” A acessibilidade também foi um fator decisivo: “O vosso País recebe pessoas de todo o mundo e isso é fundamental para criar um projeto global.” Os portugueses, “genuínos e hospitaleiros”, também a seduziram. Além disso, encontrou, aqui, a melhor professora de design sustentável: a natureza.

O sonho português

Os arranhões nos braços e as mãos sujas revelam o empenho de Leyla Acaroglu na recuperação da quinta que comprou há menos de um ano em Tomar. A propriedade de um hectare está situada na localidade de Serra, a dez quilómetros do centro de Tomar, e a uma hora e meia de automóvel de Lisboa. No ano passado, foi recuperada a casa principal da quinta. Leyla também já conseguiu reabilitar uma pequena habitação da propriedade e um antigo armazém de cereais foi convertido em sala de aulas, onde artistas, designers, cientistas e todos aqueles que estejam interessados poderão reunir-se para procurar soluções sustentáveis para o planeta.

Mais do que criar um destino de viagem, a ideia é desenvolver uma experiência cultural. “O meu empreiteiro diz que sou o melhor destino turístico de Tomar porque sempre que cá vem há gente nova”, brinca. Os azulejos portugueses são uma das suas obsessões. Encontrou uma empresa portuguesa que os fabrica à mão, satisfazendo os seus desejos. “Quero criar uma quinta confortável e bonita, sem ser hippie, mas sustentável.” Haverá um laboratório de design para fazer experiências e criar novos produtos, por exemplo, usando a casca dos citrinos que existem em abundância na propriedade.

A sustentabilidade é uma regra que todos os visitantes terão de cumprir. “As organizações que aluguem o espaço terão de respeitar a nossa forma de funcionamento de modo a minorar o seu impacto ecológico”, alerta. “Não é possível simplesmente fazer uma reserva e ficar cá, será preciso apresentar uma ideia ou um programa que depois trabalhamos em conjunto. Podemos, por exemplo, organizar um workshop sobre um dos objetivos de sustentabilidade do milénio estabelecidos pelas Nações Unidas.” Já estão abertas candidaturas para residências criativas, campos de férias dedicados ao design, workshops sobre sistemas regenerativos e retiros de grupo.

As mentes criativas deverão começar a chegar à quinta este verão, ainda antes de ficar concluída a recuperação do antigo lagar, que apaixonou a australiana. Está a decorrer uma campanha de angariação de fundos para as obras que irão transformá-lo num alojamento com capacidade para 20 pessoas, com direito a biblioteca, salas de reuniões e bar. O investimento rondará os 250 mil euros, mas Leyla está a tentar reunir 50 mil dólares (40,4 mil euros) através de crowdfunding. Alguns vizinhos que, em tempos, trabalharam no lagar já lhe contaram as suas histórias. “Adorava recolher estes testemunhos, mas para isso tenho de melhorar o meu português”, reconhece. Apesar de compreender bem a língua, continua a ter dificuldade em expressar-se. Já em inglês mostra ser mestre da retórica. A sua conferência TED sobre “como repensar o folclore ambientalista” é uma das mais vistas de sempre na temática da sustentabilidade. Soma mais de 1,2 milhões de visualizações.

Fugir ao catastrofismo

Leyla planeia organizar um programa de treino de liderança e também irá lançar um mestrado em creative change making (mudanças criativas), que incluirá dois retiros na quinta. Já tem 80 inscritos, apesar de ainda não ter data de início. “Temos candidatos da Universidade de Harvard”, assegura. “Estes jovens serão capazes de usar a sua criatividade, ao longo da carreira profissional, para ajudarem a construir o futuro no qual querem viver.” Doutorada em Design, Leyla lamenta que “muitos jovens com uma grande paixão pelo planeta sejam obrigados a fazer coisas contra os seus princípios morais depois de arranjarem emprego”. A sua missão é clara: “Tento quebrar esse ciclo, dando-lhes ferramentas que lhes permitam justificar as suas opções do ponto de vista económico e social perante os patrões”, ou seja, mostrando que a sustentabilidade pode ser um bom negócio.

Confessa que ainda a surpreende que chefes de Estado e de governo queiram ouvir o que tem para dizer. Sabe que o atual Presidente dos EUA não está disposto a ouvi-la. Todavia, acredita que as decisões ambientais desastrosas de Donald Trump terão consequências sobretudo no território dos Estados Unidos da América. “Creio que o impacto global não será tão profundo quanto as pessoas imaginam porque o facto de o governo querer abandonar o acordo climático de Paris está a levar outros agentes do sistema, organizações e milionários, a mobilizarem-se para agir”, vaticina, antes de acrescentar: “É sempre trágico alguém negar a ciência.”

Leyla não crê que possa sensibilizar toda a gente para a importância de proteger o planeta – “não sou assim tão arrogante” – mas procura sempre entender os motivos daqueles que negam, por exemplo, as alterações climáticas. “Não argumento contra aquilo em que acreditam, tento simplesmente compreender onde está a falha de conhecimento e procuro uma ferramenta ou uma ideia que possa ajudar a solucionar esse problema. Se alguém defende que a terra é plana é porque está inserido numa comunidade que valida essa crença. Por isso, eu tenho de compreender toda a comunidade para ser capaz de a mudar efetivamente. É mais complicado do que simplesmente dizer a alguém que a terra é redonda.”

Ao mesmo tempo, sublinha que 
“a narrativa ambientalista” não deve ser apresentada do ponto de vista da catástrofe: “A comunicação ambiental é muitas vezes feita num tom negativo, vamos todos morrer e pronto, mas ninguém se envolve verdadeiramente numa causa se tiver medo dela. É fundamental mostrar que a sustentabilidade é uma oportunidade.” E, defende, só os mais rebeldes têm coragem de fazer diferente. Essa rebeldia de ir contra a norma “é testada diariamente em cada escolha pessoal e profissional dos indivíduos”. Por isso, não se coíbe de desafiar a rebeldia de quem ama o planeta. “Se eu conseguir tornar cool a ideia de ser a pessoa que está a mudar o mundo para melhor, então vou precisar de um espaço onde possamos libertar a alegria rebelde de atingirmos esse sucesso coletivo.” Esse local pode muito bem estar situado em Tomar.

Marcos Borga

Leyla Acaroglu

Naturalmente sustentável

A designer australiana recomenda que todos os habitantes do planeta façam um exercício simples: 
“Se tivéssemos de pagar pelo oxigénio que respiramos, quanto custaria?” Leyla Acaroglu acredita que esta pode ser uma forma eficaz de perceber o valor incalculável da natureza. Fundou duas escolas de design, uma em Melbourne, 
na Austrália, e outra em Nova Iorque, nos EUA, e também 
criou um movimento global que procura formas alternativas de partilhar o conhecimento, 
a UnSchool. À chegada a Portugal, disponibilizou-se para colaborar com os alunos de design gráfico do Instituto Politécnico de Tomar. Defende que todos os produtos devem ser desenhados de forma a serem sustentáveis ao longo de todo o seu ciclo de vida. E atribui ao hiperconsumismo muitos dos problemas do planeta. Acredita que a Humanidade vai agir relativamente às alterações climáticas porque “ainda que nos mudássemos para Marte, teríamos sempre de replicar a natureza”.