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Páginas inéditas do diário de Anne Frank mostram a sua curiosidade pelo sexo

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Pensamentos e dúvidas sobre relações sexuais, prostituição, matrimónio e filhos descobertas em duas páginas do primeiro diário da adolescente vítima do Holocausto

Aos 13 anos, Anne Frank tinha os mesmos pensamentos e a mesma curiosidade natural pela sexualidade, como qualquer outra adolescente. A diferença terá mesmo sido as circunstâncias, em que de forma secreta, expressou as dúvidas e se questionou. Em segredo e por escrito, nas páginas 78 e 79 de Kitty, nome dado pela jovem alemã de origem judaica ao seu primeiro diário, com capa vermelha, um presente recebido a 12 de junho de 1942, pelo seu aniversário, que era um verdadeiro enigma. As tachas e o papel pardo colado tornavam-no impossível de ler. Mas, esta terça-feira, 15, a Casa Anne Frank, em Amesterdão, na Holanda, divulgou o resultado de um processo fotográfico digital que assim divulga passagens inéditas escritas pela adolescente vítima do Holocausto.

“O texto não é muito diferente de outro texto do diário. Fala de vários temas sensíveis e sexuais, mas muito como adolescente que era. O único elemento que talvez seja interessante no seu desenvolvimento como escritora e como adolescente é o facto de ela ter criado uma espécie de ficção para abordar temas delicados”, explica Ronald Leopold, diretor da Casa Anne Frank, ao jornal El País. O texto estava debaixo de papel castanho, provavelmente, para ocultar das pessoas com quem se escondia, os pais e a outra família.

Ambas as páginas foram descobertas há 17 anos, quando todos os manuscritos de Anne Frank foram digitalizados. Datam de 28 de setembro de 1942, quando esteve escondida dos nazis, com sua família e três outros amigos dos pais. Nessa altura e naquela situação de guerra e terror “Anne não perde a curiosidade dos adolescentes sobre a sexualidade”, segundo Ronald Leopold. Os seus dotes literários levam-na a misturar piadas sobre o que imagina que pode estar a acontecer no exterior e os seus desejos mais íntimos.

Na primeira página, n.º 78, anuncia que pretende “fazer piadas obscenas”: “Sabe por que há raparigas nas Forças Armadas Alemãs na Holanda? Para servirem de colchão para os soldados”. Esta espécie de anedota pode criar um certo desconforto em algumas pessoas, mas mostra que Anne era uma menina como as outras.

Ao escrever sobre sexualidade, Anne fica séria

Na segunda página, n.º 79, faz uma pergunta básica. Como poderia ela responder a uma pergunta sobre sexo? Em seguida, analisa a chegada da menstruação aos 14 anos e as suas consequências, um tema que aparece em outro momento do texto. “É um sinal de que uma menina está pronta para fazer sexo com um homem, mas isso não é feito antes do casamento. Depois, sim. Também se pode decidir [a partir de então] se se quer ter filhos ou não. Se sim, o homem deita-se sobre a mulher e deixa a sua semente na vagina dela. Tudo acontece com movimentos rítmicos. Quando o casal decide evitar as crianças, a mulher toma medidas internas e isso ajuda. Pode falhar, claro, mas se quer realmente ter filhos, às vezes não é possível. Ao homem agrada-lhe estes relacionamentos e deseja-as; a mulher menos, mas também”.

É com uma certa ingenuidade que temas como a prostituição e a homossexualidade surgem nestas páginas. “Se os homens são normais, vão com mulheres. Na rua, há mulheres que falam com eles e depois vão juntos. Em Paris, há casas muito grandes para isso. O papá esteve lá. O tio Walter não é normal. Há raparigas que vendem esta relação”.