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O "rapaz pobre do Bairro Alto" que está a revolucionar a Educação nos Estados Unidos

Sociedade

Luis Barra

Alberto M. Carvalho chegou a dormir na rua antes de a escola o salvar, tal como agora salva muitos dos estudantes sob a sua alçada, em Miami, onde é uma espécie de ministro da Educação: “A decisão mais difícil da minha vida foi sair de Portugal”

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Mr. Armani.” Não surpreende que o nome do costureiro italiano fosse a sua alcunha quando dava aulas de Química e Biologia no ensino secundário. Alberto M. Carvalho está impecavelmente vestido com um fato azul, mas não é a roupa que o torna particularmente carismático. Antes, a simpatia natural e a capacidade de escolher as palavras certas. Apesar do português fluente, confessa sentir-se desconfortável a discursar na língua mãe, porque “nem sempre os verbos saem bem” – a entrevista, realizada em Lisboa, seria respondida em inglês, com alguns apontamentos em português. Trinta e cinco dos seus 52 anos foram passados nos EUA. Saiu de Portugal aos 17, sozinho, em busca do sonho americano, mas primeiro viveu um pesadelo. Hoje, a sua história inspira muitos dos 500 mil alunos de Miami, onde ocupa o cargo de superintendente das escolas públicas, uma espécie de ministro regional da Educação, desde 2008. E conseguiu colocar Miami a competir pelos melhores resultados escolares do país. Não hesita nas críticas a Trump, nem foge às questões sobre o seu futuro político. A sua alma, essa, continua a ser portuguesa.

A maioria dos estudantes em Miami é afro-americana ou latina. A diversidade cultural traz desafios acrescidos?
Comparada com Lisboa, Miami é uma cidade muito recente. A sua força não é a história, mas a diversidade. O perfil demográfico de Miami é 65% latino e hispânico e 20% afro-americano. Também estamos a receber uma vaga de imigrantes franceses e russos. Há gente de todo o mundo. Daqui a 15 ou 20 anos, o rosto da América será igual ao de Miami nos dias de hoje. A comunidade hispânica irá tornar-se uma maioria. Isso preocupa e assusta muita gente. Muitos movimentos políticos, e até o fator Trump, são a expressão desse medo de a América estar a mudar.

Miami é o oráculo dos EUA?
É como se estivéssemos a olhar para uma bola de cristal e a antecipar como será a América. A beleza de tudo isto, e a importância do trabalho que estamos a fazer, é conseguirmos ensinar aos mais novos não apenas a Matemática, a Ciência e a História, mas também a compreensão histórica, a aceitação e a tolerância. Se formos bem-sucedidos e tivermos melhores resultados do que o resto da América, e atualmente temos, estaremos a provar que esta nova comunidade de imigrantes pode ser a solução para o país. Não uma América mais fraca, mas uma América mais forte.

Identifica-se, de alguma forma, com estes jovens estudantes?
Não me julgue pelo fato e pela gravata. Tenho uma ligação enorme com os jovens de Miami e de outras partes do país. Depois do tiroteio de Parkland, muitos superintendentes ameaçaram os estudantes de suspensão se eles se manifestassem, oprimindo os sentimentos dos miúdos. Eu fui manifestar-me com eles. Parte do sucesso de Miami deve-se a tentarmos ver as coisas através dos olhos dos estudantes. Só assim encontramos melhores soluções para os problemas deles.

Ter crescido num ambiente socialmente desfavorecido e ser imigrante contribuem para se identificar com estes jovens?
Nos meus discursos, digo sempre que já não sou pobre mas nunca serei rico, independentemente do dinheiro que venha a ganhar. Terei sempre alma de pobre. Cresci em Portugal, numa família com seis irmãos, o meu irmão mais velho e a minha única irmã morreram demasiado novos, provavelmente de doenças perfeitamente curáveis. Os restantes entraram no mercado de trabalho aos 14 ou 15 anos, o único que se graduou, além de mim, foi o meu irmão mais novo, que tem menos dez anos do que eu, e tornou-se um filho para mim. É dentista em Lisboa. O meu pai só tinha a terceira classe, era zelador, fazia limpezas para sobreviver, e a minha mãe era costureira. Quando saí de Portugal, em 1982, era difícil entrar na universidade. Fui para os EUA em busca dessa oportunidade. Por isso, sim, revejo-me na jornada das crianças que sirvo.

Os primeiros tempos nos EUA estiveram longe do sonho americano…
O meu primeiro emprego foi a lavar pratos em Manhattan, o segundo foi na construção civil… Cheguei a ficar sem abrigo, nem tinha documentos, dormi na rua durante um mês e fui detido por causa disso. Quando discurso, em vez de esconder, conto esta história. Quero que os mais jovens saibam que estas dificuldades não são um destino final, se as ultrapassarmos, tornamo-nos mais fortes. O sucesso é a melhor vingança.

A escola mudou o seu destino?
A educação salvou-me, mas o que realmente me definiu foi a força do meu pai, um homem com a terceira classe e uma sabedoria que ainda persiste na minha memória. Aqueles primeiros cinco ou dez anos na América foram a educação mais forte que poderia ter, mas sem a escola eu não teria a voz que tenho hoje.

Como é que a escola pode ajudar a combater a desigualdade?
É o sítio ideal para isso. Agora, há uma diferença entre igualdade e equidade. Uma escola onde tudo é igual para todos é uma loucura. Dando exatamente o mesmo a todos, promovemos a iniquidade, ou seja, um miúdo do Lumiar ou do Casal Ventoso teria o mesmo nível de apoio. A igualdade é uma falsa promessa de democracia. Sou menos pela igualdade e mais pela equidade.

Alberto M. Carvalho emociona-se sempre que fala da sua herança portuguesa

Alberto M. Carvalho emociona-se sempre que fala da sua herança portuguesa

Luís Barra

Os estudantes de hoje são menos curiosos porque o conhecimento está a um clique de distância?
Nem pensar! Tenho uma filha com 25 anos e ela está mais consciente a nível social, emocional e político do que a minha geração alguma vez esteve. Os jovens de hoje são intelectualmente superiores, controlam um maior corpo de conhecimento e têm uma ferramenta de pesquisa muito melhor do que as do passado. Era fácil mentirem-me quando era miúdo, experimente mentir a um miúdo hoje… Ele irá confirmar a informação na internet e chamar-lhe mentirosa. Tal como fizeram os miúdos de Parkland, eles são ousados, inteligentes e também muito conscientes. Não subestimemos a voz dos jovens.

Diz que um dos problemas das políticas educativas é o facto de serem definidas por adultos. Porquê?
As crianças não votam, por isso os adultos ditam as políticas que lhes parecem melhores. Não estou a sugerir que uma criança de 12 anos dite a sua própria educação, mas temos de ouvir o que os miúdos têm para dizer. No Twitter peço para me dizerem se a sua escola está limpa, eles respondem com fotografias, e os adultos reagem rapidamente porque não querem ficar malvistos. Precisamos da experiência dos adultos, mas também devemos ouvir os mais novos, respeitá-los mais. Claro que nem sempre vamos concordar. Agora, não podemos ouvir apenas a maioria. Como percebemos com a nova realidade da política americana, às vezes as pessoas elegem quem não representa os seus interesses.

A escola é o local ideal para discutir as fake news?
A escola tem um papel protetor contra as manobras daqueles que tentam influenciar a maneira de pensar das pessoas usando os meios de comunicação social. Cada vez mais os cidadãos percebem que a realidade não está nos extremos, isso são vocalizações de interesses ideológicos. As opiniões pertencem às pessoas e os factos à verdade. Os políticos transformam factos em ficção para instigarem reações populistas, isso é uma ameaça à democracia.

Como vê a política educativa da administração Trump?
Não sabemos qual é a sua política educativa. Os presidentes Bush e Obama tinham uma visão concreta da educação. Com o Presidente Trump, e a secretária de Educação Betsy DeVos, uma milionária sem experiência educativa, é difícil dizer qual é a direção, além da revogação de algumas garantias anteriormente aprovadas. Desmantelaram parte da proteção dada aos imigrantes – não em Miami, porque avisei que não iria permitir. Só por cima do meu cadáver um agente federal poderá perturbar os meus estudantes. Estou pronto para chamar as pessoas e irmos para a rua – e elas irão. Quando o sucesso de uma política de educação se mede por aquilo que foi desfeito e não por aquilo que foi feito, é bastante revelador.

Armar os professores parece-lhe uma boa ideia?
É uma ideia estúpida. Os professores, em qualquer lugar do mundo, devem estar armados com inspiração, respeito e bons ordenados, não com armas de fogo. Falo com polícias, pais, professores e estudantes, e todos me dizem que se sentiriam menos seguros se houvesse professores armados nas escolas. Obviamente que estas decisões são muito influenciadas pelas contribuições da NRA [organização defensora do porte de armas], mas a NRA não representa os meus estudantes e não me representa a mim. Comigo isso não vai acontecer.

O que o fez voltar atrás na decisão de gerir o sistema educativo de Nova Iorque?
Em primeiro lugar, a reação da comunidade quando estava prestes a partir. As pessoas choravam e pediam-me para não ir. Duas crianças sem documentos vieram ter comigo 24 horas depois do anúncio e disseram-me que se me fosse embora não sabiam o que lhes aconteceria. Tocou-me muito. Aquelas crianças eram como eu fui. Como é que podia voltar as costas ao meu próprio destino? Por outro lado, algumas revelações no último minuto também me fizeram recuar. Em Miami tenho muita liberdade, não sou influenciado por políticos, mas durante a última conversa com o mayor de Nova Iorque percebi que algumas posições-chave seriam nomeações políticas. Para elevar Nova Iorque ao nível de Miami, não podia ter uma equipa de políticos à minha volta, precisava de pessoas com outras habilitações. Decidi quebrar um acordo com adultos para honrar um compromisso com crianças. Foi a segunda decisão mais difícil da minha vida.

Qual foi a primeira?
A decisão mais difícil da minha vida foi sair de Portugal. Tinha 17 anos, era uma criança, não conhecia ninguém, e sabia que, acontecesse o que acontecesse, seria sempre difícil.

Tenho a sensação de que não respeita muito os políticos e não se considera um deles.
Não considero. Toda a gente me vê como um político, mas eu não. Sou um funcionário público.

Mas sente que poderia dar um contributo importante no Congresso norte-americano?
Claro.

Isso significa que teria de se tornar político?
Nos últimos anos, há sempre alguém a querer que me candidate a alguma coisa. Presidente da Câmara, congressista, senador, governador… Costumo brincar e dizer que o lugar do Papa Francisco, de quem gosto muito, pode estar em risco. [Risos.] O que se passou em Nova Iorque prova que não sigo um caminho baseado no que é melhor para mim, mas no que é melhor para mim tendo em conta aquilo que acredito ser melhor para o bem comum. Tenho uma relação amorosa com a minha comunidade, Miami compete com a minha mulher. Dito isto, estou a sentir-me particularmente inquieto perante a política atual. Não consigo prever o futuro, tenho um mandato até 2020 que vou cumprir, mas cada vez mais estou atento ao ambiente político e peso as possibilidades. Se, no momento certo, pelas razões certas, sentir no meu coração que devo candidatar-me, fá-lo-ei. Mas não será pela honra de ser político.

Portugal tem alguma lição a dar ao nível de políticas educativas?
Relativamente aos estudantes portugueses, devemos estar preocupados mas também orgulhosos. Olhamos para os dados internacionais e adivinhe qual é um dos países que se destacam? Portugal. A OCDE analisou as melhorias na taxa de estudantes que terminam o secundário e Portugal ultrapassou as nações mais desenvolvidas do mundo. As maiores debilidades do País estão relacionadas com a formação profissional e vocacional. Além disso, os resultados escolares são tremendamente diferentes consoante o local de nascimento dos alunos, o sítio onde vivem e as escolas que frequentam.

Continua a visitar Portugal com frequência?
Sim, venho regularmente. Toda a minha família vive em Portugal. Vim cá duas vezes no final do ano passado para dar uma série de palestras.
É um local abençoado.

Que imagem têm os norte-americanos do País?
Surpreendentemente, Portugal tornou-se o sítio da moda. Não sei se foi por causa de a Madonna ter vindo para cá… Ajudou, mas há outras razões. Toda a gente fala inglês, é um país com uma elevada estabilidade política, seguro, limpo e, comparado com Paris ou Berlim, ainda tem preços razoáveis. Além disso, é lindo. É bom porque o turismo traz visibilidade e receitas, é mau porque os falcões do imobiliário estão a expulsar os portugueses. É impossível encontrar casas a preços razoáveis, sobretudo em Lisboa, e esse é um grande problema. Também o temos em Miami, é impossível comprar lá uma casa por menos de um milhão de dólares, e os preços do imobiliário em Lisboa já estão parecidos com os de Miami e de Nova Iorque. É uma loucura. Aquele rapaz que sabe dar uns belos chutos na bola também contribui para a proeminência do País. Perguntam-nos onde Portugal esteve este tempo todo, mas a verdade é que já cá está há umas centenas de anos. [Risos.]

O que resta da sua herança portuguesa?
[Longa pausa] A minha alma é portuguesa. Tal como muitos portugueses, particularmente aqueles que se foram embora, a palavra mais bonita que conhecemos é “saudade”, essa nostalgia pelo País que deixámos. Acumulei riqueza e conhecimento, mas sempre serei um rapaz pobre do Bairro Alto. É também por isso que, enquanto viver, lutarei por aqueles miúdos. Se eu consegui, não há razão nenhuma para eles não conseguirem.