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Se há diamantes "sem sangue", porque é que a Europa só quer os outros?

Sociedade

HENRY NICHOLLS/ Reuters

Diamantes naturais ou sintéticos criados em laboratório? Por mais questões éticas e ambientais que se levantem, continuamos a comprar em exclusivo os primeiros. Saiba porquê em três pontos

"Gota de água" em negócio bilionário

Recentemente, numa feira de joalharia, em Vicenza, Itália, o gemólogo Rui Galopim apenas encontrou um stand com diamantes sintéticos, criados em laboratório e mais baratos do que os naturais, extraídos de minas. “Eram poucos, de qualidade sofrível, e só estavam ali como mera curiosidade”, conta à VISÃO. É um exemplo da indiferença europeia, face aos diamantes sintéticos, que contribui para a fraca quota de mercado global desta “joia limpa”, estimada em 3% a 4% do total, o que equivale, no máximo, a seis milhões de quilates (cada um com 0,20 grama). Quase nada perante a produção mundial em 2016, que chegou aos 128 milhões de quilates e rendeu à indústria mineira 64,8 mil milhões de euros.

Não te ouvimos, DiCaprio

Após protagonizar, em 2006, o filme Diamantes de Sangue, o ator e militante ecologista Leonardo DiCaprio tornou-se investidor de uma empresa produtora de diamantes sintéticos. Ali, sublinhou, não existem os “custos humanos ou ambientais da atividade mineira” nos países em desenvolvimento, sobretudo africanos – desde as emissões de CO2 ao financiamento de guerras e à corrupção das elites. Há dois métodos para o fabrico em laboratório daqueles produtos, implicando ambos uma “semente” de diamante sintético: um usa alta pressão e temperatura elevada para que os átomos de carbono se dissolvam na “semente”; o outro utiliza máquinas de vácuo, com baixa pressão e alta temperatura, para que a “semente” receba aqueles átomos e o diamante se forme. Mas a Europa não ouve DiCaprio. Rui Galopim diz que quem quiser comprar em Portugal um diamante de laboratório terá de o encomendar através de uma joalharia, que o adquirirá nas bolsas de Londres ou de Antuérpia. A compra online é desaconselhada, pelo risco de fraude.

Guerra de marketing

O diamante sintético é um produto artificial com as mesmas características de um diamante natural, definem os especialistas. Rui Galopim diz que “nem à lupa” consegue distinguir um sintético de um natural. Essa triagem só se faz com aparelhos sofisticados. Mas o gemólogo também afirma que os custos de produção e lapidação ainda não permitem a esta nova indústria apresentar, na Europa, preços competitivos. A paridade neste tipo de consumo já existe, porém, tanto na China e Índia como nos EUA e na Rússia, onde estão os maiores produtores de sintéticos. A guerra de marketing começou. As multinacionais da indústria mineira dizem que os diamantes sintéticos não têm a beleza dos naturais e alegam que pagam o carbono que emitem, fazem comércio justo e contribuem para o bem-estar das comunidades. As ONG dizem o contrário – e Rui Galopim prevê um crescimento da quota dos sintéticos até aos 10% em cinco anos, pelo “simbolismo do produto”, à boleia das questões éticas e ambientais levantadas por figuras como DiCaprio. Millennials, estão aí?