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E se trocarmos a sardinha pelo carapau?

Sociedade

Lucília Monteiro

Ou paramos a bem ou paramos a mal. É esse o recado de cientistas e ambientalistas sobre a pesca da sardinha. Mas há alternativas

Algo muito grave está a acontecer com a sardinha. E a maior evidência disso é o facto de tão poucos peixes crescerem até se poderem chamar, efetivamente, sardinhas.

Segundo os dados científicos do ICES (sigla inglesa para Conselho Internacional para a Exploração do Mar), a cada quatro ou cinco anos, sensivelmente, há um pino no "recrutamento" um aumento exponencial no número de animais que atingem uma idade considerada viável (podem ainda não ter atingido a maturidade, mas já têm tamanho suficiente para subsistirem por si mesmas). Acontece que o último pino deu-se em 2004, e mesmo esse foi pouco acentuado. Ou seja, não há uma entrada considerável de novas sardinhas no ecossistema. E este é provavelmente o maior sinal de colapso dos stocks de sardinha.

"Devia ter acontecido em 2008, só que não aconteceu. Há apenas uma subida muito, muito ligeira", explicou Gonçalo Carvalho, biólogo marinho de formação e presidente da organização não governamental do ambiente Sciaena Associação de Ciências Marinhas e Cooperação, em declarações à VISÃO na véspera da reunião de dezembro sobre as quotas pesqueiras. O ambientalista não avançava então explicações para a anomalia, mas só via uma solução: reduzir drasticamente a pesca da espécie, por mais que isso doa aos portugueses. Do ponto de vista puramente científico, para garantir a sobrevivência da sardinha, em 2018 não se devia pescar um único peixe: "A situação é crítica."

Se um cenário de um ano inteiro sem sardinha parece dramático (para pescadores e consumidores), a verdade é que a recomendação dos investigadores do ICES, enviada em julho de 2017 à Comissão Europeia, vai bem mais longe: para que os stocks atingissem níveis absolutamente seguros, seria necessário interromper a captura da espécie durante 15 anos. A sugestão deixou os armadores portugueses à beira de uma ataque de nervos.

Quando foi anunciada, os responsáveis da Anopcerco Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco declararam-na "um insulto aos pescadores portugueses".

A sardinha é um caso especial, no que respeita às decisões sobre as quotas: Portugal e Espanha definem sempre em conjunto a quota ibérica, antes da reunião. Para este ano, os dois países propunham-se, então, a capturar 14 600 toneladas uma redução de 16,5% face a 2017, baixando ainda a época de captura de oito meses para seis (maio a outubro). É uma descida insuficiente, face ao aconselhado pelos cientistas, mas que já levou aos protestos dos pescadores da Andaluzia.

Gonçalo Carvalho, da Sciaena, compreende os receios dos armadores. Mas afiança que a descida do preço do petróleo e a subida generalizada do preço do pescado lhes têm aumentado os lucros. Além disso, acrescenta, "entre 2001 e 2015, Portugal capturou sardinha 37% acima dos pareceres científicos". "Ou paramos agora durante uns tempos ou corremos o risco de parar para sempre", sentencia.

A alternativa, diz, é substituirmos a sardinha por outros peixes em melhores condições de sustentabilidade, igualmente importantes na gastronomia portuguesa. Por exemplo, alguns stocks de bacalhau têm recuperado; a pescada é outra espécie de boa saúde (após alguns anos conturbados), tal como o tamboril.

Mas a melhor opção será talvez o carapau.

"Tem sido subpescado, devido ao seu valor comercial reduzido", conta o ambientalista.

"Mas o mais importante é as pessoas deixarem de olhar para o peixe como para os produtos agrícolas, com uma cadência e disponibilidade no ano inteiro. Temos de mudar essa perceção do peixe, da mesma forma que devemos tentar comer só fruta da época. Antigamente só se comia sardinha na altura dos Santos Populares. Agora, as pessoas esperam comê-la o ano todo."