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Nas 21 dioceses portuguesas, só uma tem um padre exorcista

Sociedade

Franco Origlia / GettyImages

Em Roma, num instituto reconhecido pelo Vaticano, duas centenas de pessoas vão frequentar ao longo desta semana uma formação sobre o rito católico de exorcismo do demónio. Mas os atuais bispos portugueses parecem acreditar pouco, ou mesmo nada, nessa prática

Quem crê no rito católico de expulsão do demónio de uma pessoa possuída, considera que a Igreja está perante uma "emergência pastoral". Em Itália, por exemplo, noticia-se que, nos últimos anos, triplicaram os pedidos de assistência espiritual a padres exorcistas por parte de fiéis que se sentiam sob possessão demoníaca. O aumento de crentes que procuram esse tipo de ajuda regista-se também noutros países europeus (como o Reino Unido) e nos EUA. Mas, em Portugal, esses fiéis em aflição só encontrariam um padre exorcista em exercício autorizado pelo seu bispo, e numa diocese de geografia delimitada - a de Lamego. Já lá iremos.

Não por acaso, cerca de 200 pessoas vão frequentar ao longo desta semana, em Roma, um curso intensivo de formação e aprendizagem do rito exorcista instituído e regulado pela Igreja católica. Esta segunda-feira, 16, o cardeal Angelo Amato iniciou os trabalhos, perante uma plateia constituída por padres, freiras e participantes com as mais diversas profissões. Todos os formandos pagaram cerca de 283 euros para tirar o curso de uma semana proporcionado pelo Instituto Sacerdos, uma faculdade católica reconhecida pelo Vaticano.

Realizado anualmente pelo Sacerdos, o Curso de Exorcismo e Oração de Libertação, assim chamado, vai já na 13.ª edição e foi criado a pedido de padres italianos, que confessaram não saber lidar com casos estranhos que pareciam ter a ver com possessões demoníacas. À boleia do mediatismo que ganhou ao longo de mais de uma década, o curso de exorcismo daquele instituto chegou às centenas de participantes que atualmente reúne em cada ano.

Mas as preocupações da comunidade religiosa também ajudaram à crescente procura. Benigno Palilla, um frade siciliano exorcista, apontava há dias o dedo ao acréscimo de interesse pelo oculto. "O número de pessoas prontas a virarem-se para o curandeirismo, a bruxaria e coisas como as cartas de Tarot tem vindo a crescer", assinalou. E é por aí, acredita, que "o demónio entra".

O que o frade Palilla descreve é um fenómeno que, em Portugal, "regista nos últimos 30 anos um crescimento exponencial", diz à VISÃO fonte eclesiástica, que pediu o anonimato. "A entrega à superstição é uma atitude que abre portas ao demónio, que causará graves distúrbios na pessoa que a ela se confiou", acrescenta. "Sem a liberdade humana, o demónio não consegue ir além das tentações."

Mas estes são conceitos de que os atuais bispos portugueses parecem estar a afastar-se. Era norma que os responsáveis pelas dioceses delegassem num padre os casos de exorcismo de eventual possessão demoníaca, e que autorizassem leigos com a formação necessária a auxiliar esses sacerdotes. Escreveu-se "era" porque, segundo a fonte eclesiástica contactada pela VISÃO, atualmente só uma diocese, a de Lamego, tem um padre exorcista em funções, que se desdobra a assistir fiéis da sua jurisdição espiritual (não pode fazê-lo fora dela) e de outras zonas do País, os quais deslocam-se ao encontro desse sacerdote.

É o cenário mais paupérrimo que a Igreja portuguesa alguma vez apresentou neste particular - até há relativamente pouco tempo, estavam em funções mais dois padres exorcistas, nas dioceses de Viseu e de Santarém, que foram desviados pelos seus bispos para outras tarefas.

"A grande maioria, 95 por cento, dos pedidos de assistência provêm de pessoas que vão ao padre exorcista um pouco com a mesma atitude de quem vai ao bruxo", reconhece a fonte eclesiástica contactada pela VISÃO. "Gostariam que a causa dos seus problemas fosse o demónio..." Ou seja, "não estão malucos nem precisam de exorcismo".

Restam os 5% de casos que aquela fonte da Igreja considera serem de possessão demoníaca que justifica o rito exorcista. Ainda que assim não fosse, alega, "pedir a ajuda espiritual de um padre é uma atitude muito razoável de um crente".