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Diz que eram uma espécie de macacos surfistas, aqueles que foram de África para a América

Sociedade

Os macacos africanos terão flutuado no Oceano Atlântico, em cima de pedaços de terra, até chegarem à América do Sul

Há milhares de anos, os macacos terão viajado do continente africano para a América do Sul em “jangadas naturais”. Um dos biólogos que defende esta teoria é Alan de Queiroz, um norte-americano com uma ligação bizarra à cultura portuguesa…

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

Um grupo de macacos viveria tranquilamente nas margens de um rio, algures no continente africano, até uma tempestade provocar uma derrocada capaz de separar um grande pedaço de terra. Esta “jangada natural” teria sido, assim, inadvertidamente transformada no seu meio de transporte até ao continente Americano.

Ninguém sabe se a história se terá passado exatamente desta maneira – afinal, tudo terá acontecido há 40 milhões de anos – mas o biólogo Alan de Queiroz acredita que esta é uma boa hipótese, ainda que possa soar mirabolante.

“A formação da 'jangada natural' não é difícil de imaginar, mais raro seria ela estar habitada por animais”, explica o professor da Universidade do Nevada, nos EUA. Os macacos africanos terão flutuado no Oceano Atlântico, em cima destes pedaços de terra, até chegarem à América do Sul. Só desta forma se explica que os primatas tenham conseguido chegar ao continente americano quando já não era possível fazer a viagem por terra, defende o biólogo de 58 anos.

“A análise do ADN tornou possível calcular há quanto tempo os macacos de África chegaram à América do Sul e concluímos que os primatas se dividiram entre os dois continentes muito tempo depois da separação dos continentes”, explica à VISÃO.

Vida à deriva

Os continentes africano e americano afastaram-se há 140 milhões de anos, na sequência da separação da Pangeia (que deu origem aos continentes atuais), enquanto a travessia dos macacos terá acontecido muito mais tarde, há 40 milhões de anos, quando a distância mais curta entre ambos não ultrapassava os 1 500 quilómetros (cerca de metade da distância atual), o que poderia permitir uma viagem de apenas 15 dias à deriva no oceano.

Em alguns casos, a “jangada natural” seria suficientemente robusta para aguentar a viagem e garantir a sobrevivência dos macacos durante um ou dois meses. A água seria acumulada na vegetação e haveria árvores e pequenos animais ideais para servirem de alimento, tendo os primatas o benefício de serem omnívoros.

Também a evolução humana poderá ter sido condicionada por estas viagens em “jangadas naturais”, admite o biólogo norte-americano: “Os primatas poderão ter chegado a África, vindos da Ásia, em ilhas flutuantes. Se for esse o caso, este fenómeno será responsável pela existência dos seres humanos, já que descendemos desse grupo de macacos que chegou ao continente africano.”

Poderá um simples acaso ter sido fundamental na evolução humana? “É curioso que um acontecimento fortuito possa ter tido impacto tão grande no planeta mas, muitas vezes, é o acaso que altera o curso da História e das nossas vidas”.

Estranha herança portuguesa

Esta teoria não é consensual entre os biólogos, apesar de ser comummente invocada sempre que não se encontra outra explicação para a migração de animais. Já Darwin defendia que várias sementes e animais teriam viajado em ilhas de vegetação ao longo de grandes massas de água.

Alan de Queiroz escreveu um livro sobre este tema, The Monkey’s Voyage (sem edição portuguesa). Curiosamente, é precisamente à literatura que o autor deve o seu sobrenome.

O investigador não é descendente de portugueses, a história é mais inesperada do que isso.

“O meu avô paterno era muito excêntrico e mudou de nome várias vezes ao longo da vida. Nasceu no México e o seu verdadeiro nome era Leopoldo Padilla, mas a dada altura passou a chamar-se Hugo de Queiroz. E foi este sobrenome que ele deu ao meu pai”, conta, divertido.

O nome não foi escolhido ao acaso: “O meu avô adorava o escritor Eça de Queiroz, e terá sido por isso que o escolheu. Assim, tenho uma ligação à cultura portuguesa apesar de não ter qualquer relação de sangue com o País”. O avô morreu quando ainda era criança, daí não saber muito mais sobre as aventuras do patriarca.

Alan diz já ter lido alguns contos de Eça de Queiroz e compara o escritor português ao francês Voltaire, “já que ambos eram cronistas ferozes da sociedade”.

O norte-americano só veio a Portugal uma vez, há muitos anos, quando ainda estudava na faculdade, mas pondera regressar com a mulher e os dois filhos. “Já ouvi dizer que Lisboa está na moda, tenho de voltar antes de a cidade ficar inundada de turistas.”