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E se nos cafés passar a haver avisos como nos cigarros?

Sociedade

D.R.

O Tribunal Superior de Los Angeles acabou de decretar isso mesmo, mas a Associação Nacional de Café americana já avisou que vai recorrer. A decisão judicial foi tomada depois de 91 empresas não terem conseguido provar que a quantidade de acrilamida, um composto químico produzido durante a torrefação dos grãos, não é cancerígena

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

Quantos de nós acreditamos que não conseguimos arrancar com o dia antes de beber um café? E quantos de nós, nos últimos anos, sorrimos ao ler mais um estudo sobre os benefícios para a saúde de tomar uma chávena (ou duas ou mesmo três) dessa saborosa e olorosa bebida?

“Está stop!”, apetece dizer como fazem os miúdos no jogo da apanhada, ao lermos que o Tribunal Superior de Los Angeles decretou que as empresas que vendem café pronto a beber devem afixar um aviso bem visível no balcão, ou numa parede adjacente, com pelo menos 25 centímetros por 25, contendo, entre outras explicações, a informação de que o café contém “um químico que causa cancro”.

A decisão, tomada no final da semana passada pelo juiz Elihu Berle, surgiu na sequência de uma ação interposta pelo Council for Education and Research on Toxics, em abril de 2010. Há oito anos, esta instituição sem fins lucrativos, sediada em Long Beach, acusou a Starbucks e outras 90 empresas de não avisarem os consumidores de que ingerir café pode expo-los à acrilamida, um composto químico produzido durante o processo de torrefação dos grãos, incluído desde 1990 numa lista de substâncias que o Estado da Califórnia considera serem passíveis de provocar cancro ou defeitos de nascença ou afetar o sistema reprodutivo.

Criada em 1986, a Proposition 65 exige que as empresas avisem quando expõem os consumidores a algum dos químicos que constam da lista. Na opinião do juiz Elihu Berle, os réus não foram capazes de provar que a acrilamida não apresenta um risco significativo quando produzida durante a torrefação dos grãos de café.

Caso não cumpram esta estipulação legal, as empresas habilitam-se a pagar uma coima até 2500 dólares (cerca de 2 mil euros) por dia, por cada violação. Treze delas já aceitaram uma decisão preliminar, mas a Starbucks e as restantes empresas acusadas avisaram que vão contestar a decisão, interpondo recurso ou mesmo novas ações judiciais.

Então e as batatas fritas?

Além das multas, o Council for Education and Research on Toxics defendeu que as empresas devem pagar mil euros a cada um dos consumidores que estiveram expostos à acrilamida, desde 2002. Há mais de dez anos que as baterias estão apontadas a esta substância na Califórnia – em 2007, a cadeia de fast-food Kentucky Fried Chicken aceitou avisar os clientes que as suas batatas contêm uma substância potencialmente cancerígena.

Do outro lado da barricada, os ânimos estão acesos. “Já se provou repetidamente que o café é uma bebida saudável. Este processo zomba da Prop 65, confundiu os consumidores e não faz nada para melhorar a saúde pública”, disse William (“Bill”) Murray, Presidente e CEO da Associação Nacional de Café, citado num comunicado oficial. “O café é muito mais do que acrilamida – contém literalmente centenas de substâncias, e é um dos produtos mais estudados de sempre”, lembrou ao New York Times.

Segundo o Instituto Nacional de Cancro dos Estados Unidos, o café é uma fonte de acrilamida, a par com outros produtos alimentares ricos em amido e cozinhados a altas temperaturas – como as batatas fritas, o pão, as tostas, as bolachas e os cereais de pequeno-almoço. Estudos em ratinhos concluíram que a acrimalida pode causar tumores e, eventualmente, causar cancro em humanos. O mesmo instituto sublinha, porém, que “as pessoas são expostas a substancialmente mais acrilamida através do fumo do tabaco do que da comida”.

Não foi por acaso que, em 2016, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o café da lista de possíveis cancerígenos. Nos últimos anos, têm-se multiplicado os estudos que concluem que esta bebida, por conter antioxidantes, pode reduzir o risco de doenças como o cancro ou o Alzheimer, estando igualmente associado a um risco mais baixo de diabetes do tipo 2.

O único cuidado que devemos ter, de acordo com a Agência para a Investigação do Cancro da OMS, é com a temperatura a que bebemos o café – está provado que ingerir bebidas muito quentes pode aumentar o risco do cancro do esófago.

Vai um cafezinho?