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Poligamia, o primeiro passo para a guerra civil?

Sociedade

Eric TRAVERS

Investigadores acreditam que os casamentos poligâmicos podem contribuir para alimentar algumas das mais sangrentas guerras civis

Vânia Maia

Vânia Maia

Jornalista

A guerra civil em curso no Sudão do Sul já provocou mais de dez mil mortos, desde 2013. A corrupção e a rivalidade entre tribos são habitualmente apontadas como as principais causas do conflito, mas um inesperado fator poderá estar a contribuir para a violência: a poligamia.

No Sudão do Sul, 40% dos casamentos envolvem múltiplas esposas, um perfil recorrente em várias das regiões mais instáveis do mundo, como algumas zonas do Haiti e da Indonésia.

A poligamia é habitualmente sinónimo de desigualdade. Só os homens mais ricos conseguem casar com várias mulheres, ficando os mais pobres condenados a uma vida solitária. À frustração sexual junta-se a marginalização social destes rapazes que, em muitas comunidades tradicionais, só são considerados homens de pleno direito se estiverem casados.

Ao provocar a escassez de noivas, a poligamia também contribui para o elevado preço dos dotes exigidos pelas famílias das raparigas. No Sudão do Sul, podem ser entre 30 a 300 cabeças de gado, números fora do alcance das famílias mais humildes.

É perante este cenário que alguns jovens se voltam para medidas extremas que lhes permitem sonhar com um casamento e um futuro melhor.

As investigadoras norte-americanas Valerie Hudson, da Universidade A&M do Texas, e Hilary Matfess, da Universidade de Yale, publicaram um artigo no ano passado que estabelece uma correlação entre o preço dos dotes das noivas e a predisposição dos rapazes para se envolverem em grupos de violência organizada.

Recrutamento jihadista

No Sudão do Sul, repetem-se os furtos de gado à mão armada que despertam inimizades entre tribos – os pastores andam habitualmente com armas AK47. Os rapazes pobres solteiros são, também, mais permeáveis ao recrutamento por parte de grupos rebeldes ou terroristas, que em troca lhes prometem o acesso ao casamento.

Os jihadistas têm vindo a explorar esta fragilidade. Um dos membros do movimento terrorista paquistanês Lashkar-e-Taiba, que perpetrou o ataque que matou 166 pessoas em Bombaim, em 2008, confessou apenas se ter juntado à organização devido à promessa de que o grupo pagaria o dote de casamento de vários dos seus familiares.

Na Nigéria, também o movimento terrorista Boko Haram compensa os seus recrutas pagando-lhes casamentos baratos. Enquanto o Daesh oferecia 1 500 dólares para o enxoval dos seus combatentes e lua-de-mel gratuita em Raqqa (Síria).

Vários países da Ásia central, como o Quirguistão e o Turquemenistão, têm feito campanhas pela reintrodução do direito de os homens casarem com várias mulheres. No Cazaquistão, há dez anos, a discussão foi interrompida depois de uma deputada defender a poliandria, ou seja, o direito de as mulheres terem vários maridos.

Mulheres em risco

Os países onde domina a poligamia, como a República Democrática do Congo, o Quénia ou a Nigéria, são também dos que menos direitos garantem aos seus cidadãos, sobretudo às mulheres, a maior parte das vezes subjugadas à vontade masculina.

A necessidade de angariar dinheiro para pagar o dote das noivas dos filhos, leva as famílias a casarem as filhas cada vez mais jovens, já que é uma forma de terem dinheiro para garantir o casamento dos rapazes.

De acordo com as duas investigadoras norte-americanas acima citadas, a incapacidade de pagar o dote numa sociedade em que o casamento é essencial para pertencer à vida adulta é um fator determinante para aderir a movimentos violentos em troca de rendimentos de outra forma inalcançáveis. E, como tal, consideram fundamental que “os obstáculos ao casamento” sejam tidos em conta nas análises de segurança aos locais onde os EUA tenham interesses.

Também a historiadora e antropóloga Laura Betzig conduziu um estudo empírico que estabelecia uma correlação entre a poligamia e os Estados despóticos. Enquanto o sociólogo James Boone defende que as sociedades polígamas têm uma maior probabilidade de embarcarem em conflitos contra outros Estados, de forma a permitirem que os jovens solteiros com baixos rendimentos libertem a sua frustração.

Mais de um terço das mulheres da África ocidental têm maridos polígamos, mas também no mundo Árabe, no sudeste asiático e em algumas zonas das Caraíbas a poligamia é aceite.