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Ansiedade na alta competição: "O apoio psicológico ainda é desvalorizado"

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André Gomes

Etsuo Hara/ Getty Images

De repente, vários atletas de alta competição, da estrela da NBA Kevin Love ao futebolista português do Barcelona André Gomes, confessaram sofrer de ansiedade e depressão antes, durante e após os jogos. Nada que surpreenda Jorge Silvério, psicólogo da seleção nacional de futsal: "Fala-se imenso da ajuda neste campo aos atletas, mas depois faz-se muito pouco"

Se, nas três semanas que durou o campeonato europeu de futsal, que a seleção portuguesa venceu em fevereiro, algum jogador apresentasse distúrbios de ansiedade, o que fazia o psicólogo da equipa, Jorge Silvério? - perguntou a VISÃO ao próprio. "Não há milagres", respondeu o especialista, primeiro mestre em Portugal de Psicologia do Desporto, sendo também doutorado nesta área. Ou seja, o trabalho é continuado e consolidado a longo prazo. "Já acompanho os jogadores da seleção nacional de futsal há dois anos", lembra Jorge Silvério.

A conversa surge a propósito do surto de atletas de alta competição que vieram a público confessar que sofrem de ansiedade e depressão, distúrbios causados pela pressão a que estão sujeitos. Os depoimentos são todos impressionantes. Kevin Love, 29 anos, estrela dos Cleveland Cavaliers e da NBA, a liga americana de basquetebol profissional, revelou os seus distúrbios mentais, motivado pelo colega DeMar DeRozan, craque dos Toronto Raptors, que antes dele admitira sofrer de depressão.

Em novembro de 2017, durante um jogo contra os Atlanta Hawks, Love sentiu fortes dores de estômago e saiu do campo com falta de ar. "Aconteceu de forma inesperada e, desde então, tudo o que eu pensava sobre problemas mentais mudou", diz o basquetebolista. Para acrescentar: "Ao longo de anos a fio escapei aos meus problemas seguindo a regra do 'sê um homem', não queria parecer fraco, até que o ataque de pânico aconteceu e não pude fugir mais." Love precisava de falar com alguém sobre a sua vida e procurou ajuda terapêutica, que tem sido muito benéfica - testemunha. E o basquetebolista quer agora "contribuir para a abertura de um diálogo" que auxilie colegas de profissão e anónimos que passem por depressões.

Também o futebolista português André Gomes, que alinha no Barcelona, contribuiu para pôr o tema na montra pública, através de uma entrevista sem filtro à revista Panenka. O jogador, 24 anos, disse não saber por que não está a corresponder às expectativas e confessou à publicação que se encontra a viver um autêntico "inferno" na Catalunha. "Não me sinto bem em campo, não estou a desfrutar", confidenciou. "Os primeiros seis meses foram bons, mas depois as coisas mudaram - comecei a sentir a pressão. Vivo bem com a pressão de fora, o problema é a pressão que coloco sobre mim mesmo."

Com a acumulação de críticas às suas prestações em campo, André Gomes chegou ao ponto de, excetuando as saídas para os treinos e jogos, fechar-se em casa. "Não quero que as pessoas me vejam, sinto vergonha", admitiu na entrevista. O médio começa a apresentar comportamentos depressivos. "Não me permito libertar a frustração. Não falo com ninguém, para não incomodar ninguém. É como se me sentisse envergonhado... Pensar de mais faz-me mal." Mas pensa, e muito, "nas coisas que correram mal, no que tenho de fazer..."

Esta quarta-feira, 14, os adeptos do Barcelona confortaram André Gomes com uma estrondosa ovação, no Camp Nou, quando o médio português entrou no relvado, aos 61 minutos, para o lugar de Sergio Busquets, no jogo da Liga dos Campeões em que os blaugrana venceram o Chelsea por 3-0. Nas redes sociais, André Gomes agradeceu: "Muito obrigado, adeptos. Sem palavras", escreveu o futebolista. Mas chegará para a desejada recuperação? Se olharmos para Per Mertesacker, defesa central do Arsenal de Londres e futebolista internacional alemão, a resposta é negativa. Em entrevista à revista Der Spiegel, Mertesacker, 33 anos, disse que o futebol provoca-lhe ansiedade e afeta-lhe a saúde. Esta é a última época da sua carreira, mas nem assim desfruta da profissão. "Prefiro ficar no banco ou, melhor ainda, na bancada", confessou. E, quando se retirar, vai finalmente sentir-se "livre".

Com frequência, antes dos jogos, Mertesacker tinha o estômago "às voltas", o vómito chegava-lhe à boca, e enquanto fazia força para se aguentar, os olhos enchiam-se-lhe de lágrimas. Um suplício - a ponto de se lembrar bem do momento, no Mundial de 2006, na Alemanha, em que, com a sua seleção, perdeu a meia-final com a Itália. Tinha 21 anos, ficou desapontado, claro, mas sobretudo aliviado. "Acabou, finalmente acabou", recorda-se de ter pensado no balneário.

Tudo isto confirma o que Jorge Silvério diz à VISÃO: "O apoio psicológico na alta competição ainda é desvalorizado. É raro recorrer-se a especialistas - embora haja estratégias consolidadas, tanto de treino mental ao longo de uma época como de carácter clínico." Será desta que as coisas mudam?