Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A tragédia do regresso do sarampo ou a face mais visível do movimento anti-vacinas

Sociedade

Jose Carlos Carvalho

Por cada voz que se levanta contra as vacinas, dá-se mais um passo atrás na erradicação de algumas doenças infecciosas, como o sarampo. Só no ano passado o número de casos aumentou 400% na Europa

Um recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica de "tragédia" o advento do sarampo - doença infecciosa contagiosa que estava praticamente erradicada, graças à vacinação inserida no plano da maioria dos países desenvolvidos.

O ano de 2017 ficará marcado por este regresso, espaldado por números assustadores. Em 53 países da Europa, há a registar 35 mortes e cerca de 21 mil infetados, o que representa um aumento de 400 por cento em relação ao ano anterior (2016 teve apenas 5 273 casos). Em Portugal, lamentam-se 27 doentes e a morte de uma adolescente de 17 anos, em abril. Mais de 90% destes casos aparecem em pessoas que não estão vacinadas.

O país mais afetado é a Roménia, com 5 562 casos, logo seguido pela Itália, com registo de 5 006 doentes, e pela Ucrânia (4 767). Estes números correspondem a uma diminuição da cobertura das vacinas nos mesmos territórios.

"Trata-se de uma tragédia que simplesmente não podemos aceitar", lamentou a diretora das Nações Unidas para a Europa, Zsuzsanna Jakab.

Até outubro do ano passado, Portugal apresentava uma taxa de vacinação que rondava os 96%, o que significava haver imunidade de grupo, ou seja, a maioria da população estava protegida contra esta doença que pode evoluir de forma grave, causando até a morte. Essa proteção advinha também do facto de as pessoas com mais de 40 anos já terem tido sarampo no passado. Mas o último Inquérito Serológico Nacional (do Instituto Ricardo Jorge) estimou que a percentagem de pessoas imunes à doença tenha caído para menos de 95% (94,2% para sermos exatos), a taxa mínima necessária para prevenir uma epidemia.

TRUMP TAMBÉM É ANTI-VACINAS

O movimento anti-vacinas, nunca é demais repetir, baseou-se num estudo fraudulento, publicado em 1998, por Andrew Wakefield. O artigo chegou a ser publicado na prestigiada revista científica The Lancet, para mais tarde ser retirado por falta de rigor. Mas o mal já estava feito e tudo o que este médico inglês defendeu naquelas páginas passou a ser dogma para as pessoas que optaram por segui-lo. A principal argumentação desta corrente relaciona a toma de vacinas com o aparecimento de autismo.

De nada serviu provar-se que Andrew recebera dinheiro de organizações anti-vacinas ou que o estudo teve por base apenas 12 crianças, pagas para entrarem na suposta investigação.

No entanto, há vozes sonantes que continuam a insuflar o movimento. Casos dos atores Jim Carrey (que teve uma relação de cinco anos com Jenny McCarthy, outra grande ativista anti-vacinas) e Robert De Niro (que tem um filho com autismo).

Há quatro anos, Donald Trump escreveu no Twitter que, se chegasse a presidente dos EUA (e chegou), tomaria providências em relação à vacinação em massa. E já anda a mexer-se nesse sentido. Chamou Robert F. Kennedy Jr. para o assessorar numa comissão para rever a segurança das vacinas e a sua hipotética relação com o autismo. Haja esperança: até agora ainda nada se concretizou. As crianças de todo o mundo agradecem que assim seja.