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Festival da Canção: “Vivo da música e de outras coisas. Faço coisas, em geral...”

Sociedade

Cláudia Pascoal (à esquerda) e Isaura erguem o troféu de vencedoras do Festival da Canção de 2018 com o tema "O Jardim"

RTP

A cantora que nunca sonhou estar no Festival da Canção ganhou-o. Com um composição simples e uma letra cheia de significado. Segue-se a Eurovisão e uma certeza: a de querer fazer música

Aos 24 anos, Cláudia Pascoal não é uma desconhecida para muitas pessoas, mas agora passou a ser conhecida de quase todas as pessoas. A vencedora do Festival da Canção, como tema O Jardim, agora representante portuguesa na Eurovisão, que este ano se realiza em Lisboa depois da fulgurante vitória de Salvador Sobral e da irmã Luísa Sobral (compositora) no ano passado, já participou em dois talent-shows.

Primeiro, em 2015, no Ídolos, na SIC, e, no ano passado, no The Voice, na RTP1. Do Ídolos não guarda as melhores memórias. “Foi horrível. Foram horas e horas. Não havia alimentação. Tive quatro dias que ao todo dormi três horas. Foi incrivelmente doloroso”, referiu ao Jornal Universitário do Porto há um mês.

Já na RTP1, sentiu-se respeitada “enquanto artista”, apesar de uma escolha da produção para que cantasse o tema Despacito a ter feito quase desistir. “Queria que as pessoas que me vissem ao longo do The Voice vissem depois um concerto meu e compreendessem o que eu estava a fazer”. Continuou. Quando teve de sair fê-lo com um grande sorriso nos lábios e, se tivesse de voltar atrás, “repetia”, disse ao mesmo jornal.

Até porque a relação que criou com a sua mentora no programa, a cantora Aurea, deu frutos. Além de terem feito um dueto no talent-show, Cláudia foi convidada por Aurea para cantar com ela no seu concerto da última passagem de ano, na Av. dos Aliados, no Porto. “Foi das melhores sensações de sempre.”

Aurea, que lançou há um mês, em formato digital, o tema “Done With It!” (single do álbum que vai sair na primavera), diz à VISÃO que sentiu “desde o início, uma ligação muito especial com ela, e foi muito fácil trabalharmos juntas porque nos entendíamos muito bem e ela tem uma energia muito positiva”.

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Não é papa concursos

Mas não chamemos a Cláudia a rapariga dos concursos, já que o seu percurso até à música foi bastante diversificado.

Tirou três cursos: ourivesaria, licenciatura em Artes Plásticas e um mestrado em Produção e Realização Audiovisual. Este último enquanto trabalhava como estagiária no programa Curto Circuito, da SIC Radical.

Por isso, quando acabou o estágio e voltou ao Porto, os pais queriam que ela assentasse e tivesse um trabalho, vá lá, mais regular. Ela pediu-lhe um ano e ainda lhes “atirou” que iria ao Festival da Canção. Bem dito, bem feito. Alguns meses depois, Isaura, uma das compositoras convidadas pela RTP para fazer uma canção, enviou-lhe uma mensagem através do Facebook para conversarem. “Atirei-me para o chão e comecei a chorar”, referiu num vídeo na sua página desta rede social. “Sempre gostei de ver o festival na televisão, mas nunca na vida pensei lá estar. Ainda não acredito”, dizia, a dois dias da final.

É, talvez por isso, que a palavra que encontra para definir esta etapa seja “gratidão” por “todo o carinho” que tem recebido. E di-lo da forma mais descontraída, num direto através do Facebook em que está sentada na cama do quarto de hotel, em Guimarães (cidade onde decorreu a final), com os lençóis a tapar as pernas, uns dias antes de pisar o palco.

Foi a pensar na avó, recentemente falecida, que Isaura escreveu e compôs O Jardim. A autora, que participou no concurso Operação Triunfo da RTP1, em 2015, construiu a sua própria carreira musical, tendo já atuado em vários festivais de música, como o SuperBock SuperRock, NOS Alive, Bons Sons ou Rock in Rio. Aliás, Isaura compôs três música para o Festival da Canção. Uma pôs logo de parte, mas aquela para a qual convidou Cláudia Pascoal foi a terceira. Só em estúdio, quando ensaiavam, é que Isaura e Claúdia chegaram à conclusão que deviam levar O Jardim ao concurso. “É uma canção tão pessoal que nunca ponderei dá-la a outra pessoa. Foi uma questão de confiança e porque achei que a Cláudia estava a trazer coisas boas à música”, referiu, também num vídeo no Facebook, antes da final de ontem.

Cláudia, a rapariga que gosta de mudar de cor do cabelo a grande velocidade sabe, agora, que encontrou o seu caminho: a música.

Tem uma banda chamada Morhua – o nome científico do bacalhau, já que o seu apelido faz uma analogia direta a uma marca que comercializa bacalhau. E, por isso brinca com o assunto: tem uma tatuagem desse peixe na parte interior do antebraço direito.

Os Morhua têm um estilo entre o “jazz, gipsy e blues”, explica Cláudia num dos seus vídeos – é uma rapariga muito ativa no Instagram e no YouTube.

Já depois de se saber que iria ao Festival de Canção, esgotou a sala Plano B, no Porto. “Foi a primeira vez que esgotei bilhetes.”

Descontraída e boa onda

A cantora, natural de Gondomar, diz que “vive da música e de outras coisas. Faço coisas, em geral...”. O tom com que fala é sempre descontraído, mas não, digamos assim, “à vontadinha”. Fala de forma a passar a sua mensagem, sem arrogâncias ou altivez.

Como nos diz Aurea: “É muito boa onda, divertida, super interessada naquilo que os outros têm para lhe dizer. É daquelas pessoas que sabe bem ter por perto!”

Sobre a música O Jardim, a cantora com a alma no soul, acrescenta que tem “uma sonoridade extremamente atual, a letra é muito bonita e cheia de significado e a interpretação da Cláudia é fantástica, como não podia deixar de ser.”

Cláudia é da mesma opinião. A “mensagem é muito forte. É uma conversa, um reencontro com as pessoas que aqui não estão”. Esperemos que a 12 de maio, dia da final do Festival Eurovisão, na Altice Arena, em Lisboa, Cláudia e Isaura (que também canta uma estrofe da música) estejam no palco para “conversarem” com os milhões de espectadores que irão seguir as atuações.