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Quando os homens são discriminados

Sociedade

PhotoAlto/Ale Ventura/GettyImages

O filósofo sul-africano David Benatar é famoso por defender que a vida é tão má que é melhor não existirmos. Mas também escreveu um livro a enumerar as formas de discriminação contra os homens. E falou com a VISÃO sobre esse "segundo sexismo"

O título da obra não engana ninguém: O Segundo Sexismo: Discriminação Contra Homens e Rapazes (The Second Sexism: Discrimination Against Men and Boys, no original, publicado em 2012). É aí que David Benatar, diretor do departamento de Filosofia da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, argumenta que o "sexo forte" é fortemente discriminado. À VISÃO, por Skype, o professor justifica a sua posição.

“Há muitos países em que apenas os homens são obrigados a cumprir o serviço militar e são enviados para a guerra”, exemplifica. “Mais: o castigo físico, que em muitas jurisdições é infligido apenas ao sexo masculino e não ao feminino; os homens são tratados de forma mais dura pelo sistema judicial; a lei lida com a violência sexual de uma forma muito menos séria quando a vítima é homem do que quando é mulher, sendo que, em algumas jurisdições, a violação do homem nem é considerada violação; no divórcio, os homens partem em desvantagem para conseguirem a custódia dos filhos, em muitos países.”

São, segundo o filósofo, casos óbvios de discriminação. A somar a estes, há situações de desvantagem masculina, que, diz, podem ou não ter uma componente discriminatória. “A esperança média de vida das mulheres é maior em praticamente todos os países do mundo. É isso um resultado da discriminação? Em parte, não, é biológica. E em parte, sim, porque também resulta do facto de haver mais violência socialmente aceite contra homens, e isso inclui a violência letal, com mais homens a serem assassinados.”

A afirmação é inegável. Como é inegável que essa violência letal é também perpetrada por homens. Um pormenor que não deve – não pode – ser tomado em consideração, assegura. “A vítima continua a ser vítima. Pensemos no caso da mutilação genital feminina: habitualmente são as mulheres que a fazem a outras mulheres. Mas nós não pensamos que, por isso, já não é discriminação.”

O livro, como se esperava, teve os seus detratores, sobretudo entre os movimentos feministas, o que irritou (mas não espantou) Benatar. ”Acusaram-se de dizer que os homens estão em pior posição do que as mulheres, quando eu digo que essa é uma questão complexa, que depende, entre outras coisas, da parte do mundo em que nos encontramos; atribuíram-me a afirmação de que as mulheres não estão em desvantagem ou não são discriminadas, e eu não só não digo isso como começo o livro a reconhecer todas as formas de discriminação contra as mulheres. Houve muitas distorções.”

O feminismo, aliás, não tem de ser inimigo do seu ponto de vista. O feminismo igualitário, entenda-se. “O problema é que há um tipo de feminismo que não está interessado na igualdade – a única coisa que lhes interessa é a evolução da posição da mulher. Esses feministas querem a igualdade quando a mulher está em desvantagem, mas desvalorizam-na quando a desvantagem é do homem.” Porque é que não podemos falar de ambas em simultâneo? “São questões paralelas, as dos homens e as das mulheres. Uma não decorre da outra. Há um estranho argumento de que temos de conciliar as duas coisas.” Afinal, a discriminação não tem de ser uma guerra dos sexos.

Na longa conversa com a VISÃO, David Benatar falou também da tese pela qual é mais conhecido, o antinatalismo: o sul-africano tem a convicção de que as coisas más da vida superam as boas, e portanto é melhor não existirmos, advogando a extinção da humanidade e de todos os seres sencientes.

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA NA VISÃO DESTA SEMANA; QUINTA FEIRA NAS BANCAS