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Se o cancro fosse um verbo, dir-se-ia que se conjugava vezes de mais em Toutosa

Sociedade

Lucília Monteiro

Nesta aldeia nortenha, o cancro espreita em cada esquina – numa casa morreu uma pessoa; na do lado anda outra a tratar-se; lá mais ao fundo foi um casal... Há aqui mistério ou tudo não passa de uma mera perceção?

Mal estacionamos o carro junto à igreja, no largo central da aldeia, ouve-se o sino tocar. Para quem vem da cidade, este já é um som pouco comum e sinal evidente de que nos afastámos da vida urbana. Na realidade, estamos muito mais longe do que os escassos 45 minutos que se tarda do Porto à Toutosa. Aqui, a água que corre nas torneiras tem origem, quase toda, em poços abertos nos quintais.
E o esgoto doméstico vai parar a fossas séticas. Verdade ou consequência, em Toutosa, concelho do Marco de Canaveses, diz-se à boca cheia que se registam mais casos de cancro do que no resto do País.

“A água é uma categoria, saborosa, sai em fundo de pedra. Raramente bebo da garrafa”, assegura António Teixeira, 67 anos, assomado ao portão da sua casa, quase no final da Rua da Tapada, onde se contabiliza a maior parte de casos de cancro.

Apesar da certeza, este antigo empregado do comércio, reformado desde que, em 2013, lhe detetaram um tumor no intestino, nunca gastou a centena de euros necessária para testar a água que ele, a mulher e a filha consomem há mais de 20 anos.Talvez por isso tenha ficado boquiaberto com os resultados que Alberto Lima lhe apresentou, poucos minutos depois de ter começado a analisar o que sai do seu poço com 16 metros de profundidade. Este biólogo, com doutoramento em hidrogeologia, e antigo professor da Universidade do Minho, predispôs-se a ir de Braga até esta aldeia de 588 habitantes e fazer, pro bono, análises à água que as pessoas consomem, com o objetivo de “dar um contributo para esclarecer a situação que aqui se vive”. Se a investigação prosseguir, com exames mais minuciosos, aí terá de imputar despesas. Alberto pode ter de esclarecer se as águas têm nitratos, nitritos ou azoto amoniacal, e ainda detetar a existência de metais, como arsénio ou crómio. Por último, se se justificar, fazer testes de radioatividade, porque em zonas graníticas, como é o caso desta aldeia, existe muitas vezes radão na água e até no ar.

António Teixeira

António Teixeira

Lucília Monteiro

Mil euros para se ligarem ao ramal

Estamos nas traseiras da casa de António Teixeira, onde existe uma mangueira e um tanque. Alberto Lima calça luvas de latex e expõe os elétrodos à água do poço: 433 μS/cm de condutividade. “Este valor não deveria exceder os 100, por isso mostra que qualquer coisa está errada”, conclui, de imediato. Quanto ao pH de 6, é um resultado normal para solos graníticos. E os 193 mV do potencial de redução não revela nada de extraordinário – a água ainda tem oxigénio dissolvido. Veredicto: “Há contaminação físico-química. Pode ser um processo não natural que contribui para a mineralização das águas. Olhando para a envolvente, diria que são os afluentes domésticos.” Alberto Lima acrescenta ainda que no meio dos sais que detetou é altamente provável que existam nitratos. “Todas as fossas a montante devem estar a contaminar.” Entretanto, avisa António Teixeira e a mulher, sem alarmismos, que a fervura da água não afasta o problema e pede-lhes que evitem a sua utilização na cozinha. Termina concluindo o óbvio: “Era bom que existisse aqui uma rede de saneamento a funcionar.”

De facto, não se compreende como a empresa Águas do Marco, que começou a explorar o sistema público de saneamento de águas residuais na região em 2015, assuma que só 30% das casas estabeleceram ligação aos ramais. Ou compreende-se, tendo em conta os valores praticados na região, segundo Isabel Baldaia, 62 anos, ex-presidente da Junta – entre mil e mil e trezentos euros, consoante a distância da casa ao ramal.

Os assuntos misturam-se, é inevitável. Sentada à mesa da sua sala de jantar, rodeada de papéis, esta professora de química na escola do Marco de Canaveses não consegue separar a falta de saneamento dos casos de cancro que contabilizou na aldeia onde nasceu e onde o anho assado com arroz de forno tem direito a confraria. Saindo de sua casa são dois passos até à igreja e daí outros tantos até às sete ruas onde elencou os 37 casos de doença em 20 anos. E ela sabe-os de cor, descobrimos à medida que aponta para as portas que escondem, ou esconderam, essas pessoas afetadas por vários tipos de cancro. “As mulheres que viviam nestas casas já morreram, assim como mais 24 pessoas. Os homens não estão cá hoje e um deles até já casou outra vez.” As histórias deste tipo sucedem-se e concentram-se essencialmente nestas ruelas que se percorrem num instantinho a pé.

Adelaide Teixeira, 64 anos, está no quintal a aproveitar o sol de inverno que, imagina-se, a aqueça por cima da roupa preta que teima em vestir pela morte do marido, há três anos, vítima de cancro na boca. “Não durou um ano. Ainda lhe fizeram uma operação para falar e comer melhor, mas entretanto descobriram que também tinha no pâncreas.” Adelaide vive sozinha na casa para onde se mudou em 1996 e convalesceu do linfoma numa coxa, já lá vão 17 anos. “Por aqui abaixo houve tanta gente que morreu e outros tantos doentes, do fígado, do pâncreas, do pulmão...”, enumera, com conhecimento de causa e bastante desgosto.

Cancro aumenta 3% ao ano

Raul Almeida vive no Porto, mas vai a Toutosa quase todos os dias, porque assumiu-se como médico da Unidade de Saúde Familiar da aldeia, há cinco anos, conhecendo já bem esta população. É no seu consultório que deteta os sinais de alarme e envia as pessoas para exames mais meticulosos. Ainda se lembra do primeiro caso que diagnosticou: um senhor que apareceu com uma queixa de epilepsia e, afinal, era um tumor no cérebro. Morreu no ano passado.

“Entre 15 a 20% da minha lista de doentes tem ou já teve cancro, talvez causado pela consanguinidade que aqui existe ou pelos terríveis hábitos alimentares. É um mundo deles, da cabeça à bexiga, passando pelos ossos.” Quando tomou consciência destes números, visivelmente exagerados face aos 5% do seu anterior agregado de doentes, participou-o ao diretor executivo do centro de saúde. Mas só quando os “zunzuns” chegaram à TVI é que recebeu uma chamada de Nuno Miranda, diretor do Plano Nacional de Prevenção das Doenças Oncológicas, para avançar com um estudo, que inclui levantamento estatístico e historial clínico de cada doente. Esse está a ser feito pela Coordenação de Saúde de Amarante, mas os resultados ainda não podem ser divulgados.

No entanto, Nuno Miranda adiantou à VISÃO que “os números de incidência não mostram um aumento [do número de casos clínicos] para aquela região.” A nível nacional estimam-se que apareçam anualmente 500 casos de cancro por cada cem mil habitantes. Na freguesia de Santo Isidoro e Livração, onde se insere Toutosa, registam-se 10 em duas mil pessoas. “É o esperado, o cancro está a aumentar de incidência à razão de 3% ao ano”, informa o especialista. Mais: se fosse um surto teria de haver uma causa comum que provocasse um determinado tipo de cancro, coisa que não acontece nesta aldeia, em que a doença se manifesta em todos os órgãos. “Nos meios pequenos, a informação passa mais depressa, o que levanta suspeitas e medos.” Se as casas daquelas ruas que percorremos a pé, em minutos, fossem apartamentos fechados num prédio em Lisboa, alguém conheceria tão bem as histórias da doença dos seus moradores? Apesar de estar seguro de que isto não passa de uma perceção errada, Nuno Miranda garante que vai levar a investigação até ao fim, embora as análises de mortalidade por doenças oncológicas realizadas não mostrem, nos anos analisados, qualquer aumento significativo. “Em 2014 ocorreram seis óbitos e, em 2015, só houve mais um. Este número está dentro do esperado, para a população residente.” Quando terminar o estudo, a opinião pública será informada, “para descansar as pessoas”.

José Machado

José Machado

Lucília Monteiro

“Nunca mais temos saneamento”

“Se se chegar à conclusão de que nada disto tem a ver com a água, então é que nunca mais temos saneamento”, lamenta-se António da Mota, 70 anos, oficial de contas, nascido e criado em Toutosa. Não fala assim por acaso. No verão passado, fez uma exposição por escrito, que entregou em mão ao primeiro-ministro, e por email ao Presidente da República, em que alertava para os casos de saúde que poderiam ter origem na água (também deu a conhecer o seu lamento a todos os candidatos à Câmara do Marco de Canaveses). “Falarei até que a voz me doa, porque sinto ser um ato de cidadania. Temos um estádio arrelvado, mas sempre achei que a água canalizada devia estar em primeiro lugar.” As respostas que teve foram parcas e sem resultados práticos, como já se percebeu. Mas, como teve conhecimento de que foi solicitada uma pronúncia à Câmara, vai pedir uma audiência para se inteirar em que pé está a situação. Talvez tenha mais sorte do que nós, pois, apesar das tentativas, não conseguimos sabê-lo pela presidente, que se recusou a receber-nos.

A José Machado, 62 anos, pouco lhe importa se os números estão acima ou abaixo da média nacional ou o que prometem candidatos, presidentes e primeiros-ministros. Para ele, o cancro no pulmão, detetado há três anos no seguimento de uma dor de garganta, ainda hoje lhe tira o ânimo e a capacidade de trabalhar na construção. Na operação a que se submeteu no IPO do Porto, depois de o médico de família o mandar para lá, ficou sem 8 centímetros de pulmão e obrigou-o a fazer quimioterapia. De três em três meses, lá vai ele, de comboio, à revisão, para ter a certeza de que tudo continua bem. A mãe, Maria Rosa, de 88 anos, pede a todos os santinhos que não lhe levem mais um filho, pois já ficou sem seis, dois deles vítimas da doença que assalta Toutosa. “Sofro muito, mas tenho Deus ao meu lado”, diz, embrulhada em várias camisolas por causa do frio, e disfarçando as naturais lágrimas de quem já penou muito nesta aldeia.